sábado, 16 de abril de 2016

#SOSEducacao:

“Ah, Nossos Pseudos Entendimentos...!”
“... A leitura de todos os bons livros
é uma conversação com as mais
honestas pessoas dos séculos passados...!”

Renée Descartes

Conversando com uma amabilíssima e admirada amiga do Nordeste, em meio a nossos diálogos, vem sempre o convite gentilíssimo: “... você precisar vir para experimentar as delícias da comida nordestina...!”.
Ah, amados amigos.
Mas em um destes diálogos, falando sobre receitas, disse-me ela:
- Você já comeu Paella? Pedi que ela soletrasse como estava escrito, pois poderia ter muitos significados. Ela escreveu exatamente como o acima e emendou:
- Ô gaúcho, não fica de ovo virado não... Para compensar vou te levar em um pagode que até oxalá vai dançar junto contigo...!
Terminada a ligação, fiquei alguns minutos entre os termos utilizados por minha amiga, e meu entendimento e a dúvida: O que vinha da minha amiga (emissor) era exatamente o que o (receptor) eu estava entendendo?
Claro que não e sim ao mesmo tempo.
Explico:
Nosso riquíssimo regionalismo é a valoração mais intrínseca de nossa amada língua portuguesa brasilesa.
Todos, podemos utilizar uma mesma terminologia porem com significado diferente. Isto pode?
Claro que sim.
Mas pensa comigo. Vamos analisar o sentido dito e o que realmente significa cada expressão utilizada por minha amiga.
Estar de Ovo Virado... Não! Tenha certeza, não é nada disso que você está pensando. A origem é outra:
Imagine, por favor, só imagine: o sofrimento de uma galinha ao por um ovo, que não esta com parte pontuda virada na direção... Da saída natural.
Desagradável, não? Pois é, estar de ovo virado (ranzinza, mal-humorado sem motivo) veio dai... Das galinhas e não dos homens.
Paelha: 
Veio do espanhol, Paella.
No latim patina, tigela, ganhou o diminutivo de patela, prato que originou o francês antigo paele (hoje, poêle, frigideira) e no catalão, paella, frigideira. Paella ficou sendo especificamente o nome do utensilio de metal (pouco profundo, com duas asas) onde é cozido o arroz à valenciana, que ficou mundialmente conhecido pelo nome do recipiente de seu preparo.
Andou circulando pela internet uma versão falsa (o que não é nenhuma novidade) para a origem de paelha. Veja que mimo: “aos domingos os espanhóis iam caçar e cozinhavam para as mulheres. Faziam arroz misturado com frutos da caça ou da pesca. O prato era feita para elas, isto é Paella...!”.
Bem, igual caderno, a internet aceita tudo.
Mas minha amiga deve ter se esquecido de minha condição física e me convidou para “dançar” pagode. Acredito que tenha querido dizer; Ouvir, curtir, assistir...
Pagode vem do dravídico (família linguística do sul da ìndia) pagôdi – templo para culto de ídolos - que veio do sânscrito bbagavati, deusa.
Quando os navegantes portugueses em suas viagens ao Oriente, descobriram os festivais budistas, em que havia muita gritaria, musica e instrumentos de percussão, levaram para a santa terrinha a palavra pagôdi (que designava o templo budista), com o sentido de divertimento, farra. Dai a palavra passou para outras línguas neolatinas e, no Brasil, veio a designar alguns tipos de músicas com dança e percussão, entre elas um gênero de samba batizado de pagode; Quer dizer, pagodeiros e budistas não estão tão distantes assim.
Quanto a companhia de Oxalá que minha amiga se referiu:
Oxalá vem do Árabe, wa xa Allam, Assim queira Deus.
No Brasil, oxalá é uma referência da aumbhandã (literalmente Salve tua banda – uma espécie de mantra dos pretos velhos) uma espécie de vibração energética utilizada pela Umbanda no Brasil, e que dentro do sincretismo (visto ser completamente cristã) e é referente a Jesus Cristo. Não esquecer que temos duas Umbandas no Brasil: Umbanda Nação e Umbanda Branca. Tem muita diferença. Cuidado. Respeito, fé e Salve tua Banda irmão...
Assim de uma conversa entre um gaúcho e uma nordestina, aproximadamente 3.930 km de distância (quase de um continente ao outro) tem-se diálogos compreensíveis, mas com uma significância ricamente adornada por estes regionalismos amadíssimos de nossa Amada Pátria e Mãe gentil. Brasil.
Que Oxalá queira sempre entendimentos entre nós!
Paz e luz!
Pensar não dói... 


Entendimentos & Compreensões
Leituras & Pensamentos da Madrugada
Transpirado dos diálogos de Cida Lemos – Recife. PE.
Fontes diversas:
Alain Rey e Sophie chantreau, Dictionnaire des expressines et lcutions, 
Paris, Dictionnairess Le Roberto, 1997.
Dionisio da Silva. De onde vêm as palavras e curiosidades da língua portuguesa, 
São Paulo, Mandarim, 1997
Publicado Originalmente no Grupo Kasal – Vitória – ES.
http://konvenios.com.br/info/verArtigo.aspx?a-id=27653
Arquivos da Sala de Protheus
www.epensarnaodoi.blogspot.com.br