quarta-feira, 28 de maio de 2014


Antônio Figueiredo Continua Suas
Histórias dos Anos 60 na Sala de Protheus:

  

MENINOS NA “PAREDE”...!


 
"...Brincar com crianças não é perder tempo, é ganhá-lo; se é triste ver meninos sem escola, mais triste ainda é vê-los sentados enfileirados em salas sem ar, com exercícios estéreis, sem valor para a formação do homem...!".

C.D. de Andrade
 

                                   Foi tudo muito rápido. De passagem parei por segundos e estiquei o pescoço por trás e sobre a aglomeração. “Vamos circular... vamos circular...” foi o que ouvi logo após levar uma “borrachada” nas costas. Quem caminhava pelas ruas perto de uma manifestação no início dos anos 60 há de se lembrar daqueles cassetetes longos de borracha usados pela Força Pública de São Paulo, (antiga PMSP) para reprimir manifestações, “restaurar a ordem pública” e “lembrar” da proibição de bloquear a circulação do trânsito já caótico então.
                                 “Meu lombo” guardou essa “lembrança roxa” por pelo menos trinta dias após essa “massagem” no Largo São Francisco e me dei por satisfeito por não ter tido uma costela quebrada, que era o que acontecia com muita frequência. Esses cassetetes flexíveis tinham a capacidade de amoldar-se ao alvo, porém sua extremidade rígida impactava-o com maior violência e ali deixava um grande hematoma ou uma fratura.
                                  O Largo, ainda que pequeno, era o local preferido para manifestações dos alunos da Faculdade de Direito e das estudantis em geral e sempre com gente e carros aglomerados confundindo-se e tumultuando o trânsito, o que deixava uma faixa muito estreita entre o meio fio e a parede nas calçadas para a circulação das pessoas.

                                  Esta semana defrontei-me com uma elucubração fantástica. O que move a pena do escritor? Os fatos ou o acaso? Os fatos por discorrermos e opinarmos sobre os acontecimentos passados, o que ocorre na maioria das vezes, já o acaso sucede porque já pensávamos em escrever sobre um determinado assunto e de repente um fato pontual relativo ocorre e aí a pena não tem como duvidar do rumo e então o tema sai fácil e cristalino. Premonição? Talvez...

                                  Vamos a um pouco de História. Nos anos pós-guerra tornou-se uma tática determinada pela Internacional Socialista em todo o mundo a de se infiltrar e dominar os órgãos representativos do operariado, como forma de propagar a “doutrina soviética”. Isso aconteceu na Europa toda e até mesmo nos USA onde é conhecida, decorrente disso, a atuação do até então medíocre Senador Joseph McCarthy, Democrata a princípio e depois Republicano por conveniência, e sua “caça às bruxas”, (Macarthismo), que pôs sob suspeição toda a “sociedade progressista” americana e em especial o “mundo artístico”. McCarthy foi o “pai ideológico” de Nixon e Reagan.

                                  No Brasil não foi diferente. Assim que no início dos anos 60 os grandes sindicatos de trabalhadores brasileiros e em especial os de São Paulo para minhas considerações, cuja organização vinha se consolidando desde 1945, foram dominados por uma coligação “Comunistas PCB + Nacionalistas PTB” sobre os mais influentes: Metalúrgicos, (Afonso Delellis), Bancários, (Pedro Francisco Iovine), Gráficos, (Giovanni Romita), Estivadores, (Osvaldo Pacheco da Silva) e a CGT, (Luiz Tenório de Lima, o Tenorinho).
                                    Durante o período compreendido entre 1961 e 1963 a atuação do “movimento paredista” foi crescente e cada vez mais forte na sua conotação política. Além da “pauta laboral”, representada por reivindicações salariais e direitos trabalhistas, (reposição da inflação, 13º salário e a universalização sindical abrangendo até o trabalhador rural), começou a crescer a “pauta política” da luta pelas Reformas de Base de Jango Goulart. Apesar da pobreza de estatísticas sobre o “movimento grevista”, só em 1963 foram registradas 172 greves, inclusive várias “greves gerais” no Brasil pelos mais diferentes motivos.



                                    Havia, contudo, um descompasso descomunal entre as reivindicações sindicais na Europa e no Brasil. Na Europa o tema “condições e segurança no trabalho” já era uma pauta superada e ganha pelos trabalhadores, mas no Brasil esta discussão foi saltada. As estatísticas de “acidentes de trabalho”, mesmo que imprecisas, sempre foram assustadoras e a quantidade de acidentes com invalidez parcial, total e mortes no período nunca constou da “pauta de reivindicações” dos sindicatos.
                                   A CLT já contemplava a existência de CIPA’ s, (Comissões Internas de Prevenção de Acidentes), mas mesmo assim os números eram crescentes principalmente na Indústria Metalúrgica, Siderúrgica e da Construção Civil.
                                  Pois bem. Era nessa realidade profissional que os jovens dos anos 60, na sua grande maioria menores de idade, eram lançados nos recintos de trabalho. Com precaríssima informação política doméstica e de seus Direitos e principalmente com as condições inseguras de trabalho constituíam-se nas vítimas incautas e preferenciais da sanha dos patrões ávidos por lucros crescentes e de “manipuladores profissionais” da parte dos Sindicatos. O “jovem operário” tinha que provar sua qualidade, valia e “coragem adulta”.

