sábado, 31 de maio de 2014


A Mestra em Língua Portuguesa Brasilesa
e Literatura a Mineira Claudia Carvalho
traz mais uma preciosidade
literária para a Sala Protheus:

  

“A Cerejeira e Seus Mistérios!”

 
“... Que é, pois o tempo? Se ninguém me
pergunta, eu sei; se quero explicá-lo a
quem me pede, não sei...!”.
 
Santo Agostinho


                                       Cerejeiras florescem na alma desencantada do mundo. É a frase que ecoa incessantemente e me inquieta, ao mesmo tempo em que me instiga a decifrar seu significado. Existe um só espírito que rege e leva a humanidade a trilhar caminhos muitas vezes tortuosos e já sem esperanças? Creio que sim! Sem esperança, sem amor, sem gentileza, sem tudo aquilo que nos diferencia de meros matagais e espinheiros.
                                  Mas, mesmo diante deste quadro opaco, sem beleza alguma, sem esperança alguma, ainda restam almas que acreditam e lutam e se doam! E quando tudo remete à morte, à solidão, à rigidez, inflexibilidade, existem almas cerejeiras que, mesmo em condições adversas, surgem lindas, esplendorosas, cheias de cor e encanto! O que seria do mundo, se não fossem as almas cerejeiras?
                                     Considerada uma metáfora para vida, a cerejeira floresce brilhante, sem nunca falhar mesmo diante do inevitável outono, outono no tempo, outono na alma. O florescer da árvore de cereja é a mais pura manifestação de beleza. Flores de cerejeiras são constelações que orquestram uma música oculta, de uma partitura que a muito se perdeu. São sonhos com castelos, com límpidos riachos, brumas esvoaçantes. Enchem as tardes de perguntas e respiram as noites nebulosas.
                                          A alma desencantada do mundo deveria deixar que seu ar enchesse seus pulmões de beleza e esperança. Deveria aproveitar para gritar: - Eu estou viva e quero viver plenamente o tempo que for meu! Deveria se reinventar, deixar que seus pés se transformassem em raízes que se espalhassem por uma estrada luminosa que a levassem até o moinho da própria vida.
 
 
 
                                          Entretanto a flor enfraquece rapidamente e é espalhada pelo vento, esta é a morte perfeita para um verdadeiro guerreiro que viveu com consciência constante, a natureza transitória da existência. A verdadeira alma guerreira vive aprendendo diariamente. O lema samurai da cerejeira é, "Este é um dia bom para morrer”.
                                      Os pensamentos ainda dormem, quando um raio de luz, anuncia a chegada da primavera. As delicadas pétalas bailam no ar e enfeitam o chão, morte linda, que perfuma e deixa seu precioso fruto. A alma agora, meio encantada, metade gente, metade flor do mistério, metade cerejeira. O que estaria trazendo esse novo despertar? Um milagre? Uma renovação na seiva que é agora o próprio sangue do mundo? Belos frutos cor do pecado?
 
                                 O mistério cintila, se desdobra e liberta a alma sem esperança, as pétalas, agora asas, brilham e galopam livremente como cavalos alados. Então saltam consciente rumo a morte certa, não temida! Salta em um  só impulso, em uma dança louca e colorida, rumo a distantes galáxias, nos esconderijos dos ventos, nos casulos do tempo, entre as páginas de um livro, flores secas no redemoinho, na fumaça azulada  dos sonhos, a alma agora, totalmente encantada existe, a cerejeira existe, as estrelas existem, o cavalo alado existe.
 
Nós existimos!

 

Entendimentos & Compreensões
Dos pensamentos de minha amiga
Cláudia Ezídgia de Carvalho  - Minas Gerais -
Licenciatura em Língua Portuguesa Brasilesa
Universidade Federal de Ouro Preto
Mestrado em Literatura Comparada
Unicamp - SP