domingo, 15 de junho de 2014


Antônio Figueiredo Continua Suas
Histórias Vividas nos Anos 60
na Sala de Protheus:

 

                     "... Mea Culpa, Mea Culpa...!”


 “...A minha consciência tem milhares de vozes,
cada voz traz-me milhares de histórias,
e de cada história sou o vilão condenado...!"

 Shakespeare

 
                                                  Por nove semanas estivemos aqui falando da Juventude dos Anos 60 – Anos de Chumbo Dourado. Todavia, esta décima crônica não será laudatória ou mesmo justificadora dos muitos desafios e embates a que foi submetida, mas sim para falar da sua omissão, pelo menos de uma grande maioria, quanto à politização de seus filhos, entre os quais me incluo.
                                                  Durante as décadas de 70 e 80 essa mesma geração buscou galgar a pirâmide social e o fez com sucesso, pois como já afirmamos anteriormente veio a se constituir na “primeira classe média trabalhadora” da História do Brasil. A mola propulsora da pujança do desenvolvimento econômico nesses anos de 1965/75 foi à decisão do Governo de partir para um processo de “substituição das importações” e a indústria brasileira passou pelo maior processo de diversificação já conhecido.
                                                   Em 1964 o Governo Castelo Branco implementou o PAEG, (Plano de Ação do Governo) sob o comando da “trinca da Economia”, (Otávio Gouveia de Bulhões, Roberto Campos e Hélio Beltrão) visando basicamente: acelerar investimentos através do Governo Central, debelar a crônica crise cambial e principalmente a inflação, que se aproximava perigosamente da taxa anual de três dígitos e que já vinha sendo o maior “calcanhar de Aquiles” da Economia Brasileira desde o Governo JK.
                                                    Para isso realizou algumas “reformas de base” como a eliminação da “falsa estabilidade emprego” da CLT, mediante a criação do FGTS, um sistema de “poupança forçada”, patrocinado pela classe patronal. Até então o empregado tinha a direito a um salário mensal por ano trabalhado em caso de “demissão sem justa causa”, mas ao atingir 10 anos de trabalho ganhava direito à estabilidade e só poderia ser demitido mediante a uma indenização em dobro dos valores. A grande maioria dos “estáveis dispensados” ficava a ver navios, pois ou as empresas mantinham “longas pendengas judiciais”, ou se “quebradas”, nada sobrava ao trabalhador no processo falimentar.


                                                    Atrelado ao FGTS criou o BNH destinado a construção de moradias populares, (outra reivindicação prioritária face aos constantes conflitos gerados pela Lei do Inquilinato, que chegou a ser uma “bandeira eleitoral e plataforma política”). Iniciou também um forte processo de “nacionalização de companhias estrangeiras” no campo das telecomunicações, (as Teles), de geração e transmissão de energia, (as Eletro) e mineração, (a Vale). Outra medida foi incrementar a indústria siderúrgica, que era o paradigma de “vitalidade econômica” mundialmente nos anos de 1930 a 80.
                                                     Iniciou-se no período um processo vertiginoso de montagem da “infraestrutura” mediante a construção de estradas, hidrelétricas, portos, sistemas de água e saneamento e de indústrias de tecnologia de ponta, como aeronáutica e armamentos, além da de “química fina”, implementadas nas novas refinarias. Obras estas projetadas, construídas e inauguradas somente após sua conclusão e funcionamento e decorridos 50 anos constatamos que praticamente nada mais se fez após isso pela infraestrutura no país.
                                                    A Petrobrás que era uma “conversora de petróleo importado” em gasolina e diesel, graças às baixíssimas reservas e extração em terra firme, avançou sobre a plataforma continental e começaram a serem exploradas as reservas da Bacia de Campos, no início dos anos 70. Foi apenas em 1986 e seguindo o rastro das descobertas peruanas na Amazônia, que se começou a prospectar e a explorar as reservas de gás e petróleo de Urucu no Amazonas e se pensar na autossuficiência de óleo.
 
