quarta-feira, 22 de abril de 2015


#historiaContada:
 
Na Tampa...

Com a marvada pinga
É que eu me atrapaio
Eu entro na venda e já dou meu taio
Pego no copo e dali nun saio
Ali memo eu bebo
Ali memo eu caio
Só prá carregar é que eu dô trabaio
Oi lá
Venho da cidade e já venho cantando
Trago um garrafão que venho chupando
Venho pros caminho, venho trupicando, xifrando os barranco, venho cambetiando
E no lugar que eu caio já fico roncando
Oi lá
Inezita Barroso – Marvada Pinga

                                            Essa minha vida de “cidadão andarilho” fez com que dos setenta anos de vida, vivesse por mais de trinta e nove anos fora da minha “Paulicéia Desvairada”, a qual retornei há seis meses e espero que para aqui ser reciclado na natureza. Foi aqui que abri os olhos para a vida e é aqui que quero fechá-los, tendo a certeza que vou dar muito trabalho para os amigos, que carregarem meu caixão. Afinal, meu corpo estará pesado de tanta “poeira”, que acumulei andando por esta Terra Brasilis.
                                          Sempre fui da teoria, que no dia da partida quero estar com o corpo bem gasto, pois foi isso que aprendi nos meus dezenove anos de Minas Gerais. Bem gasto e coberto de histórias e “causos”, pois isso foi o que de melhor me ensinaram por lá e que sempre “gravei na carcaça” com talha profunda. Lá pelas Gerais chamam isso de “sabença” e tenho a certeza de que, pela excelência da “mestra” me formei no “grau de aprendiz permanente”, que um dia chegará a “bedel de si próprio”.
                                         Os “anos letivos” sempre foram indeterminados e as “salas de aula” nos mais variados lugares, fosse às margens do Rio São Francisco, das Velhas, Urucuia ou Grande, ou então admirando a Serra da Mantiqueira, Espinhaço, Canastra ou da Piedade, que avistava pela janela durante todo o tempo.
                                           A cátedra era a da “Matutância Filosófica”, subdividida nas cadeiras do “Paiero”, que era cursada solitariamente, enquanto o “Golo”, o “Caldigalovéio” e o “Dediprosa”, estudado em “aulas laboratório” conjunto. Preferencialmente, sentando-se em um banco de madeira, com as pernas cruzadas e nos pés um par de “botinas amarelas”, gastas e empoeiradas, de todos os lugares da caminhada. Para quem não sabe “matutar” é “meditar”.
                                          A de “Paiero” consistia em pacientemente ir “picando” bem fininho um fumo goiano suave, para depois macerá-lo com o polegar contra a palma da mão cuidadosamente e depois com o “fumo picado” escondido na palma da mão, escolher uma palha seca de milho, daquelas bem fininhas, vinda do coração da espiga, alisá-la e cortá-la para depois enrolar o “cigarro de palha”, espalhando o fumo uniformemente. Tudo com muita ciência, vagar e concentração no mais profundo silêncio.
                                             Depois de uma lambida na borda da palha e apertar o “paiero”, acendê-lo para dar uma grande “puxada bem funda” para depois soltar uma “baforada filosófica” no ar, admirando-a dissolver-se e levando junto os pensamentos, de que não me lembro, mas que com certeza eram sobre os erros cometidos e as lições “bem aprendidas” da vida, tendo em mente, que errar é a essência do aprendizado.
                                       Já a ciência do “Golo” consiste em “desentocar” aquela garrafa “da melhor cachacinha feita no melhor alambique de cobre”, tapada com sabugo de milho e embrulhada em saco de papel daquele armário mais escondido e coloca-la à mesa. É o melhor do anfitrião oferecido em retribuição ao melhor da terra recebido. E então, num ritual, que só os “velhos cachaceiros” conhecem deitá-la e rodá-la no copo e “molhar gentilmente” a língua, o céu da boca e a “goela”. A “cachacinha” sempre foi um unguento para as dores e alegrias da vida, pois às vezes até alegrias nos doem.
                                         Já a do “Caldigalovéio” é a demonstração da generosidade do anfitrião através da “oferta em sacrifício” do seu cansado que por muitos anos foi seu fiel despertador e arauto do sol nascente. O galo velho parceiro, com suas carnes já duras demais para alimento, na realidade ao ser cozido em água, alho, cebolas, cheiros verdes, azeite e sal é um “consoméè” de um “diário de um tempo juntos” e por isso ao ser imolado e servido corresponde ao “sal do bom paladar” e ao aprendizado da “celebração do sabor da vida”.
                                       Talvez nada seja mais emblemático na cultura das “Gerais”, que o “Dediprosa”, pois por lá sempre se disse, que “um mineiro é solidão, dois mineiros é reunião, mas três mineiros é revolução" e nada melhor que se juntarem todas as “ciências” anteriormente aprendidas num “dediprosa”.
                                        Com saudades lembro-me da celebração dos 80 anos do “velho” Geraldo em Abaeté lá pelos idos de 1975. Sabiamente ao completar 50 anos ele e mais três “velhos seresteiros” guardaram 3 “sacos de garrafa de pinga”, que deveria ser aberto, quando o primeiro deles chegasse aos 80 anos. O primeiro a aniversariar era o meu amigo e lá estavam os outros três “vivinhos da silva”, bebendo aquelas “preciosidades envelhecidas engarrafadas” de 30 anos. Tivemos que reencher um caldeirão de 50 litros com o “galo velho” por três vezes. Linda festa e celebração.
                                        Na verdade, o que mais tem feito falta em nossos tempos é a “meditação” e a “confraternização” provocadoras de uma “confabulação”, (ou quiçá uma “rebelião”). Não tenho a menor dúvida, que uma imensa maioria dos cidadãos hoje tenha a mais plena consciência dos males do nosso tempo, mas tem faltado um “golo, com um caldigaloveio, prá esquentar o “dediprosa” coletivo”.
                                      Pra encerrar vou contar a historinha de um amigo de Ipatinga, que resolveu abrir um “boteco”, mas que “quebrou” muito rapidamente, pois acabou por consumir ele mesmo todo o estoque. Toda vez que o visitava e perguntava “como estava” ele evidentemente embriagado respondia: Na tampa...
É assim que nos sentimos hoje todos os brasileiros...
Na tampa...

 
 
Exclusivo para a Sala de Protheus
Das vivências, entendimentos & compreensões
De Antônio Figueiredo –
Escritor & Cronista –
São Paulo – SP -