terça-feira, 31 de março de 2015


#PreconceitoNao:

 A Mulher Gorila e o Homem Desumanizado...


"...Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo;
cada homem é parte do continente, parte do todo;
se um seixo for levado pelo mar, a Europa fica menor,
 como se fosse um promontório, assim como se fosse
 uma parte de seus amigos ou mesmo sua; a morte
de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte
da humanidade; e por isso, nunca procure saber por
quem os sinos dobram, eles dobram por ti...!””
 Meditações VI- John Donne.

                              Em 30 de Abril me deparei com esta postagem na Rede Social Twitter:
                              A minha primeira reação foi a lembrança do filme Vênus Negra, que conta a história da Sul Africana Saartjie Baartman, de quem falarei mais adiante. O choque como uma mulher negra, lutadora incansável contra o racismo, foi imenso, foi aterrador! Logo procurei me certificar de quem era Monga, a mulher gorila. Para meu espanto, esse é um show chinfrim exibido em parques e circos de quinta, feito com espelhos, para assustar os bobos.
                         Mas, o pior é que a Monga, mulher gorila foi na verdade uma pessoa real, mais uma mulher explorada, como tantas são ainda hoje, no tráfico humano, na televisão, por cafetões, por maridos e tantos outros.
                           Julia Pastrana era uma indígena mexicana, nascida em 1834 com hipertricose (doença que faz nascer pelos pôr todo corpo) e também com hiperplasia gengival (responsável por suas feições simiescas).                     
                         Diz a história que foi vendida pela mãe a um tal Theodor Lent, que casou com ela e a exibia em feiras, circos e lugares baratos, como Monga, a mulher gorila. Outros dados dão conta que Julia trabalhava para o governador de Sinaloa chamado Rates que a levou a Nova Iorque para mostrá-la a amigos cientistas e jornalistas.
                         Tutela de Rates, Julia se apresentava em shows, onde expunha sua aparência monstruosa, mas também demonstrava sua inteligência, delicadeza e voz belíssima. Não demorou muito para que outro homem mostrasse interesse pelo “espécime” e comprasse Julia: J. W. Beach passou a mostrá-la como um híbrido de mulher e orangotango, com o aval de um doutor Brainerd, que a reputou pertencente a uma espécie distinta.
                         Após várias viagens pelos Estados Unidos, Julia caiu nas mãos de Theodore Lent, que a levou para uma turnê na Europa, com enorme sucesso. O público se impressionava com a cultura e boas maneiras de Pastrana, além de sua bela voz. Julia foi até escalada para um trabalho “sério” em teatro, em Leipzig, onde interpretava uma mulher de voz linda, coberta sob um véu, que se revelava no final da peça. O próprio Charles Darwin se encantou com Pastrana, citando-a no prefácio: “Variação de Animais e Plantas Domesticados”: “Uma mulher admirável, com uma barba grossa e masculina.”
                         Aos 26 ela morreu de parto e o seu bebe dias depois, a criança também tinha hipertricose.  Lent mumificou os dois e continuou a exibi-los até morrer lá pelos idos de 1921. Depois disso a múmia de Julia Pastrana ficou sendo exibida em espetáculos duvidosos até ir para o Instituto de Oslo. Somente em 2013 uma ativista mexicana solicitou a múmia de Julia Pastrana para ser enterrada.
                            A segunda história que quero contar é de Saartjie Baartaman, uma negra sul africana pertencente à tribo khoi-san, que tinha grandes seios e grandes nádegas, de baixa estatura, coxas grossas, enganada que ficaria rica na Europa era exposta, como Julia, num Show de horrores. Saartjie era colocada numa jaula de onde saía gritando assustando a todos como um animal selvagem. Era uma mulher de feitios "Inusitados" para os europeus. Foi exibida pela Europa, onde foi alvo de chacotas e humilhações, charges.                    
                            Depois foi exaustivamente estudada por "médicos europeus", diante de tantas violências, foi levada a se prostituir e tornou-se alcoolista, morreu 1815 provavelmente por varíola. Seu esqueleto, órgãos genitais (as mulheres de sua tribo tem uma peculiaridade quanto aos lábios genitais) e cérebro ficaram em exposição (como teoria da revolução racial) até 1974. Somente em 2002, Nelson Mandela reclamou seus restos mortais, que foram levados para África do Sul.  Sobre Saartjie existe um filme, que se encontra no Youtube “Vênus Negra”.
Duas mulheres em tempos distintos vivendo a mais miseráveis das vidas, mas, tão atuais. Quantas Julias e Saartjies existem pelo mundo, barbarizadas, humilhadas, violadas de todas as formas. O sexismo, o preconceito com a pessoa com deficiência, os nossos preconceitos, por mais que os mascaremos, acabam abrindo brechas e aparecendo como neste post dessa criatura infeliz.
                         Em respeito a Julia Prastana, a Saartjie Baartaman, eu lhe convido a repensar seus conceitos, eu lhe convido a ir ao encontro da sua humanidade. Porque elas duas e as outras tantas mulheres somos eu e você...
Para Candida pensar não dói... Já o preconceito...

  Nota do Editor:
Candida é autora do Diário
http://blogdakhandy.blogspot.com.br/ 

Entendimentos & Compreensões de
Candida Maria Ferreira da Silva
Assistente Social, Teóloga, Especialista em
Infância e Violência Domestica pela USP.
- Rio de Janeiro – RJ -
Outras fontes:
http://www.revistaforum.com.br/blog/2013/04/vida-e-morte-pastrana/ http://pt.wikipedia.org/wiki/Saartjie_Baartman/