sábado, 17 de maio de 2014


#Série História Vivida
Anos 60

 

 

“... A “Guerrilha” da Serra do Mar..!”

 


                                      Nos anos 70, quando trabalhei no Matarazzo – Divisão Mineração em São Caetano do Sul-SP, nos divertíamos muito com um colega de trabalho que não tinha “visão de profundidade” e a “sacanagem” consistia em mostrar-lhe dois pontos distantes sobre o teto da fábrica e lhe perguntar qual dos dois estava mais próximo. As respostas eram sempre motivo de muita “gozação”, pois eram as mais disparatadas possíveis. Um dos colegas, que viajou com ele até a Fazenda Amália em Santa Rosa do Viterbo, próxima a Ribeirão Preto - SP, disse nunca ter passado tanto medo com as “ultrapassagens cinematográficas” presenciadas. Imagine só...
                                     Décadas atrás se dizia que o castigo vinha a cavalo. Já hoje em dia parece virem pilotando uma Ferrari, que vai de zero a cem quilômetros por hora em aproximados 4 segundos. Pois é, mais ou menos assim, me sinto hoje na tentativa de situar sobre uma linha do tempo passado fatos e memórias daqueles anos, ainda que hoje ouça falar muito de tal “alemão” (Alzheimer) naquele então insuspeito.
                                    
                                   A verdade é que o tempo nos “prega uma peça” depois de há muito decorrido. É como se aquele desenho em perspectiva dos fatos e lembranças, que guardavam sua posição cronológica em uma folha de papel, alguém rebeldemente desordenasse todos os seus pontos, traduzindo-os em um plano caótico. Misturamos músicas de décadas diferentes, ainda que saibamos que Elvis Presley e The Beatles sobreviveram a todas elas e musas do cinema, que contracenaram com Rock Hudson teriam namorado Paul Newman ou Robert Redford. Golpe de Mestre é inesquecível.

                                 Todas às 07h 00 das manhãs dos sábados dos anos 60 juntavam-se na Estação Julio Prestes, (antiga Sorocabana) um “batalhão de guerrilheiros” paramentados com mochilas, cinturão de cartuchos e facão de 20 polegadas, calçados de botas de cano alto, normalmente a Vulcabrás de borracha e suas cartucheiras e carabinas encapadas penduradas. Seu destino era o ramal Mairinque – Santos, (aquela mesma da música do Guilherme Arantes nos anos 70), que cortava o último contraforte praiano da Serra do Mar. Ainda hoje quem desce a Rodovia dos Imigrantes pode divisar uma linha descendente ainda existente na serra do outro lado do vale.
                              Nosso “aparelho” ficava, distante dois quilômetros, da Estação de Mãe Maria mata adentro, ou melhor serra abaixo e era uma “cabana de caça” feita de pau a pique e coberta de folhas de palmeira, (guaricanga). As camas eram feitas com cipó guaiambé e forradas de guaricanga. Flexível e macia. Para completar a mobília, um fogão à lenha construído com pedras e barro. Os “únicos luxos” eram a forração de papelão da cabana, a chapa de ferro do fogão e uma porta velha com corrente e cadeado trazidos da civilização.

                            No nosso rancho tínhamos uma plaquinha, que dizia: Todo caçador é mentiroso, exceto eu e você..., mas não estou seguro quanto a você! Nestes tempos em que caçar é “política e ambientalmente incorreto” vou poupá-los dos meus safaris e “contos de caçador”. A rigor pouquíssimo dano infringíamos à fauna, que à época já se extinguia: macucos, urus, tucanos, jacus, jacutingas, inhambus, porcos do mato e caititus, pacas e onças pintada e suçuarana (onça parda). Porém uma caça era garantida: o Palmito Jussara, que hoje está em extinção pelo extrativismo desordenado em toda a Mata Atlântica brasileira.
                             Muitos caçadores ou não, vão se lembrar de uma loja na Av. São João, O Gaúcho, aquela que tinha uma espingarda com canos recurvados para cima e era recomendada como “especial para caçar veados na curva”... Lojas de artigos de caça e pesca esportiva eram muitas na década de 60 e espalhavam-se por todo Centro e em especial nas Ruas Florêncio de Abreu, Mauá e Av. Rangel Pestana e São João: O Gaúcho, Loja Caça e Pesca, Casas Bayard, Casas Diana Paolucci, para mencionar as mais conhecidas. A grande atração, contudo, eram os discos que ensinavam o piar de aves de todo o Brasil e que ecoavam pelas calçadas durante o dia inteiro ininterruptamente.



                               Nessas lojas comprava-se cutelaria e armas tanto esportivas como de defesa pessoal, como carabinas Remington, URKO, Rossi e Winchester de vários calibres e espingardas de caça com cartucho, nacionais e importadas, inclusive as de repetição de calibre 12, que depois foram transformadas em temíveis escopetas. Revólveres e pistolas automáticas também eram disponíveis, exceto as de uso restrito militar, (9 mm e .45).
                               A caça era permitida, bem como a compra de armas e munições e as licenças de caça e porte de arma eram expedidas regularmente. Os processos de concessão de licença “de porte” eram extremamente desburocratizados e dependia exclusivamente da apresentação da Carteira de Identidade e Comprovante de Residência. No prazo máximo de 30 dias a licença estava expedida ou recusada, neste caso exclusivamente a quem tinha antecedentes policiais. O volume de munição comprado era totalmente livre e dependia exclusivamente do poder aquisitivo do cliente.

