segunda-feira, 6 de abril de 2015


#SerieAnalise:

 “...Eu Sou Homem com H...
Com H Eu Sou Muito Homem...!”
 "...Mostre-me um homem que não
seja escravo das suas paixões...!"
 
W. Shakespeare
 
                                    Porque em meio as comemorações sobre a mulher e neste desafio eu resolvi trazer um texto que fala de homem e violência contra eles?
Porque acima dos papéis de gênero postos pela sociedade, somos seres humanos, somos seres diferentes e não desiguais. Somos seres complementares que formam a raça humana. A libertação, a equidade para com mulheres, a justiça para elas, também é para os homens.
                                         A superação desses papéis pré-estabelecidos para homem e mulher é uma libertação para todos e para os homens. Além de pensar em nossas questões, precisamos também falar sobre os homens, pensar a questão masculina, falar da violência que sofrem e da formação do papel masculino em sociedade. Então, vamos lá:
                                        Terminei o curso sobre violência doméstica entre parceiros íntimos, que incluiu homens como vítima de violência, praticada por suas parceiras e/ou parceiros.
                                        Chamou-me atenção, algo que já havia refletido, mas, não lido, como se dá a construção da masculinidade. Ora, assim como não se nasce mulher, mas, tornamo-nos mulher, já dizia Simone de Beauvoir, também homem não nasce homem, tornar-se homem. Ser mulher e ser homem não é algo dado, determinado biologicamente, mas, uma construção social, cunhada por séculos e séculos de ideias e ideologias do ser homem.
                                       Interessante é que o ser homem se constrói na oposição ao ser feminino, ou seja, tudo que seja “feminino”, ou “historicamente construído como feminino”: a fragilidade, a emotividade, a fraqueza, a passividade, a inconstância, a alma cheia de caprichos misteriosos, o recato, certa malignidade inata destruidora dos homens que precisa ser dominada, sufocada, adestrada.
                                       Sendo assim uma mulher sem o governo de um homem, é desgovernada. Historicamente as mulheres foram seres sem alma, já foram seres tidos como estúpidos por terem seus cérebros menores, já foram desprezadas pelos seios e tidas como imundas devido a sua menstruação.
                                    Bem, se a construção do masculino é em oposição ao que é “feminino”, o masculino então é: a potência, a razão, a força, a impetuosidade, a conquista, a linearidade da alma, a violência como uso de conquista e dominância sobre a mulher e sobre outros homens. Homens dominam pela força, pela inteligência, pela acumulação de riquezas. Homens dominam tanto mulheres e outros homens. Se assim não for será incapaz.
                                        Não é à toa que em determinadas sociedades a entrada de um jovem no mundo masculino é precedida de provas que demonstre sua força, virilidade e coragem. Um homem que não carrega em si esses adjetivos, não é um homem, é um “maricas” e essa visão está tão fundamentada socialmente que as próprias mulheres enfatizam essa construção.
                                     Quando quer praticar violência contra seus parceiros (entre homens a incidência maior é da psicológica), mulheres usam preferencialmente atingi-los nesses “marcos de masculinidade” dizendo-o menos homem ou um homem fracassado. Ou seja, se um homem não for capaz de dominar pela força, pela inteligência e principalmente hoje pela acumulação de riquezas, ele fracassou em seu papel masculino para os outros homens e para com as mulheres, para sociedade enfim que o tem como: conquistador, provedor e ordenador do espaço também privado, isto é, a casa, a família.
                                  Para cumprir seu papel social um homem não pode demonstrar seus sentimentos, ele logo é tachado de efeminado, um homem precisa “ser um bode”, lembram-se do ditado: “segurem suas cabritas que meu bode tá solto!”?
                                 Ele tem que ser “Macho Alfa”, conquistador, ter experimentado o sexo e ser experiente sobre o assunto. Ele tem que sobrepor-se a outros homens, dominar outros homens, seja por sua força, sua inteligência ou sua acumulação de riquezas. Por isso ele é potência: conquistador, desbravador, dominador.
                                 Por fim, além de dominar e destacar-se no espaço público, o homem também é o dominador e ordenador do espaço privado.
                                  Mas, o que acontece quando falham nesse múltiplo papel de dominância completa. Não são mais homens, falharam em ser homens. Suas mulheres os violentam psicologicamente porque falharam no papel destinado a ele, tanto no público, quanto no privado.
                              Ser um homem na multidão é ser menos homem. Ser um homem desprovido de potência, inteligência, dinheiro, é ser menos homem. Um negro é menos homem, a não ser que conquiste as dominâncias dos brancos, ou assuma o estereotipo da hirpersexualidade, sua ferocidade, a mítica do pênis grande, do negão. Então ele será homem pela conquista da sexualidade potente e até mesmo desgovernada.
                            Contudo, faz bem aos homens terem que corresponder a essas expectativas sociais? Comecemos por um fato simples, a falta de cuidado com a saúde, a maioria dos homens é descuidada com a saúde, não querem ir ao médico, porque seria um sinal de fraqueza, a (in) potência. E quando vão por vezes é tarde demais.
                                A competição de “macho alfa” acaba furtando alguns homens de conhecer e relacionar-se intimamente com uma mulher. Aquele que conhece muitas mulheres, na verdade, não conhece nenhuma.
                                A busca da dominância no espaço público acaba por reverberar em violência. Porque humilhado por outro homem que tem sobre ele poder, não podendo ser o dominante por questões de dinheiro, status social, saber, alguns homens buscam a dominância da forma mais primitiva: a força. Contra outros homens e no espaço doméstico, contra mulher e filhos. Uma das várias explicações para a Violência de Gênero.
                                   Se falhou na ordenação, provisão e dominância da casa, então falhou mais ainda na sua masculinidade. É interessante notar como a sociedade observa isso, ou seja, uma casa sem “autoridade de homem” é uma casa sem governo, frágil, “aberta a bagunça”, “aberta a conquista de outro homem ou homens”, “as mulheres desgovernadas e a disposição”.
Pergunto:
Ser homem é isto mesmo? Esses papéis “postos” para nós tem feito bem a humanidade, as sociedades? Ao homem e a mulher?
                               Há mesmo uma única maneira de ser homem, uma única maneira de ser mulher? Ou muitas e variáveis maneiras de ser homem e ser mulher conforme cada indivíduo?
                                 Então é hora de repensarmos nossa papeis, e também na educação que damos aos filhos: meninos e meninas. Se quisermos uma nova sociedade, passa no repensarmos no papel social de homens e mulheres. O feminismo também fala ao homem.                      A mudança do papel feminino, os questionamentos sobre as questões de gênero, também fala sobre os homens. A revolução começada na queima dos soutien também fala dos homens.
                             Então vamos falar sobre isso? Vamos falar do é ser homem? Será que ser homem é isso mesmo ou existe outra forma ou outras formas de se construir socialmente como homem e mulher em nossas sociedades?
Com a palavra os homens...
 
Entendimentos & Compreensões de
Candida Maria Ferreira da Silva
Assistente Social, Teóloga, Especialista
em Infância e Violência Domestica pela USP.
 - Rio de Janeiro – RJ -
Candida é autora do Diário
http://blogdakhandy.blogspot.com.br