segunda-feira, 2 de junho de 2014


Antônio Figueiredo Continua Suas
Histórias Vividas nos Anos 60
na Sala de Protheus:

 
 

“Meninos no Front...!"
 
 
 
“...Nunca se desespere antes,
 nunca comemore antes
e nunca abandone seu posto
antes do fim da batalha...!”.

 Sara Westphal
 

                                            Foi em Outubro de 1963 que depois de 2 anos trabalhando como bancário e a convite de um amigo, (diziam que era “comunista”), assumi o Departamento do Pessoal em uma pequena indústria metalúrgica no pico da ebulição de um tempo muito conturbado. O Brasil fervia politicamente após a restauração do Presidencialismo de Jango Goulart e a “voz das bases” tensionava o “ambiente político”, misturando às “reivindicações nacionalistas genuínas” e dos partidos de orientação católica a estridência dos megafones de uma “propaganda alienígena”, que era fortemente suportada pelos sindicatos mais poderosos.

                                           Como diria o cronista Sérgio Porto, (o Stanislaw Ponte Preta), anos após em 1968 o “movimento progressista” ou o “esquerdismo brasileiro” da época era um verdadeiro “samba do crioulo doido”, pois nele misturavam-se o comunismo ateu de Lenin, o nacionalismo nazifascista de Getúlio Vargas, o nacionalismo fascintegralista de Plinio Salgado, (a diferença estava na cor das camisas) e a Ação Católica.
                                           Este movimento católico de vanguarda, que pregava: ”Salário não é renda” e “Nem o Comunismo totalitário e nem o Capitalismo opressor” fundado por André Franco Montoro era o que trilhava uma via mais democrática. Montoro que era do Partido Democrata Cristão – PDC foi Ministro do Trabalho e Previdência durante o Governo Parlamentarista de Tancredo Neves e é da sua propositura a Lei do Salário Família, (Lei 4266 – 1963) aprovada por Jango Goulart.

                                          A Igreja Católica no Brasil da época mantinha-se extremamente “conservadora”, ainda na linha do Papa Pio XII, apesar da “nova era” instituída pelo Concilio Vaticano II, (Dezembro de 1961) do Papa João XXIII, (Angelo Roncalli – 1958-1963) e que foi priorizado pelo seu sucessor o Papa Paulo VI, (Giovanni Montini – 1963-1978).


                                         Até então os “padres vermelhinhos” não ocupavam os púlpitos, mas uma voz isolada, a de Dom Helder de Barros Câmara, pregava uma “igreja simples” e engajada fortemente nos direitos humanos e movimentos sociais de favelados e do “operariado informal”, (lavadeiras, costureiras e outras profissões não sindicalizadas). Foi por isso estigmatizado como o “Bispo Vermelho”, (comunista) durante o Governo Militar.
                                        A Economia Brasileira e em especial a de São Paulo passavam por um processo de crescimento acelerado. O Governo Jânio Quadros e o sucessivo de Carvalho Pinto haviam investido pesado na infraestrutura: em hidrelétricas no Rio Tietê, rodovias, centrais de abastecimento, educação, saúde e transporte. Esse desenvolvimento exponencial deveu-se aos empregos diretos e indiretos da indústria automobilística, praticamente implantada no Governo JK e a ampliação do Parque Siderúrgico com a implantação da USIMINAS e da COSIPA, fabricando aços planos, (chapas de aço).
                                           Foi o dinamismo desse tempo, que forçou a construção de carreiras e a ascensão profissional de muitos jovens, que mal saídos da puberdade já se obrigavam em atividades semi-gerenciais ou de nível técnico e foi assim que com 4 anos de trabalho ascendi de mensageiro a Encarregado de Pessoal e comigo vários milhares de jovens passaram a fazer parte desse quadro diferenciado, ao qual não faltava “competência profissional”, mas que eram muito pouco traquejados no “relacionamento adulto”. Isso se constituía em grande problema de integração e imposição de respeito.
                                           O Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e Moji das Cruzes era na década de 60 o mais poderoso e organizado sindicato da América Latina. Fundado em 1932, já em 1954 contava com uma majestosa sede própria na Rua do Carmo. Essa categoria originalmente era constituída de “italianos” e “espanhóis”, já com “raízes anarquistas e comunistas” herdadas do ativismo em seus países de origem e foram os primeiros imigrantes a trabalhar na Indústria no Brasil já a partir dos anos 30, daí seu maior grau de politização e arregimentação. Vale a pena uma visita ao “site” da entidade.
                                          Pois bem, aos 18 anos e ainda imberbe e entre Outubro de 1963 e Abril de 1964, coube-me a tarefa de ser o “para-choque” entre o “patrão” e a “massa operária”. A empresa era constituída por duas categorias, distintas, e tidas como muito “rebeldes e combativas”: a dos fundidores, (em sua grande maioria gente robusta, bruta e de pouca instrução, em função do trabalho que realizavam e pelas condições sofríveis de trabalho) e a dos torneiros mecânicos, (mais velhos e organizados e por isso mais contestador e reivindicante). A Diretoria Industrial era exercida por um “paraguaio”, alto e forte evadido por razões políticas do Governo Stroessner, por sua militância comunista.
                                          Durante todo esse período era mais um “insuflador de greves” do que um dirigente e isso desbalanceava a comunicação “operário x patrão”, pois que se tornou o “porta voz das reivindicações” laborais e não um “fiel da balança” pesando oportunidade, conveniência, possibilidades e capacidade da companhia. À visão de um “fedelho” nos primeiros contatos, certamente julgou ter sua tarefa facilitada, pois via na minha idade uma fraqueza.
                                          Contudo, as muitas condições inseguras provocavam inúmeros acidentes de trabalho, (inclusive um fatal) e me cabia todas as providências de encaminhamento para atendimento ambulatorial, hospitalar e até policial e funerário no caso mais grave. Foi a nossa disponibilidade que angariou a simpatia do quadro de empregados, apesar dos “narizes tortos” nas primeiras perambulações pela área industrial.
                                         Outro fato que muito ajudou a essa integração foi a decisão de fazer um curso de Cronometrista, aconselhado pelo Chefe do Planejamento e Controle da Produção, que era o “diretor industrial” de fato e de grande acesso aos operários. Nos sábados não havia expediente e assim aproveitava alguns deles para treinar a “nova função” junto ao pessoal da Tornearia, que estava em horas extras. Escolhia sempre o mais influente do grupo.
                                        Era nos intervalos de café e nos “cigarrinhos”, que “socializava” com eles, procurando saber da sua habilidade profissional e depois das suas vidas e aspirações e mais principalmente das suas “necessidades”. Contava-lhes também das minhas, demonstrando que independentemente das responsabilidades profissionais, que também éramos “seres humanos” feitos do mesmo “barro” e alma.
                                         Foi esse comportamento que acabou por passar aos trabalhadores uma imagem incolor profissionalmente e foi assim que nos períodos mais críticos no movimento grevista, que eu era a única pessoa autorizada pelas “lideranças paredistas” a “entrar no escritório”. É evidente, que em parte devia-se ao fato de preparar as “folhas de pagamento semanal dos fundidores e a quinzenal de adiantamento de salários” dos demais funcionários.
                                        Como já enfatizei em crônica anterior a atuação dos “piqueteiros” tinha muito pouca gentileza, educação e tolerância para com os “fura greves” e, via de regra, terminava em muita pancadaria e em algumas oportunidades em tiros de intimidação. Eram notáveis as presenças do “paraguaio” e muitas outras “figuras”, que não pertenciam ao quadro de pessoal da empresa à testa do movimento paredista.
 
