sexta-feira, 24 de abril de 2015


#DasMinasGerais:

 “A Vila!”

                                        Tempos idos naquela pequena Vila. Circos, touradas, marionetes, ciganos, congados, festas religiosas quebrando o silêncio, a rotina da pequena população.

                                      Mulher barbada, coisa incrível. Palhaço com perna de pau à tardinha, “hoje tem, hoje tem? Tem sim senhor... E o palhaço que é?”, a meninada saltitante, acompanhando, respondendo às perguntas. Tempos bons que por desconhecer a realidade traziam sempre alegria ao povoado.Marionetes se apresentavam na Praça do Cruzeiro. Um casal, filhos e amigos bonecos que sempre davam algumas dicas de modernidade, de política ali desconhecidas. “Eu passei em Cubatão”! Ao que a boneca respondia: “Eu passei batom...”, “Não passei!”, “Não passei mesmo”, dizia ela. “Eu passei foi no meu beiço... bem vermeio pra ficá bunita igual a fia do Sr. Antônio”.  “O quê? Você será bunita iguar as fia dele...!?”



- “Claro que fico. Eu sou bunita e vou ficar mais ainda quando cortá o cabelo bem curtinho, vesti carça esporte...!”
- “Nisso ocê tem razão. A carça cumprida é bão dimais da conta. A muié pode montar no cavalo que não aparece parte ninhuma e nóis homi pode ficar assussegado.”

- “Bobo, não é só por isso. A carça não deixa arranhá nossas canelas. Cabelo curto é mais facim de lavar, pentiá, de fazê tôca, colocá o rolim. Com a suadeira da roça, o sol ardeno, ajuda nóis. Num é só as artistas que merece boa vida. Temo que trabaiá também no conforto...”
- “Mais num é? Pois concordo com ocê... Num adianta o cabelo ser grande e fazer aquela pituca.”



                              Vinham os cabelos loiros com água oxigenada. Quebras de tabus. Não os Tabus da famosa marca de cosméticos, do “pó de arroz”. O riso continuava, tanto na praça, quanto no circo e muitas vezes vinha o frio na barriga com os malabaristas. Artistas que nunca frequentaram nenhuma academia. Palhaços arrancando gargalhadas.
Os sustos durante as touradas. As adivinhações, casamentos de ciganos, seus tachos de cobre, dentes de ouro. Aquele cheiro forte de cavalo, misturado com o suor humano. “Cuidado, cigano rouba criança e moça bonita!”


                                 Dia de missa, Vila cheia, festa, visitas, novidades nas “vendas”. Chicletes Ping-Pong, balas de goma, bala Juquinha. Vendia-se de quase tudo. Animais com os balaios lotados de mandiocas, mexericas, laranjas, tangerinas, frutas-pão, jacas, jabuticabas. Sentava-se em qualquer lugar, debaixo de uma boa sombra para alimentar seus filhos, muita farofa ou iam para casas de parentes e amigos. As moças da roça procuravam ler ou saber um pouco dos cantores, os novos cortes de cabelos, moda, da revista Recreio. À noite, a Vila ficava vazia, o silêncio, todos dormiam. Dia seguinte muito trabalho. Volto à Vila onde nasci. Ainda tem circos, mas já não são mais a mesma lona. Agora não se falam mais em marionetes ou touradas. A Internet chegou lá. A Vila mantém quase que as mesmas casas, mesmos lugares, a mesma parentela que vai nascendo e crescendo. Estradas... Lembranças...



                                  Matas fechadas que moradores preservam. Lagos, rios... A velha represa continua lá. Ninguém se deu conta da sabedoria daquele homem, engenheiro nato, que pela Vila tanto fez. Mas não era ele quem trazia aquele povo do circo, as marionetes, as touradas e ciganos cedendo terreno? Não era ele o Juiz de Paz?  Ficou no esquecimento. Já não há lembranças dessas coisas. O que foi são vagas recordações, sem muita importância. O circo mudou de cor. Marionetes com indumentárias diferentes. Ciganos vão e voltam em quadriênios e já não usam o mesmo acampamento. Não se escuta mais o trotar de seus cavalos. O cheiro é outro, os dentes não são de ouro. Não carregam tachos de cobre.
                                      A Vila se modernizou. Facebook e outras redes sócias chegaram. Eletrodomésticos de qualidade. Chegaram também os assaltos, o desassossego, os muros em volta das casas; perigos que antes eram apenas de algum réptil, das aranhas caranguejeiras.

                                    O perigo tem nomes que apenas se liam nos livros “As Mais Belas Histórias” (Lúcia Casassanta), quando a meninada sentava e ficava pensado o que faria o justo Ali Babá com as pedras preciosas retiradas da caverna dos quarenta ladrões (?). Ainda pensavam o que elas fariam se encontrassem o lendário tacho cheio de ouro no fim dum arco-íris? Não sei, acho que chamaria a minha mãe, porque é pesado.Hoje Ali Babá tem outra aparência, o arco-íris tem outra simbologia. Novos significados e palavras: “quadrilha da capital”, “traficantes”, “crack”, “estupros”, “de menor”. Mas quadrilha não era aquela dança de caráter religioso? A Vila assiste a novelas, fica sabendo da vida de famosos, acreditando que eles compram tais revistas e leem. Vibra com as ’estórias’ do meio artístico. É “moderna”, mesmo com toda a sua beleza natural, que se encontra pelos caminhos estreitos, estradas; os pássaros, os fogões a lenha, as minas, córregos, pontes rústicas. Os mata-burros; porteiras.



                                   A Vila continua jovial. Não precisa passar batom. Mas o circo tem a cor aterrorizante como o susto das touradas. O povo tem medo da cor, medo de sapo, do novo Ali Babá e dos quarenta ladrões que podem chegar a qualquer momento e tomar suas propriedades. Medo da cor das bandeiras esvoaçantes em seus estandartes, foices, machados, facões a tilintar no ar. Já não é o mesmo circo anunciando o espetáculo noturno. As marionetes são a Vila. O palhaço não usa perna de pau pra sair às ruas. Usa terno e gravata. E a cor lá está, a cada quadriênio, que mesmo sendo rejeitada é escolhida pelas urnas eletrônicas e não pela Vila. Urnas mortuárias. Receptáculos de morte da democracia.



                                  Vila de tantas belezas, banhada pelo Rio José Pedro, de tantas lembranças e desejos mil. Quem dera chegasse progresso até você de Norte a Sul, Leste a Oeste e não mais ficaria agarrada em atoleiros. Ai de ti pequena Assaraí, que deu fuga, passagem a negros, índios que escapavam de invasões das terras dos Botocudos e Coroados, ficando somente o catequizado índio Pokrane. Mas, que agora precisa ser vigilante com os circos dos horrores que se atraem a ti, com os caminhos dos modernos desbravadores empunhando consigo nomes incomuns, significações perigosas.
A Vila perde a cor!
Definitivamente, há certas coisas que não passam; dão passagem, puerilmente.
Assaraí não tem um significado certo, podendo ser Rio das Garças ou mesmo Passagem como no início. E que passe logo! 













  Exclusivo para a Sala de Protheus -
Da memória Lúdica de minha amiga mineira:
 Marilene Marques, Mineira, nascida na Vila de Assaraí,
Município de Pocrane, Região do Vale do Rio Doce, MG,
Aposentada, trabalha com voluntariado social.
Adendo: Cito a inesquecível Bala Juquinha em homenagem
 à nossa querida irmã Odélia, uma das ex-professoras
da Escola do Cantinho do Céu.