sábado, 1 de fevereiro de 2014

#SOSEducação!


Reinventando o Humano!




“...A melhor maneira que a gente tem de fazer possível amanhã alguma coisa que não é possível de ser feita hoje, é fazer hoje aquilo que hoje pode ser feito. Mas se eu não fizer hoje o que hoje pode ser feito e tentar fazer hoje o que hoje não pode ser feito, dificilmente eu faço amanhã o que hoje também não pude fazer...!“.

Paulo Freire




Desatai o futuro, bradou furioso, o russo e poeta universal Maiakóvski. Poderíamos acrescentar, presunçosamente, um - preservai o passado! -, como forma de dar sustentação sólida a esse futuro em invenção constante.

Mas, o que preservar do passado? Nem tudo, é claro; afinal, o passado não é nem o lugar do imutável (pois depende de como o continuamos), nem um mero depositário temporal do, agora, inútil. É preciso, antes de qualquer coisa, quando pensamos em passado, fazer uma distinção entre o tradicional e o arcaico. O tradicional é o que deve ser protegido, guardado, levado adiante; é a tradição, uma espécie de promontório, a partir do qual o futuro pode ser vislumbrado naquilo que carrega de mais próximo à qualidade positiva. Já o arcaico, por sua vez, é o que deve ser descartado, por ter-se provado insuficiente, precário, anacrônico.

Para pensarmos um pouco sobre essa relação entre passado, presente e futuro, vale à pena recontar uma historinha (infelizmente) real.

Em meados dos anos 70, dois caciques da nação xavante foram de avião, visitar a cidade de São Paulo; a visão aérea noturna de uma megalópole (com sua “floresta” de prédios”) os impressionou sobremaneira (tal como, para nós, é inesquecível e confusa a paisagem amazônica). Foram dormir em um hotel e, no dia seguinte, levados para passear.

Aonde levá-los, senão para ver o diferente, o exótico, o inédito? Andaram no metrô (recém-inaugurado), caminharam pela Av. Paulista (com suas catedrais financeiras altíssimas), visitaram um shopping center (só havia 2 naquele tempo) e, por fim, foram conhecer um dos prédios históricos paulistanos na região central que abriga um imenso mercado municipal (entreposto de frutas, legumes e cereais).

A ida ao mercado tinha a finalidade de surpreendê-los com um cenário paradisíaco: alimentos acumulados em grande quantidade. Como, naquela época, eles quase não usassem o dinheiro como mediação para qualidade de vida, o alimento farto representava uma riqueza incomensurável. Entraram, deram dois passos no interior do prédio e, subitamente, estancaram boquiabertos com o cenário: pilhas e pilhas de alface, de cenoura, de tomate, de laranja... Começaram a andar por entre as pilhas e caixas, em meio aquele ruído de vozes, folhas e frutos esmagados e caídos no piso, um movimento incessante.

De repente, um deles viu algo que nenhum e nenhuma de nós teriam visto, pois não chamaria nossa atenção. Ele apontou e disse:

O que ele está fazendo? “Ele” era um menino de uns 10 anos de idade, negro, pobre (nós o saberíamos, pelas vestimentas), que no chão catava verduras e frutas amassadas, estragadas e sujas, e as colocava em um saquinho plástico. A resposta foi a “óbvia”: Ele está pegando comida.

O cacique continuou passeando, calado (provavelmente tentando compreender a resposta dada); depois de uns 10 minutos voltaram à carga:
Não entendi. Por que o menino está pegando aquela comida podre se tem tanta coisa boa nas pilhas e caixas?
Outra resposta evidente: Porque para pegar nas pilhas precisa ter dinheiro. Insiste o xavante (já irritante, pois está escavando onde a injustiça sangra): E por que ele não tem dinheiro?
Réplica enfadonha do civilizado: Porque ele é criança!
Torna o índio: E o pai dele? Tem dinheiro?
Outra obviedade: Não, não tem.