 
 

                                        Lembro-me de muitas greves nesses 6 meses, uma delas “relâmpago” durante o expediente, quando todas as máquinas eram desligadas inclusive o “forno de fundição”, acompanhadas da “ordem de evacuação geral”. Esta ocorrência obrigava ao Mestre Fundidor antes de sair, que furasse a “bica” do forno para esgotar o ferro líquido fundido diretamente ao solo, evitando que o material esfriasse o que destruiria o equipamento e que teria de ser dinamitado para seu desmonte.
                                        A Fábrica chegou a ficar até 7 dias parada em uma greve lá pelos meses de Fevereiro ou Março de 1964 e uma das últimas lembranças que tenho é que a partir do dia 01 de abril de 1964 a firma não mais parou.
                                        Fui demitido da empresa no final daquele mês e entre o dia primeiro até meu último dia de trabalho, nunca mais vi o “paraguaio” e nem os “grevistas profissionais”. O Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e Mogi das Cruzes tinha sofrido uma intervenção e os “militares” permitiram que assumisse o “pelego oficial” Joaquinzão, a princípio como Interventor no Sindicato em Guarulhos e em 1965 eleito pelo de São Paulo e Mogi das Cruzes. Lá ficou por 13 anos.
                                       Foi dessa maneira, que toda essa geração aprendeu “a andar na bicicleta” da nova realidade de vida e todos, de uma forma ou de outra, projetaram “mudar o mundo”. Muitos pensaram em fazê-lo pela luta ideológica associada à Lei do Talião, porém a grande maioria o fez “pela ideologia do estudo e do trabalho duro no dia a dia” contra as injustiças e os desacertos sociais para melhorar o meio onde viviam e trabalhavam, pois aprendemos, que até mesmo o “ideal” um dia se comercializa e se torna uma “t-shirt”.
                                      Como dizia o grande educador Júlio Gouveia no Teatro da Juventude da TV TUPI nos anos 50: (...) Entrou por uma porta e saiu pela outra... Quem quiser que conte outra....!”

  

Das percepções e pesquisas de
Antônio Figueiredo – Entre Algum Lugar entre a Bahia e São Paulo
Economista, Escritor, Empresário, Militante Apartidário Parlamentarismo e Voto Distrital Puro. Ex - Ativista Movimentos Sociais Católicos/ Metalúrgico/ Estudantil (1961/73). Operário da Cidadania