segunda-feira, 25 de abril de 2016

#SerieVida:

“Sim, Homem Chora!”

“... Sim, eu sou um homem e choro.
Um homem não tem olhos?
Não tem também mãos, sentidos,
inclinações, paixões? Porque é
que um homem não devia chorar?

August Strindberg


Este mês o jornal eletrônico Extra, publicou uma entrevista fabulosa e curiosa em meio aos assuntos.
Clarissa Monteagudo entrevistou a poetisa, escritora e psicóloga carioca Mônica Bayeh, também colunista do jornal, junto com outra blogueira e mãe Monique Ranaouro sobre os preconceitos da Maternidade.
Em meio a este assunto tão complexo – que poucos homens entendem – a depressão pós-parto.
A entrevista completa pode ser vista e ouvida e muito pensada no sitio abaixo, nas fontes.
Em a este super-encontro de três mulheres, três mães, três guerreiras muitos outros se tornaram especiais afinal, no fundo falava-se de família.
Em um deles saiu a frase que desconstruí em epígrafe: Homem Não Chora?
O assunto veio em meio às fases da descoberta da gravidez da mulher até o final quando a mulher volta a ser ela mesma (difícil esta conclusão).

Tenho minhas dúvidas se a mulher volta a ser ela mesmo após a maternidade.
Mas o que um homem está se metendo neste assunto?
Primeiro sou pai. Acompanhei duas gravidezes da mãe de meus filhos.
Na primeira gravidez, do meu campeão, tive o que os psicólogos chamam de “gravidez psicológica”.
Achou estranho? Completamente normal para quem acompanha uma gravidez em cada detalhe.
Explico: Claro que é um efeito psicológico e colateral de nossa impotência masculina.
Engordei os mesmos quilos que a gestante. Tinha dores quando ela também tinha; chegava a me antecipar em alguns alimentos que ela poderia ter vontade e pedir. E isto não é “frescura” de mulher grávida não. Os hormônios entram em uma profusão tão incrível que precisam alimentar, quimicamente, dois seres, um que gera e outro que está, literalmente, sendo construído.
Nos últimos dias da gestação de meu primeiro filho, todas as noites, o carro estava estacionado de ré, na garagem e carregava-o todas as noites com a tal de “mala da gestante” que iria para o hospital.
Fiquei quase uma semana fazendo esta rotina. Somente depois que tudo estava bem eu consegui dormir com um olho só.

Na noite do parto, 23 horas, nas primeiras contrações, foi somente o tempo de vestir-se e lá estava tudo pronto.
Batava sair com o carro já carregado e ir à maternidade.
Acompanhei a gestação e nascimento de meus dois filhos. Chorei mais que a mãe. Fui o primeiro a pegá-los, antes de limpá-los e colocar sobre o peito da mãe... E assim por diante.
Após os partos, meu trabalho permitia, e ficava o máximo de tempo possível em casa. Era a babá dos dois: Da mãe e do bebê.
Cada nova descoberta era acompanhada sim, de muito choro,
Revi a entrevista fantástica destas três mulheres e me inclui em seus assuntos. 
Parecia que estava lá falando e tinha detalhes sobre cada assertiva, sobre cada sofrimento, sobre cada fase de uma gestação e após o que acontece não somente com o corpo da mulher, mas também com os químicos e seus efeitos.
Esta “construção” arraigada de que o homem é somente um mero participante de uma geração de filho é velha, ultrapassada; mas sei que ainda muito continuada em todos os meios.
Como gaúcho, a educação familiar sempre foi um ponto fortíssimo, a valorização do ser a partir dele mesmo e não de seu gênero.
Vendo Mônica Bayeh e Monique discutindo o que passaram em cada gravidez, era como se eu também tivesse passado (sem um decimo das dores que elas passaram, obviamente). Mas cada detalhe não era desconhecimento, era algo bem sentido em cada uma delas e participado.

Minha filha tomou banho comigo até chegar sua menstruação... A partir disso recolheu-se em seu pudico reconhecimento de mulher... E foi respeitado.
O único detalhe que me chamou a atenção e tento desconstruir é que o tal de homem não chora. Muito pelo contrário. A maioria ainda é apenas covarde para admitir. Chora sim e muito. Mas esconde-se em seu porão do inconsciente para não ter seu “macho” destruído.
Home chora por tudo o que vem de sentimentos, de coração, de compaixão.
Choro ao ouvir o choro continuado de uma criança sofrendo... Choro vendo o amor emocionado e incondicional de um simples encostar de lábios de um casal, juntos há mais de 60 anos – raridade hoje -.
Choro ao ver o sofrimento de um pai/mãe tentando dar o melhor que pode em termos de estrutura ao filho.
Choro vendo um filho casando... Chorei emocionadamente no nascimento de meu neto. Afinal agora eu era pai do pai. Nada descreve esta sensação. É ser pai duas vezes e agora através de seu filho... É ser pai novamente com mais doçura, com mais sorrisos, sem tantas preocupações que agora cabem ao seu pai e não ao avô.

Meninas Clarissa, Monica e Monique; Sim homem que é homem chora... Homem participa da gravidez de sua mulher em todos os momentos que pode, homem se torna o divã da mulher para ouvir suas queixas, lamúrias ou as satisfações do que esta acontecendo. Homem chora ao ver a primeira “mexida” do que se tornará seu filho na barriga. Homem chora muito ao ver o primeiro ultrassom com as batidas de aquele pequeno ser em formação.
Na década de oitenta, ainda pós-adolescente quando fui pai aos 21 anos, após o parto, na sala com parentes deixei dito:
“ O homem pode ter ido a lua, mas duvido que a emoção seja superior ao ato de ver seu filho nascendo...!”.
Entre seus vários escritos, Nietzsche criou o termo super-homem para designar um ser superior aos demais que, segundo Nietzsche era o modelo ideal para elevar a humanidade. Para ele, a meta do esforço humano não deveria ser a elevação de todos, mas o desenvolvimento de indivíduos mais dotados e mais fortes.
A meta, segundo Nietzsche, seria o super-homem e não a humanidade, que para ele era mera abstração, não existindo em realidade, sendo apenas um imenso formigueiro de indivíduos.

Pego emprestado do filósofo o termo e afirmo. Tornei-me super-homem ao acompanhar e ver o nascimento de meu primeiro filho. Não só ajudei a gera-lo como participei de cada ato ate seu nascimento. Apenas ele estava na outra barriga... Mas o coração era um só.
Para um pai pensar não dói... Já chorar é bom e deixa a alma leve.



Entendimentos & Compreensões
Transpirado da entrevista do Jornal Extra 
Com Clarissa Monteagudo, Monica Bayeh e Monique Rendauro
https://www.facebook.com/jornalextra/videos/vb.190833037616321/1202435816456033/?type=2&theater 
Abril/2016
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