Questão final: Então, não entendi de novo. Por que você que é grande tem dinheiro e o pai do menino, que também é não tem?

A única saída possível foi responder: Porque aqui é assim!
Os índios pediram para ir embora, não apenas do mercado, mas da cidade.

Não tiveram uma revolta ética, mas cultural; não captaram um dos modos de organização de nossa cultura. Não conseguiram compreender essa situação tão “normal”: se uma criança tem fome e não tem dinheiro, come comida estragada. Para que pudessem aceitar mais tranquilamente o “porque aqui é assim” teriam que ter sido formados e formadores da nossa sociedade, frequentado nossas instituições sociais; teriam que ter sido “civilizado”.

A intenção do relato acima não é moralista e nem deseja propor um “modelo indígena de existência”; é ressaltar aquela que é nossa maior tarefa: o esforço de destruição do “porque aqui é assim”.

A ruptura do “porque aqui é assim” principia pela recusa à ditadura dos fatos consumados e à ditadura fatalista de um presente que aparenta serem invencíveis tamanhos são os obstáculos cotidianos com os quais nos deparamos.

É preciso ter a audácia de reinventar, em conjunto, o humano, e, com ele, uma ética da rebeldia, uma ética que reafirme nossa possibilidade de dizer não e que valorize a inconformidade.

Não é mero acaso que a primeira palavra, de fato, que um ser humano aprende a dizer e a entender é o não.

 Seja oral ou gestualmente, o não é a fundação a partir da qual se constrói nossa principal característica: a liberdade, a capacidade de ultrapassar as determinações da natureza e das situações presumidamente limitantes. Só quem é capaz de dizer o não pode dizer o sim, isto é, pode escolher e acatar deliberadamente o curso das circunstâncias e das exigências externas e internas.

Ser humano é ser junto. É necessário negar a afirmação liberticida de que “a minha liberdade acaba quando começa a do outro”. A minha liberdade acaba quando acaba a do outro; se algum humano, ou humana, não é livre, ninguém é livre.

Se alguém não for livre da fome, ninguém é livre da fome. Se algum homem ou mulher não for livre da discriminação, ninguém é livre da discriminação. Se alguma criança não for livre da falta de escola, de família, de lazer, ninguém é livre.

É preciso resgatar a paixão por uma idéia irrecusável: gente foi feita para ser feliz! E esse é nosso trabalho; não só nosso, mas também nosso. Paixão pela inconformidade de as coisas serem como são; paixão pela derrota da desesperança; paixão pela idéia de, procurando tornar as pessoas melhores, melhorar a si mesmo ou mesma; paixão, em suma, pelo futuro.



Nosso tempo é este hoje em que já se encontra, em gestação, o amanhã. Não qualquer, mas um amanhã intencional, planejado, provocado agora. Um amanhã sobre o qual não possuímos certezas, mas que sabemos possibilidade.

Pode parecer romântico (até piegas); no entanto, é dessa utopia que não nos podemos apartar, sob a pena de perdermos o sentido de humanidade.

Há um ditado chinês que diz que: “... se dois homens vêm andando por uma estrada, cada um carregando um pão, e, ao se encontrarem, eles trocam os pães, cada homem vai embora com um; porém, se dois homens vêm andando por uma estrada, cada um carregando uma idéia, e, ao se encontrarem, eles trocam as idéias, cada homem vai embora com duas...”!

Quem sabe é esse mesmo o sentido do nosso fazer: repartir idéias, para todos terem pão...

Afinal, “pensar ainda não dói...”!  (afirmo eu...)




Este texto é resultante de excertos de CORTELLA, M.S.
A Escola e o Conhecimento (fundamentos epistemológicos e políticos),
São Paulo, Cortez/Instituto Paulo Freire,1998.
Leituras & Pensamentos da Madrugada
Publicado no Site Kasal – Vitória – ES
www.konvenios.com.br/articulistas
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