quinta-feira, 30 de abril de 2015


#HistoriasVividas:

 

A Nata da Lama...

 Pelo curto tempo que você sumiu
Nota-se aparentemente que você subiu
Mas o que eu soube a seu respeito
Me entristeceu, ouvi dizer
Que prá subir você desceu
Você desceu
Todo mundo quer subir
A concepção da vida admite
Ainda mais quando a subida
Tem o céu como limite
Por isso não adianta estar
No mais alto degrau da fama
Com a moral toda enterrada na lama


Clara Nunes – Lama (Mauro Duarte)

                                       Estávamos em pleno horário de recreio, quando a “doce” Irmã Gilda, responsável pela Disciplina da Escola São Teodoro na Vila Maria - SP, nos disse: “Crianças, vão para casa. Nosso Presidente Vargas morreu e estamos em Luto Nacional. Rezem pela alma dele”. Uma “dispensa escolar” sempre seria comemorada com um alarido infantil, mas não nesse dia. Todos passaram pelas salas de aula, recolheram seu material escolar e saíram ordeira e silenciosamente. O momento era grave.
                                     Todo dia, papai trazia embaixo do braço dois jornais: A Gazeta Esportiva e a Gazeta e a disputa da prioridade de leitura com meu irmão era sempre pela Esportiva. Ele para ver notícias do seu São Paulo FC e eu do meu Corinthians, mas não nesse dia. Minha avidez era por “notícias da política”, pois queria saber mais da “morte do presidente” e nesse dia a manchete do jornal, da qual não lembro bem, dizia algo como: Getúlio suicidou-se ou Getúlio, matou-se.

                                    Foi nos dias seguintes, que começaram a aflorar na imprensa maiores detalhes, nomes e fatos, confundindo sua percepção na minha cabeça infantil. Carlos Lacerda, Gregório Fortunato, Major Vaz e Rua Toneleros e principalmente a expressão, que mais marcou minha memória: “mar de lama”.
                                  As oligarquias política e econômica sempre foram pilares xifópagos do poder e por isso a “defesa mútua de interesses” tornou-se uma norma institucional desde o início dos tempos e não poderia de estar presente no Brasil desde os tempos da Colônia.
                                  Entretanto, segundo as palavras do próprio Getúlio pouco antes do seu suicídio ao saber da venda de uma fazenda da sua propriedade, através de uma procuração dada a seu filho, (Manoel Vargas), para seu “guarda costas” Gregório Fortunato: “Osvaldo (Aranha), está confirmado. Debaixo do Catete há um mar de lama. O Maneco chegou e confirmou que vendeu a propriedade”.

                                 O “Anjo Negro” segundo sua renda não tinha capacidade financeira para a operação, mas a “confiança cega” de que desfrutava por ser a “sombra e a mão do Presidente”, favoreceu seu enriquecimento ilícito. Neste episódio é importante pontuar, que Getúlio vendia sua fazenda para fazer frente às “dívidas de Campanha” e que era o candidato quem usava seu patrimônio pessoal para suportar sua ambição política. Eram outros tempos e os conceitos de moralidade política eram ajustados a extremos, se necessário, como ocorre até hoje em países como o Japão, por exemplo.
                                 Contudo, apesar do “simbolismo extremo” do exemplo de Getúlio, parece que o começou a prevalecer foi o “enquadrilhamento” do exemplo de Gregório e a tolerância ao “mal feito” tornou-se, cada dia, mais elástica. Ainda que não se possam imputar a Juscelino os enormes esquemas de corrupção sabidamente ocorridos na construção de Brasília, nenhum cuidado extra foi tomado quanto ao “bom uso do dinheiro público” ao se edificar a nova capital no tempo recorde de 5 anos. Foi quando se estabeleceu a “hegemonia das construtoras”.

                                 A consequência principal é que o fenômeno que já havia abatido Getúlio, (péssima situação da Economia e inflação), acabou por contaminar o Governo Jânio Quadros/João Goulart e isso associado às “malcheirosas práticas políticas” estimulou a assumir o Poder, quem há muito o vinha sustentando: o Exército de Deodoro e os Tenentes alunos da Academia Militar do Realengo a partir de 1920, nacionalistas defensores de uma Hegemonia Sub Continental.
                                  Já durante os Governos Militares, dado a imensa quantidade de obras de hidrelétricas, estradas, grandes obras de arte e ferrovias já se fazia presente um “cartel informal” de construtoras, visto serem poucas as com efetiva capacidade de encarar os “megaprojetos” em curso e com isso a prática de corrupção de agentes públicos, aliás, uma prática comum em todo o mundo, mas que alguns países começaram a coibir fortemente. Haja vista o caso de um vice-presidente americano Spiro Agnew, (Richard Nixon), em 1973, forçado a renunciar.
                                 Com o retorno do poder aos civis em 1985 e dos “elásticos acordos” de governabilidade a “política tradicional” retomou em mãos as velhas práticas de favorecimento e as denúncias de corrupção voltaram ao primeiro plano do palco político. E as construtoras também.
                                Uma coisa que qualquer Técnico em Edificações sabe é que obras dependem de três fatores principais: conhecimento do local e do projeto, planejamento da obra e aplicação de materiais adequados. A Engenharia Brasileira sempre foi reconhecida pelo seu padrão de criatividade e qualidade não só relativamente aos aspectos técnicos de execução, mas também de conhecimento de materiais adequados.

                                    Os “desvios imponderáveis” na execução de projetos relativamente ao planejado são sempre passíveis de ocorrência, porém a “barrigada técnica” também tem um “limite de tolerância” o que coloca esses eventos em parâmetros aceitáveis e insuspeitos.
                                  Outra coisa que qualquer Executivo sabe é que a corrupção é uma prática impossível de ser evitada. O desafio é mantê-la controlada em níveis mínimos toleráveis, mediante a adoção de um planejamento técnico preciso, sistemas de controle de medição da execução e auditoria técnica dos materiais empregados e principalmente “quadros técnicos” competentes no Governo para fazer respeitar o ”dinheiro público”.
                                   Uma coisa que espanta no Brasil é a frequência de repavimentação das vias públicas nas cidades brasileiras. A cada chuvinha lá vem asfalto novo. Fico imaginando o que se passa nos Fundos de Pensão e Empresas Públicas. Melhor não.
                                 Não é de estranhar por todo o seu “histórico republicano”, que o Brasil chegasse ao ponto de “refinamento da lama” em que chegamos hoje. Era tudo uma “questão de audácia”...
                                E convenhamos, audácia é uma coisa, que nunca faltou aos “assaltantes políticos” brasileiros de todos os tempos e especialmente ao PT nestes últimos 12 anos.



 
Exclusivo para Sala de Protheus
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De Antonio Figueiredo
Escritor e Cronista
São Paulo – SP