quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Ah, Esse (des)Educado Brasiles!


  
“... Eu quero desaprender para aprender de novo.
Raspar as tintas com que me pintaram.
Desencaixotar emoções, recuperar sentidos...!”
Rubem Alves 

Consegui ser um feliz infeliz em um só dia. Perdão o paradoxo. Explico:
Dia desses, acordei com Eça de Queiroz, ainda ecoando em minha mente. Na noite anterior havia concluído a leitura de Os Brasileiros (Língua Geral) lançada em 2008, em terras tupiniquins. Claríssimo que essa foi à parte feliz.
A parte infeliz foi acordar, e ao ver as noticias culturais: leio:
 – Brasil sobe um degrauzinho no IDH – Índice de Desenvolvimento Humano - medido pela ONU. Não esquecendo que estamos no segundo nível, ou seja, nos países considerados elevados. Pois nos muito elevados que compõem a categoria inicial, perdemos feio. Sim, muito feio. Para Argentina e Chile, ambos na primeira categoria. E os demais países sul-americanos, todos na nossa categoria, porém disparados à frente de nosso Brasil.
 O Uruguai, o país, abaixo de nós, no mapa, menor que o Rio Grande do Sul, está, exatos, 40 lugares a nossa frente.
Na expectativa de vida, ficamos atrás das Seychelles. Sim, aquele conjunto de ilhas que o Presidente Collor ia “festia” (previsto na nova ortografia.)
Em escolaridade estamos pior que o Irã. Claro que esse país, do Oriente, leva vantagem, já que conta somente o sexo masculino. Lá a mulher está em segundo plano, para tudo.
Em renda estamos abaixo da Sérvia. Sim um dos pequenos países formados com a extinção da União Soviética e que já passou por guerras e mais guerras.
Junto, pois fazia parte desse conjunto de matérias, estava logo abaixo, a indignação do ex-presidente Lula. Sim, depois de ter curado, rapidinho, um câncer no hospital privado mais caro do País (ele não confiaria isso na saúde pública nunca). SUS, nem pensar. Ele queira ir a ONU discursar sobre esse disparate  efetuado com a educação no Brasil.
Fiquei estupefato, uma ida ao hospital e um câncer devem ter alertado mais neurônios naquele alfabetizado funcional, pois utilizou duas palavras, sozinho, - sem necessitar da assessoria – discursar e disparate.
Era para ser este ano. Não será mais a entrada em vigor o Decreto 6.583,  com a Nova Ortografia (do grego orthós = correto, graphia = escrita), ou como gosta de dizer Ricardo Santana “desacordo” que depois se transformará em Lei e substituirá a atual. Por isso escrevi acima, festia, que pode ser utilizado agora tanto como festar. O verbo poderá alterar-se de acordo com o regionalismo que faz parte do novo acordo. Mas somente algumas palavras. Ou seja, terá que aprender a língua toda, novamente, se não quiser errar.
Para o filólogo (especialista em línguas e história da gramática, linguística, estilística) Evanildo Bechara, em entrevista à Folha de São Paulo, logo após a divulgação do acordo comentou: “... dizer que o Acordo é perfeito, não é... podem vir mais mudanças para corrigir um ou outro problema que a prática e o uso da língua indicarem...!”. Para a escritora paranaense Norma Carta Winter, (...) a língua é um elemento vivo; evolui, altera-se, naturalmente, regida pela “lei do menor esforço”, lei que determina todas as ações do ser humano.
É, sempre, a busca da acomodação e da simplificação fonética, a oralidade da língua, que acaba provocando novas mudanças, e consequentemente, (sem o trema. Ele não existe mais na nova ortografia) novas grafias.
Mas e Eça de Queiroz, que me deixou feliz?
Concluo com ele, ou o que absorvi de sua obra. Esse português era um consumado ironista. Essa característica avulta dessa seleção de textos sobre o Brasil (país onde o autor nunca esteve), alguns deles escritos com o jornalista Ramalho Ortigão, seu parceiro na publicação mensal As Farpas. O autor de Os Maias tinha um olhar crítico para as precariedades do Brasil. E estamos falando de antes de 1900, por favor, atente para isso. O descaso brasiles com a educação é denunciado em uma crônica que comenta a verba que o governo destinou à compra de crucifixos para as salas de aula – verba que seria bem aplicada, dizem Eça e Ortigão, na compra de palmatórias. (Para quem não sabe, palmatória é uma peça de madeira, com cabo, usada para bater nas mãos da pessoa que deveria ser castigada. As mais "avançadas" tinham furos no meio, de modo que o impacto fosse ainda maior). O que hoje seria, tranquilamente, tachado de bullying, (termo utilizado para descrever atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos, praticados por um indivíduo).
Mas tudo bem, Eça de Queiroz é muito antigo, antes de 1900, e a Nova ortografia só entra em vigor em alguns anos. Temos “coisas” muito mais importantes para nos preocupar: Corrupção? 
Não! Copa do mundo.
Pão e circo e octogésimo quinto lugar no IDH, na segunda colocação de países, os elevados. Porque, por enquanto, parece que pensar dói...


Do original publicado no Bahia em  2011.
profeborto@gmail.com
Passo Fundo - RS