Vou aqui narrar uma experiência pessoal ocorrida no ano de 1961 envolvendo-me à atividade sindical.
                                 No final do Governo JK os bancos mineiros se tornaram as mais fortes instituições financeiras do Brasil. Afinal, era “mineiro” o núcleo que dominou a construção de Brasília comandado por Israel Pinheiro. Uma caminhada pelas Ruas XV de Novembro, Boa Vista, São Bento e da Quitanda mostrava as placas dos Bancos Comércio e Indústria, de Crédito Real, Hipotecário e Agrícola, Nacional, Mineiro da Produção, BMG e o maior deles o Banco da Lavoura, todos eles de Minas Gerais.
                                  Contava então 15/16 anos e após ter trabalhado por 2 anos como “mensageiro”, (office boy), candidatei-me a um treinamento na Agência Escola do Banco da Lavoura, uma iniciativa inteligentíssima que aproveitava a legião de “menores aprendizes” formados nas Escolas Técnicas de então. Por 6 meses a “escolinha” simulava a operação de uma agência bancária e ao final do curso o treinando era admitido como “funcionário”, com direito a uma Caderneta de Avaliação e Plano de Carreira.

                                 Nos meses de Setembro/Outubro aconteceu uma “greve dos bancários”, cujo acordo na opinião de muitos, aconteceu pela “compra dos negociadores”, (algo parecido com esta Greve de Motoristas e Cobradores de São Paulo da semana passada, daí a premonição). Como a grande maioria das agências estavam fechadas, o pessoal da “escolinha” foi convocado para “reabrir o atendimento ao público”.
                                  Fui designado para a Av. Duque de Caxias e somente depois de estar lá e com as portas abertas é que fomos advertidos, que a “reação da categoria” poderia ser violenta e que correríamos sérios riscos, inclusive de morte.

                                  A recomendação é que em caso de “perigo”, que era evidente, dever-nos-íamos “esconder no cofre” da agência. Éramos “fura-greves” e por isso “traidores” e “lacaios dos patrões”. Não sofri violência em particular, porque nossa agência era mais afastada do Centro, mas várias sofreram “quebra-quebra”, com violência física a vários “alunos da escolinha”.
                                  Esse era o “modus operandi” desses sindicatos e que contava com um exército de “piqueteiros”, que pareciam ser filiados a todos os sindicatos, pois eram sempre os mesmos independentemente da categoria em movimento e era nesse contexto, que muitos jovens eram constrangidos a participar por pressão do Sindicato. É evidente, que era dessa “massa de manobra”, que se contavam a maioria das vítimas.

                                    Da minha parte, preferia ir “descansar em casa” e incentivar meus colegas a fazer o mesmo, comentando o “balanço” de greves anteriores e mostrando-lhes resultados e consequências. Havia uma distância muito grande entre as nossas reivindicações e as reais intenções dos “mentores do movimento paredista”. Nós brigávamos por melhores condições de trabalho e remuneração, eles por “poder político”.
                                   Esta é a história do movimento sindical brasileiro desde seu nascimento na década de 30, a princípio como uma “claque laudatória” à figura de Vargas, que me fez criar a convicção de que a benesse de uma legislação com o atendimento de muito mais necessidades das até então percebidas, só serviu para “matar na origem” um movimento reivindicatório operário em benefício exclusivo dos “patrões”.
                                   Essa tem sido a tática dos “pais dos pobres” desde então: dar uma chupeta, para evitar que aprendamos a mamar no peito, o leite a que temos direito. É a vigilante tutela oficial orientando a vontade popular para evitar que nos “organizemos” e isto vale para os Partidos Políticos também.
                                    Como diz uma propaganda muito atual, sobre o que pensam a nosso respeito: Não sabem de nada... INOCENTES... ORDINÁRIOS.

 
Das percepções e pesquisas de
Antonio Figueiredo – Entre Algum Lugar entre a Bahia e São Paulo
Economista, Escritor, Empresário, Militante Apartidário Parlamentarismo e Voto Distrital Puro. Ex - Ativista Movimentos Sociais Católicos/ Metalúrgico/ Estudantil (1961/73). Operário da Cidadania