                                 Sempre fui cultor da inteligência e um entusiasta da “tecnologia de armas”, porque o ser humano para a autopreservação especializou-se principalmente “em matar” e por isso colocou nas “armas de destruição individual ou em massa” o “melhor da sua inteligência”. Nessa época “rolava livremente” o comércio de “armas pessoais” de todas e da última tecnologia, como armas pessoais automáticas da Colt (.45), Savage e Walther (9 mm) e até mesmo Luggers, (no Mercado Negro), além das Beretta (7.65 e 6.35) nas casas de arma, negociavam-se livre e fartamente. Tinha amigos, que possuíam algumas dessas armas e como disse sua munição era plenamente acessível.
                                  A pergunta que sempre me fiz: Por que a “guerrilha urbana” nunca se aproveitou desse fator e se tornou um movimento mais forte e atuante? É sabido que o Exército Brasileiro, pelo menos até 1967, quando começou a reaparelhar suas forças com fuzis FAO, (decorrente da participação brasileira na Força de Paz na República Dominicana e Canal de Suez nos anos de 1960/5), além da tropa mal treinada, equipava-se quase que basicamente de fuzis da II Grande Guerra, que muito pouca eficiência tinha e essas armas disponíveis no mercado, principalmente para “operações de guerrilha”, a elas fariam frente.
                                 Foi com a fuga do Capitão Carlos Lamarca em 1968, levando consigo 560 fuzis FAO do Quartel de Quitaúna, que a guerrilha efetivamente se equipou militarmente, mas já no ocaso dos “grupos guerrilheiros”, que foram dizimados rapidamente, quer pela repressão, quer pela fuga nas trocas com embaixadores. Mas foi principalmente após as mortes de Carlos Marighela em 1969 e de Carlos Lamarca em 1971, que foi praticamente extinta, pois eram os únicos líderes que efetivamente dominavam a “arte da guerra” e a “organização militar” de milícias.

                                  As ações mais ousadas da “guerrilha urbana” ocorreram com os assaltos a bancos, sequestro de embaixadores e os assassinatos do Almirante Nelson Fernandes no atentado no Aeroporto de Guararapes em Recife, (1966), do Capitão do Exército Americano Charles Chandler, (1968) e do empresário Henning Albert Boilesen, (1971).
                                  No tocante às “sublevações rurais”, como a Guerrilha do Caparaó, (1966/7) e a do Araguaia (1971/2) também houve fracasso, repetindo o de Che Guevara na Bolívia, (1966/7), bem como já havia fracassado no Brasil Francisco Julião e suas Ligas Camponesas, ainda antes do final do Governo Jango Goulart, pois não mobilizaram os “camponeses”. Tanto a “guerrilha urbana” quanto a “guerrilha rural” não apresentou caras novas, pois foram sempre estimuladas e patrocinadas pelos mesmos “velhos conhecidos” do PCB, que nunca conseguiram arrebatar nem o eleitor e nem a grande maioria da classe pensante formadora de opinião.

                                A única “novidade” da época da “esquerda brasileira” chamou-se Leonel Brizola, que graças à notoriedade conseguida desde a Campanha da Legalidade “forçando” a posse de Jango Goulart em 1961, colocou em marcha a estruturação do famoso G-11, (Grupo dos Onze) de tendência “esquerdista nacionalista”, porém não marxista. Foi sua atuação forte junto aos meios de comunicação da época, (rádio de ondas curtas), com ampla cobertura nacional, que provocou um “grande susto” nas hostes Castristas.
                              Uma “hipotética” força militar revolucionária distribuída por todo país, prontos para uma “revolução, que já estava madura” na avaliação de Brizola, mas que logo após 31 de março revelou-se um “blefe” com o desterro do “líder” no Uruguai. Acusou-se Brizola nesse incidente de haver “desaparecido” com 3 milhões de dólares vindos de Cuba, para o financiamento desse canal revolucionário.

                            Bem, é desnecessário falar que toda essa “movimentação política” não poderia deixar de encontrar ressonância na “juventude sessentista” brasileira. Em todo mundo havia jovens se manifestando, quer fosse aos USA, (Guerra do Vietnã, o Movimento Hippie e Woodstock), como na Primavera de Praga, (1968) e na Primavera de Paris, (1968). Como sempre é o entusiasmo juvenil, que paga o preço pelas ideias e ideais das “velhas raposas” políticas, que sempre estarão “onde sempre estiveram”... No Poder.

                          Silencio por um minuto meu clarim em memória dos “bravos jovens idealistas” desses “dourados anos de chumbo”...

 

Das vivências, percepções e pesquisas de
Antônio Figueiredo – De algum lugar entre a Bahia e São Paulo
Economista, Escritor, Empresário, Militante Apartidário Parlamentarismo e Voto Distrital Puro. Ex - Ativista Movimentos Sociais Católicos/ Metalúrgico/ Estudantil (1961/73). Operário da Cidadania