sábado, 1 de agosto de 2015


#VivênciasLindas:

 

“ Um Dia da Vovó Vivido!”


"...Se você quer civilizar um homem,
 comece pela avó dele...!"

Victor Hugo


Na Sexta-feira, dia 23, passada, uma avó mandou para as netas o convite abaixo:
 “Domingo é dia da Avó, ou seja: EU!!!!!! Vocês gostariam de vir dormir comigo no sábado, comer besteira e ver TV até desmaiar de cansaço, tomar café da manhã naquele lugar das panquecas e frozen e dar um passeio pela Cultura antes de voltar para casa, na hora do almoço?”.
E como era uma avó ingênua e confiante, sentou em sua mesa de trabalho e continuou o que estava fazendo, feliz da vida, esperando o WhatsApp fazer aquele "plimmmm" característico, avisando que as netinhas haviam lido a mensagem.
Cinco horas depois, uma avó bastante abalada sofreu um ataque de ansiedade em frente ao computador, entregou os pontos e ligou para as monstrinhas, apenas para ouvir a voz, ao longe, de Clara, a mais velha:
Ihhhhhhh, eu me esqueci dela!!!
Como assim, você esqueceu-se de mim?!?!?!?
Não me esqueci de você, esqueci de ler a mensagem, péra, estou indo lá.
Depois de mais algumas tamboriladas na mesa, quase seis horas depois da animada mensagem original, lá vem o tão esperado plimmmm: “Claro!”.
Além de demoradas, lacônicas, para dizer o mínimo, mas as avós de hoje são extremamente adaptáveis, se contentam com pouco.


No dia seguinte, lá se vai vovó atravessar a cidade para estar britanicamente às 16h em ponto na casa das netas, conforme o combinado. Pega as três princesas, enfia no carro e ruma para a primeira etapa do programa: supermercado, para comprar todas as besteiras prometidas no convite.
Vovó é excelente negociadora e tira de letra a organização da empreitada:
Vamos lá, todas junto de mim. Onde é que você está indo com esse carrinho??? Uma besteira para cada uma.
Mas vovó, uma para cada uma não dá para se encher de besteira como você prometeu...
É... tem razão. Uma salgada e outra doce, para cada uma. Desce da escada, menina, quer quebrar o pescoço?
Não, quero ver o que tem na prateleira de cima...
Escolhidas as bobagens, doces e salgadas, feitas as compras da vovó em tempo recorde, estão as quatro confabulando em frente à prateleira de doces, porque “noite de filme sem bala não é noite de filme”, quando vem outra avó, desacompanhada, em sentido contrário.
As duas trocam olhares cúmplices e a avó solitária comenta: “Tenho duas assim em casa”. Ao que a brilhante negociadora, a essa altura com mais três pacotes de balas no carrinho, pergunta: "E você dá tudo o que elas pedem?". A resposta vem rápida, "Claro que não, imponho limites", acompanhada de um olhar de reprovação. E assim termina o que poderia ter sido uma bela amizade. O duelo começa quase instantaneamente:


É que ela nos vê muito pouco – defende uma das netas – então quando está conosco, faz tudo o que a gente quer.
Boa menina pensa vovó, aproveitando o gancho. A essa altura, ela e a neta mais velha são uma só entidade, abraçadas no corredor, frente unida contra a vovó abelhuda, prontas para a guerra.
Além do mais, trabalho muito, a semana inteira.
Eu também – rebate a implacável oponente.
Mas eu fico algumas vezes até um mês sem vê-las – apela vovó, em desespero.
Silêncio sepulcral do outro lado do ringue, a outra avó sabe que foi derrotada no quesito vítima e sai murmurando que as netas a visitam todos os finais de semana. Ela pode impor limites. Vovó pode bagunçar quanto quiser, humpfffff.
Depois de um nocaute na seção de sucos e um golpe de misericórdia no caixa, na geladeira de refrigerantes, quando já se achava a salvo, hora de ir para casa.
A noite foi exatamente como vovó prometera; comeram todas as besteiras; assistiram a dois filmes e jantaram na cozinha, batendo papo.
Vovó, não quero que você morra – disse a menorzinha, séria.
Vovó é muito nova – diz a do meio – ainda está nos cinquentinhas – e pisca para a avó, que começa a se sentir um fusca bege, com pouco tempo de uso.
Não pretendo morrer agora, pode ficar tranquila, mas no dia em que eu morrer, não fique triste. Nada acaba, ainda vou estar pertinho de vocês, embora não possam mais me ver, está bem assim?
Entendi, você é espirituosa... – interpreta Aninha.
Sou, também, mas acho que você quer saber se sou espírita. Não, sou espiritualista. Não tenho religião definida. Acho que as religiões engessam Deus. Não, ele não quebrou nada. “Engessar” é maneira de dizer. Vamos subir?
Desmaiaram todas mais ou menos juntas quer dizer, menos a avó, que foi acordada de madrugada, com uma cotovelada nas costelas.
Vovó acorda, você tá roncando e não me deixa dormir!!!
Não sou eu, é o Pingo, vai dormir.


Não é o Pingo, ele está dormindo do meu lado esquerdo e o ronco está vindo do lado direito. E se ele roncasse assim era um labrador, não um lhassa. Assim ó: snorrrrfffff, snoorrrrfffff.
V-A-I D-O-R-M-I-R A-N-A!!!!!
Desculpa.
No dia seguinte, na mesa do café, todas alegres, felizes e saltitantes, decidiram trocar o programa das panquecas por mais um filme e uma visita à casa do tio Tony e da tia Isa, para conhecer a gatinha nova.
Vovó, vamos brincar de “mãe e filha”?
Claro, meu amor!
Então eu sou a filha e você é a mãe.
Já está valendo? Sofia vai botar o sapato que o chão está frio!!!!!
Não quero brincar mais, você vai mandar em mim.
Saem atrasadas para conhecer a gatinha dos tios, Clara vai no banco do carona, de copiloto, muito compenetrada. Atividade essencial para avós do tipo fusca bege com pouco uso, nascidas na era pré-GPS.
Qual é o endereço, Clarinha?


Tudo esclarecido, vovó errou o caminho, foi parar em outro bairro, corrigiu a rota e as quatro atravessaram a cidade novamente, não antes que Sofia observasse, sensata:
Vovó, o nome do seu condomínio (Verde Perto) está errado, deveria ser “Verde Longe”...
Estacionaram, entraram no prédio e vovó, muito educadamente, se dirigiu ao porteiro:
Bom dia, moço, o apartamento ***, por favor.
Claro, senhora, falar com quem?
Tony e Isadora.
Hummmm, não é aqui não.
É sim, pode olhar de novo, é que eles mudaram há pouco tempo, o senhor não deve ter decorado as fisionomias, nem os nomes.
Não, minha senhora, até esta manhã, quem mora no apartamento 610 é o senhor Genésio...
Clarinha, qual era a quadra mesmo?
- ***
Desculpa moço, quadra errada.
Depois de visitar o filho e dar um sorvete a cada uma delas, vovó devolveu as netas, ilesas, 24 horas depois do momento zero. Soube que ela mal pode esperar pelo próximo Dia da Avó, mas está meio insegura, não sabe se as gurias terão esquecido seus micos até lá!
 

Das percepções diárias, entendimentos...
E da vida vivida...
De Beatriz Ramos –
Cronista – Brasília – DF -