domingo, 19 de abril de 2015


#CrônicasDaVidaReal:

 A Roda da Vida!
Bom dia para você que é confundida com um GPS por sua mãe...
Atendo o celular: "Onde é o Dr. Crispim ? Eu estou perdida!!"
"Ao lado do Ed. das Clínicas, mãe"
"Onde é o Ed. das Clínicas? Eu não sei! (ela já passou por algumas consultas lá, acompanhada por mim).
"Mãe, onde você está?"
"Perto dos Correios..." - (suspiro)
Sim, eu a guiei por telefone até a entrada do estacionamento subterrâneo do prédio...
Detalhe:
Ela mora há VINTE ANOS em Brasília!
 
                                 O post acima estava no Face book da minha filha mais velha, Fabiana, na semana passada e, infelizmente, a situação relatada foi real. Eu vivo me perdendo.
                                 Fiquei indignada, claro, e teria respondido à provocação na hora, mas, infelizmente, assim que cheguei ao bendito consultório descobri que havia esquecido em casa os óculos de grau, bem ao lado da carteira de motorista... Também vivo esquecendo as coisas.
                                   A questão dos óculos foi meio complicada... Para a moça que me atendeu, coitada. Pobre Damaris, obrigada a ler cinco formulários enormes, cheios de perguntas constrangedoras, e anotar cuidadosamente as respostas, já que não enxergo um palmo à frente do nariz sem eles.
                                 O esquecimento da carteira de motorista foi mais assustador; principalmente porque o tanque de gasolina estava na reserva. Enquanto procurava freneticamente por um posto, o mostrador, sádico, avisava que a autonomia estava em 0 km e eu já imaginava o DETRAN aparecendo, para saber por que meu carro estava empacado no meio da rua, pedindo a carteira... E os documentos do veículo.
                              Já segura em casa – de onde, diga-se de passagem, sequer deveria ter saído naquele dia 15 com cara de 13 – fiquei matutando sobre meus esquecimentos e se não deveria marcar um neurologista, um geriatra, uma concessionária, uma revisão qualquer.
                              Daí para lembrar minha mãe, e tentar descobrir se podia – mais uma vez – jogar a culpa nela, foi um pulo.
                              Minha mãe era uma mulher belíssima e muito inteligente, escreveu vários livros, alguns deles premiados, criou duas filhas praticamente sozinha. Clara Ramos sempre foi minha “ídala”, mas tinha alguns pequenos defeitos, como todo mundo.
                            Dirigia muito mal e super devagar, sempre na faixa da esquerda. Todos os palavrões que sei, aprendi com os motoristas que nos ultrapassavam, e eles sempre nos ultrapassavam e nós nunca ultrapassávamos ninguém. Se não fossem os postes, eu poderia jurar que andávamos de ré.
                              Minha linda e distraída mãe vivia esquecendo as coisas, ou as lembrava em dobro. Na década de 70 a moda, em óculos escuros, era um modelo horroroso, que não dobrava, e deixava a usuária parecida com a Formiga Atômica. Ela tinha um desses. Na saída do cabeleireiro, uma vez, ao pagar a conta, reparou que a atendente estava olhando feio para ela e não conseguiu descobrir a razão... Até chegar em casa e se olhar no espelho: estava com um óculos na cabeça e outro nos olhos. Pergunta quem devolveu o sobressalente?
                              Mais apaziguada com os desastres da manhã relembrei o dia em que saí do Rio, rumo a Brasília, há 31 anos. Fui dirigindo até o Galeão, com Fabiana e meu gato siamês atrás, Pedro na barriga e minha mãe no banco do carona. Passei o trajeto inteiro explicando o caminho para a casa dela.
Presta atenção, mãe, na volta você vai passar por essa entrada. Não entra, se não você vai cair na Ponte Rio-Niterói”
Está bem.”
                             Quinze dias depois chega a carta, muito animada, em que ela contava que, depois de algumas aventuras, havia conseguido chegar inteira em casa porque, imagine só, claro que tinha entrado no lugar errado e dado de cara com a ponte.
                             Qualquer pessoa que não fosse minha mãe, teria ido até Niterói e feito o retorno. Ela achou mais fácil engatar uma ré. Um minuto depois apareceu um guarda de motocicleta e deu-se o seguinte diálogo.
Minha senhora, eu prometo que não a multo se conseguir explicar o que estava fazendo dirigindo de ré na Ponte Rio-Niterói!”
Pois é, seu guarda, eu estou muito abalada, porque acabei de deixar minha filha mais nova, grávida, com minha neta e o gato dela, no Galeão, de mudança para Brasília. Vão morar lá. O senhor conhece Brasília?”
Não senhora”
Bela cidade. Pois então, eu estava voltando, tão emocionada, que entrei errado e de repente me vi indo para Niterói. Mas não conheço ninguém em Niterói, moro em Botafogo, não quero ir para Niterói, então achei melhor dar uma ré e sair de fininho!”
Mas a senhora não pode fazer isso! Tem que ir até Niterói e fazer o retorno para o Rio!”
Seu guarda, eu ainda nem cheguei a Niterói e já aprontei essa confusão. O senhor tem certeza que quer que eu tente?”
Está bem, senhora, continua de ré que eu vou lhe escoltar até a primeira saída, se me prometer que vai direto para a sua casa”.
É, acho que não preciso de neurologista, deve ser genético. Também não preciso responder ao post da Fabiana, a batata dela está assando!

 
De Brasília – DF –
Beatriz Ramos
Cronista –
Exclusivo para a Sala de Protheus