quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

" Os Infelizes Felizes!"



- ou Síndrome de dr. House * 

“... Em toda adversidade do destino,
a condição que gera mais infelicidade
é o fato de se ter sido feliz.. !”.

by  Boécio – Filósofo latino – 480-526 –
O consolo da filosofia, II,4 .

O que nos faz infeliz? Ou porque a felicidade dura tão pouco?
E o que é felicidade? Porque nos parece mais fácil definir a infelicidade?
Um é causa. A outra consequência. O autor do seriado estadunidense Dr. House, criou um personagem que define, em nosso tempo, o que o ser humano conhece desde os primórdios. Na Homilia ao povo da Antioquia, XVIII, 4 o padre São João Crisóstomo, 345-407, iniciava dizendo: “...Ninguém pode nos fazer infelizes, apenas nós mesmos...!”.
Desde os heróis gregos, da Ilíada de Homero, todos foram infelizes e morreram infelizes. Maquiavelli, Shoppenhauer, Nietzsche.
Bem, este último deve ser o preferido do autor do seriado, pois é citado em quase todos os capítulos.
Mas o que tem a ver Dr. House, sua infelicidade e a nossa?
Tudo.
Em Os Miseráveis – Victor Hugo, de 1862 - como ópera, depois como filmografia dizia, à forma da época, através da pobreza, dos miseráveis o que era infelicidade. E como desta forma, eram felizes. Ao mesmo tempo. Antagônico? Não. Realista.
Em quase toda genialidade há infelicidade. E rima. Nietzsche foi um gênio infeliz, e o fazia escrevendo. “... As palavras são como fazer amor....!”. Algo que ele somente foi fazer, no sentido biológico depois dos 35 anos. O personagem do seriado é um gênio na área da medicina, em diagnosticar. Não quer ver pacientes. Apenas analisa informações. Racionalidade. Exagerada para alguns. Apenas realidade para outros.
Tenho amigos Dr. Houses. Muitos. Correspondo-me com eles. Amo falar com eles. Uns escrevem. Outros pintam maravilhosamente. Outros tratam de pequenos animais e crianças. Outros fazem de instrumentos musicais verdadeiras sinfonias divinas. Outros ensinam de maneira muito diferençada da grande maioria. Até são considerados rudes e grosseiros. Outros são gênios em sua área de trabalho. Destacam-se em uma área profundamente. São conhecedores da própria alma. Todos já tiveram uma grande paixão. Todos já tiveram um grande sofrimento. E deles fizeram sua arma de criação de “seus mundos”. Muito diferençado da grande maioria. Eles acabam ajudando mais do que os “bonzinhos”. E não querem recompensa. A recompensa esta na manutenção da infelicidade feliz. Não querem ser iguais a ninguém. São únicos.
Os ditos “normais” os chamam de infelizes. Assim como Dr. House. Porem tem dificuldade em verificarem suas próprias realidades. Geralmente tem inteligência acima da média. Tem problemas de relacionamentos. Se tiveram família, duraram pouco. Se tiveram uma paixão, durou menos ainda. Não conseguem manter.  Suas mentes buscam sempre mais e mais. Não querem a rotinização. Não querem o igual todos os dias. E se fixam em seres parecidos, porem, que em seus julgamentos estejam acima de suas próprias capacidades, inteligências. Ignoram o restante. Não vivem apenas para os outros.
Kierkegaard escreveu em 1849, sua obra "Desespero Humano - Doença até a Morte", no qual o filósofo procura refletir sobre o significado do desespero, ou melhor, dos desesperados, dos infelizes e como podemos lidar com eles de uma maneira otimizada para a nossa existência, questionando:                                                                                                  
“... Será que o desespero advém exclusivamente de acontecimentos externos/ Serão tais situações que nos fazem desesperar? Será a influência do meio externo que esmaga os nossos horizontes para a visualização da felicidade?...”.
Responde? Não. Continuam infelizes felizes. Não querem mudar. Esta é sua realidade, sua concepção de mundo. Não tem medo da morte. Aliás, se possuem medos eles estão muito bem escondidos. E são racionalizados, profundamente. Assim a sua quase inexistência. Psicanalistas tentam buscar em nossa criação através das relações com nossos pais. Justificam apenas. Não explicam. E os Infelizes felizes, não querem explicações. Não as que todos julgam ter. Eles têm as deles. Pronto. Farão os que os “normais” fazem, mas não da maneira dos “normais”. E isso os torna diferençado dentro de nossa própria realidade. Eles acabam fazendo mais por muitos do que todos os bonzinhos juntos. Então para que explicações?
Para muitos Dr. House é infeliz e viciado em uma droga farmacológica, devido as dores físicas, ocasionadas por um derrame muscular, em sua perna. A dor física como motivo para a infelicidade. Desculpas. Apenas.
Isso apenas lhe faz sentir dores físicas. Mas nada tem a ver com suas realidades de infelizes felizes. Muito pelo contrário. Eles sentem a vida presente como ninguém.
Trilussa, poeta dialetal italiano escreveu em sua Acqua e vino, Felicitá, entre 1871 e 1950: “ ... Há uma Abelha que pousa / sobre um botão de rosa: / suga-o e vai-se embora... / Em suma, a felicidade / é uma coisa pequena...!”
Mas e as relações dos infelizes felizes?
Para Freud, “...o extinto do amor para com o objeto, exige dominá-lo para obtê-lo... Se uma pessoa sente que não pode controlar o objeto ou se sente ameaçado por ele, ela age negativamente para com ele... !”.
E fazer isso é estar em contato com nossos sentimentos.
E a racionalidade não gosta muito disso.
Descobre-se, rápido demais, que o amor dói...
Por isso pensam tanto.
Afinal, ao menos, isso.... Ainda, não dói!


 *Dr. House -  Seriado Estadunidense com o ator  inglês Sir Hugh Laurie


Leituras & Pensamentos da Madrugada
Publicado no Sul na Bahia e ES.