quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

" O Que é Ser Bom!"





“ O homem é a medida de todas as coisas, 
das que são enquanto são e das que não 
são enquanto não são...”

Protágoras de Abdera – 398 aC.

Para os primeiros filósofos gregos, o homem seria explicado pelo mesmo substrato ou pela mesma natureza ( physis)  que justificaria a existência de todos os seres. Se tudo era constituído ou proviria de água, ou de fogo, ou de átomos, também o homem teria na água, no fogo ou nos átomos as “raízes” de sua realidade física, psíquica e moral. Como  transparece claramente no pitagorismo, a ética se inseria na cosmologia. Justamente a grande revolução filosófica instaurada pelos sofistas ( sofys – saber )  consistiu na desvinculação do homem em relação à  physis universal. Certamente sob a influência das escolas médicas – que verificavam a peculiaridade de determinadas reações orgânicas do homem -, os sofistas passam a atribuir autonomia à natureza humana. Mas o humanismo que formulam apresenta-se vinculado ao ceticismo, à indiferença religiosa e ao relativismo epistemológico. Refletindo outros fundamentos, o humanismo socrático – centralizado no preceito “conhece-te  a ti mesmo”-  caminha num sentido aparentemente semelhante, mas, na verdade, profundamente diverso.
Não tem como deixar Sócrates de fora, nesta pretensiosa pesquisa do “ser profundo”, na busca da bondade do homem.
Ao que tudo indica, alicerçado em pressupostos religiosos e pitagóricos, não concebe o conhecimento humano como apenas a sucessão de impressões sensíveis – fugazes e intransferíveis – ou a criação, a partir delas, dos sinais convencionais que constituiriam a linguagem. Se as palavras são geralmente um terreno instável e uma expressão de opinião relativa insegura, é porque, segundo Sócrates, não estariam acompanhadas da consciência de seu significado. Mas esse significado, por sua vez, deveria emanar da própria alma do indivíduo, que constitui uma unidade subjacente às mutáveis impressões dos sentidos.
Na verdade, Sócrates, criou uma nova concepção de alma (psiquê)   que passou a dominar a tradição ocidental. Antes, como em Homero, a psiquê era o  “duplo” que podia se desprender provisoriamente durante o sono ou definitivamente, com a morte, mas que nada tinha a ver com a vida mental ou as  “faculdades”  da pessoa.

 Nos órficos, era o principio superior, que se reencarnava sucessivamente,  atravessando o processo purificador que a reconduziria às estrelas e a reintegraria na harmonia universal; mas, enquanto ligada ao corpo, só se  manifestava em situações excepcionais – sonhos, visões, transes.
 Já nos pensadores jônicos do século VI a C., a psiquê era apenas uma parte do todo: porção do pneuma (ar) infinito que habitava o corpo, vivificando-o provisoriamente até  escapar, como último alento, na hora da morte – como em Anaxímenesde Mileto; ou porção de fogo a aquecer e animar o corpo até que afinal retornasse à unidade do Fogo-Razão, o  Logos universal  “eternamente  vivo, que se acende  com medida e se apaga com medida” -  como em Heráclito de Éfeso.
 É a partir de Sócrates – ou pelo menos é na literatura referente a ele e que se seguiu à sua morte - que surge a concepção de alma como sede da consciência normal e do caráter, a alma que no cotidiano de cada um é aquela realidade interior que se manifesta mediante palavras e ações, podendo ter conhecimento ou ignorância, bondade ou  maldade. E que, por isso, deveria ser o objetivo principal da preocupação  e dos cuidados do homem.
Essa concepção de alma torna compreensível a tese  socrática de  que virtude ( aretê )  é conhecimento e que, por conseguinte, ninguém erra  deliberadamente. Só que aquele conhecimento nada teria a ver com  as opiniões flutuantes e geralmente infundadas. O conhecimento que Sócrates identifica à aretê é a episteme (ciência), não a  doxa ( opinião). E essa episteme  - que não pode ser ensinada – não constitui  uma ciência sobre coisas ou informações voltadas para a obtenção  de prestígio ou de riquezas: é o conhecimento de si mesmo, a autoconsciência despertada e mantida em permanente vigília. Bom é, assim, o homem autoconstruido a partir de seu próprio centro e que age de acordo com as exigências de sua alma-consciência: seu oráculo interior finalmente decifrado.

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