sábado, 4 de abril de 2015


O Novo Tempo...

"...Teus filhos não teus filhos
São filhos e filhas da vida,
anelando por si própria
Vem através de ti, mas não de ti
E embora estejam contigo,
a ti não pertencem...!”
Khalil Gibran

                              Meu filho do meio saiu de casa. Desafiou a crise econômica, o desemprego, meus medos do Brasil que se desenha para os próximos meses; pegou a mala, o carro, o computador, os sonhos, colocou o tablet na mochila junto com minhas preces e se mandou para o Nordeste, fazendo o caminho inverso de minha família materna. Pegou um “Ita” em Brasília e foi para Natal morar.
                                E aqui fiquei; mãe leoa, desde os 17 anos com cria ao lado, desacostumada a cuidar “só de mim”; melhor dizendo, sempre me deixando por último, de olho nas prioridades das três criaturinhas que viviam comigo.
                                Sou durona, costumo encarar muito bem essas separações. Quando minha filha mais velha saiu de casa eu estava preparada. Levei na esportiva, lembro bem, quer dizer, não lembro muito bem, porque foi exatamente nessa época que minha memória começou a sofrer lapsos repentinos e preocupantes. Passei quatro anos sem conseguir decorar o endereço ou o telefone da casa da Fabi, estranhíssimo. Até pensei em consultar um neurologista, mas passou sozinho, assim que minha neta mais velha nasceu...
                                  Quando Tony, o mais novo, resolveu sair, também reagi muito bem, mesmo ele tendo apenas dezesseis anos e preferido morar com o pai à minha amantíssima companhia. Foi apenas acaso que vagasse um apartamento maravilhoso bem ao lado da prumada dele e passássemos a nos encontrar sempre na garagem. Coincidências acontecem, não sou uma perseguidora.
                                    Agora é diferente, Natal fica a 2.450.54 km de Brasília, não há acaso que resolva uma distância dessas. Vou ter que encarar os fatos: depois de 40 anos cuidando de filhos, pai e mãe, meu ninho finalmente ficou vazio – se não contarmos com Bia, Pingo e Morgana, que ronca tranquilamente aqui ao lado.
                                    Como não adianta espernear, até porque não tem ninguém  aqui para apreciar o faniquito, estou em processo de aceitação há quase um mês – já tem todo esse tempo?
                                      A casa está tranquila, o ar suave e gosto de ter a minha "toca" para mim. É uma sensação nova ir ao mercado e só comprar carne para os cachorros – os únicos residentes carnívoros. Sei que ainda vou errar muito, enchendo o carrinho com comida que vai estragar na geladeira; vou acordar de madrugada sentindo a presença do Pedro no quarto ao lado, até lembrar que ele está amadurecendo, em frente ao mar.
                               Sou mãe há quase tanto tempo quanto sou gente, é natural que me perca em meio a essa sensação de falta, mas acho que vou gostar de começar uma nova aventura aos 57 anos, quando tantos de nós já fazem planos para aquietar o facho.
                                  Vou me dedicar a me conhecer melhor, a tratar de mim, a escrever, a cuidar da mulher em que aquela menina de 17 anos se tornou e eu nem vi, de tão ocupada que estava. Vou marcar os exames que adio há anos e pensar na vida que quero levar daqui para a frente. Vou pintar a casa e consertar todos os pontos de luz queimados, mas não vou mexer nos quartos dos meus filhos, porque casa de mãe é lugar sagrado, para onde sempre se pode voltar, na hora do aperto.
                              Vou trabalhar, porque se parar eu morro - de tédio e de fome – e vou ocupar meu tempo livre com coisas que sempre quis fazer. Estou na dúvida entre um curso de vitrais ou meditação, algum palpite?

   

Entendimentos & Compreensões
Um novo Tempo de Beatriz Ramos
Cronista – Brasília – DF