                                                   O petróleo sempre foi uma questão emblemática pois que nos anos de 1960/61 o técnico americano, Walther K. Link (contratado da Petrobrás) havia afirmado baseado nas prospecções realizadas, que o Brasil não possuía petróleo em “terra firme”, exceto numa pequena faixa amazônica e que concentraria maiores possibilidades no mar. Esse relatório foi interpretado como se Link fosse um “espião americano” e era uma recomendação de “submissão permanente aos interesses imperialistas”. (Seven Sisters).
                                                     O projeto RADAMBRASIL mapeou de 1970 a 1985 todo o espaço físico brasileiro e pela primeira vez teve-se um real conhecimento do potencial biológico e geológico, principalmente da Amazônia brasileira, até hoje muito mal explorada, onde surgiu uma nova província mineral.
                                                     Os Governos Militares, que tinham forte inspiração “nacionalista” nascida no Tenentismo de 1922, pôs em marcha seu plano histórico e com isso arrebatou todas as “bandeiras da esquerda”, mas para isso restringiu liberdades constitucionais, de organização sindical e principalmente ao passar a legislar por decretos, tornou o Congresso Nacional e o Judiciário em “fantoches” do Executivo, para vender ao mundo um “fantasma de Democracia”. Hoje se legisla por Medidas Provisórias e se vão os anéis, mas fica o “mesmo dedo”.
                                                       Nada diferente do que se vê na “moderna China” do Século XXI, um modelo para os anseios da Esquerda Moderna, (que fala de Lenin e Marx) e de alguns muitos “saudosistas” da Direita. Essa sempre foi à receita de desenvolvimento em regimes autoritários e foi com isto que a “corrente nacionalista” aquietou-se e se afastou da “corrente esquerdista”. Somente voltariam a se reunir com as revelações dos “porões da ditadura”.
                                                      Por fim, foi a Reforma Universitária de 1968, (Lei n° 5.540, de 28/11/68), que abriu definitivamente as portas do Terceiro Grau àquela geração.


                                                       Por fim, era essencial que essa Classe média entrasse na “sociedade de consumo” e isso ocorreu dando-lhe acesso a automóveis, (DKW Pracinha, SIMCA Profissional e o Willys Teimoso). Mas efetivamente o modelo que mais marcou o período foi o Fusca com sua versão mais barata, o "Pé de Boi". Isso só foi possível com o alargamento dos prazos de financiamento máximo em até 48 meses, até então inéditos, pois a inflação não o permitia. O mesmo ocorreu com os eletrodomésticos de larga duração, como TV’ s, refrigeradores e fogões.
 
                                                       Outro fator que muito contribuiu foi o empuxo dado à construção civil, que ofertava novos empreendimentos, principalmente apartamentos, em bairros até então não sonhados por essa “pequena burguesia” e os “suburbanos” começaram a invadir os bairros de classe média.
                                                       Com toda essa euforia a “nova classe média” mergulhou nos estudos, nas novas oportunidades de trabalho cada vez melhor remuneradas e no crediário. Algo parecido ao que aconteceu nos anos de 2005 a 2012, que lembrou “muito de longe” o chamado Milagre Brasileiro dos anos 70, quando o PIB crescia 10% ao ano. Aquela era uma verdadeira “classe média emergente”, os chamados “reacionários” de hoje.
 
 
                                                       Essa nova classe começou a demandar uma “nova educação” para seus filhos e graças a já incipiente degradação da “educação pública”, passou a matriculá-los nas “melhores escolas particulares” e com certeza pesou nessa decisão a lembrança das próprias dificuldades passadas e a luta de seus antepassados. Talvez nisso residisse o seu grande erro. Por não desejar que os filhos tivessem a mesma “vida difícil”, deu-lhes “de brinde” a ilusão de que “a vida não é tão dura, quanto parece”.
                                                        O mesmo refletiu-se na conscientização política. Os anos mornos, sob o Regime Militar, e o crescimento social individual tornaram-os egoístas e individualistas, pois ainda que o merecessem, esqueceram-se, em sua grande maioria, de outros “suburbanos” e “periféricos”, que lutavam a mesma luta, só que sob outras condições e muito maior dificuldade. O “gosto de levar vantagem em tudo” do Gerson instalou-se como o “padrão filosófico” nacional.
 
 
                                                       Um vislumbre de atitude cidadã foi dado no Movimento Direto Já, mas uma vez mais o “povo” delegou aos políticos a tarefa exclusivamente sua de “pressionar por mudanças” e mais uma vez a “solução” foi aquela que mais interessava aos “representantes de si mesmos”. E foi assim, que morrendo de medo dos militares, que já haviam “largado o osso”, que aprovamos uma Constituição Cidadã covarde, porque só olhava o passado e se esqueceu do futuro.
                                                      Voltamos ao “pré-natal” político e hoje julgamos Democracia falar mal e vaiar políticos, porém votando nos mesmos homens e mesmos partidos. Somos incapazes de reconhecer os “muitos avanços” acontecidos naqueles tempos e por isso somos incapazes de continuar a “mudar a Nação”, porque somos incapazes de mudar o nosso conformismo, passividade e covardia.
                                                    Continuamos, paradoxalmente, adorando o “bezerro de ouro”, mas esperando o Messias...

 
Das percepções e pesquisas de
Antonio Figueiredo – Entre Algum Lugar entre a Bahia e São Paulo
Economista, Escritor, Empresário, Militante Apartidário Parlamentarismo e Voto Distrital Puro. Ex - Ativista Movimentos Sociais Católicos/ Metalúrgico/ Estudantil (1961/73). Operário da Cidadania