quarta-feira, 25 de março de 2015

Uma Visão do Brasil Real:
 
Mentiras Sinceras...
 Este seu olhar quando encontra o meu
Fala de umas coisas
Que eu não posso acreditar
Doce é sonhar, é pensar que você
Gosta de mim como eu de você
Mas a ilusão quando se desfaz
Dói no coração de quem sonhou.
Sonhou demais ...
Ah! se eu pudesse entender
O que dizem os seus olhos
 
Tom Jobim – Esse seu olhar
 
                                        Não sei dizer sinceramente se a “alma humana” é nosso “baú do tesouro”, pois que guarda tudo o que nos é “mais precioso”, ou a nossa famosa “boceta de Pandora”, que acumula também a “origem de todos os males” em nós. É na sua essência, ora Luzbel o “anjo de luz”, ora Lúcifer o “anjo caído”, segundo o seu livre arbítrio momentâneo, pois ainda que seu “invólucro de barro” pertença à “terra e a ela um dia voltará”, sua energia voa soberana, como cantava John Denver, “alguns dias alto como uma águia e em outros no mais profundo desespero”.
                                      À “alma coletiva” brasileira a que se dá o nome de “Nação”, como poderíamos conceitua-la e/ou compreendê-la em seu multifacetado caleidoscópio? Pelo seu “perfil ideológico”? Pelo seu “perfil regionalista”? Pelo seu “alinhamento partidário”? ...
                                    No Brasil, desgraçadamente, essa alma coletiva se define pelos enquadrados abaixo da “linha da pobreza” e dos acima desta, mas abaixo da “linha da riqueza” e suas necessidades. É esse “perfil nacional”, que tem decidido a representação política nos últimos 50 anos. Os pobres almejando tornarem-se “classe média” e a classe média temendo cair abaixo da “linha da pobreza”. Não existe melhor cenário que este para se explorar o uso das “mentiras sinceras” em solo tão fértil como esse.
                                    O produto mais vendável das mentiras sinceras é a “felicidade virtual”, um poderoso alucinógeno das massas, que faz um cidadão se sentir envergonhado se o seu “grau de felicidade” for inferior ao da “média dos iludidos”, ou discordante da “maioria dos ilusionistas”. Essa é a razão do famoso “nós contra eles” encontrar tanto eco.
                                   Em outros tempos a “guerra declarada” contra os “tubarões”, ou seja, grandes empresários, banqueiros e intermediários, aconteciam porque o “contingente coletor de renda” ela composto exclusivamente dessa categoria. Entretanto, a partir dos anos 60 uma grande massa de trabalhadores passou a auferir salários mais altos e o Governo passou a considerar “salário = renda” e começou a tributá-lo também.
                                  Ao contrário do que muitos pensam, “operários de linhas de produção” também passaram a se incluir nessa “nova classe média”. Nos anos 60 trabalhei em “função técnica de nível médio” na indústria automobilística do ABC, o “sonho de todo assalariado” e meu salário era inferior a muitos “proletários”.
                                  Foi a partir dessa época que o perfil urbano das grandes cidades passou a mudar com a multiplicação da construção de edifícios de apartamentos para acomodar essa nova “classe média”, além do acesso ao “carro próprio”. Foi o início do sucesso da “sociedade capitalista brasileira”, mas foi também o início da “deserdação” dessa classe média pelo Governo.
                                      Direitos constitucionais foram sendo suprimidos pelo sucateamento da “obrigação governamental” de fornecimento de serviços de qualidade em educação, saúde, transporte e segurança, o que provocou um distanciamento cada vez mais crescente entre as categorias C, D, E da sociedade. É evidente, que não me refiro às “atuais classes” C, D, E, visto que as anteriores perderam nesse intervalo mais de 20% do seu poder aquisitivo, incluída a “classe média operária” pela robotização da indústria.
                                     Na escola e postos públicos de saúde essas classes sociais começaram a se desencontrar e com isso começou a se estabelecer um “quisto” de estratificação social. Quem tinha tudo a perder, após arduamente conseguido, (classe média), começou a ser vista como uma classe de “reacionários”, pois que “fora de sintonia” dos problemas enfrentados nos degraus mais baixos da “pirâmide social”.
                                     Foi no final dos anos 70 com a publicação da Lei da Anistia, que a “esquerda” vislumbrou a possibilidade de um “retorno ideológico” à atividade política, consciente de que seu fracasso em 1964 devia-se a seu distanciamento das “bases proletárias”.
                                    Do lado dos políticos, Leonel Brizola fundou o PDT, após intensa “briga” no TSE com Ivete Vargas pelo direito de titularidade da sigla do PTB. Brizola mudou seu foco de 64 de “esquerda revolucionária” para a da “social democrata”, filiada à Internacional Socialista de Willy Brandt da Alemanha. Sua intenção evidente era usar do “populismo trabalhista” tão em voga na América do Sul nos anos 50 de Getúlio e Juan Domingo Perón.
                                    Já a “esquerda intelectual” Uspiana buscou respaldar-se na classe média operária e foi do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, a mais poderosa entidade sindical da época, que se diz ter suas lideranças indicadas, sob influência, de Golbery do Couto e Silva, para afastar a influência histórica do PCB que surgiu o Partido dos Trabalhadores. O discurso e método lembrava muito “o meio esquerdismo”, que consagrou Jânio Quadros.
                                     Sou dos anos 50 e da Vila Maria onde surgiu o fenômeno Jânio, para me lembrar dele, sentado em caixotes de cerveja e comendo sanduiches de mortadela sobre o palanque nos comícios, com sua “farda” da CMTC cheia de caspa sobre os ombros. Foi fruto do “método” e da “ideologia atravessada”, que a “esquerda intelectual” se retirou, só sobrando “trabalhadores”. O restante da história é conhecido.
                                     Foi dessa “classe média operária”, que começou a “cultura do ódio” contra a “classe média burguesa”, como forma de se diferenciar em privilégios e direitos, ainda que em seus empregos tivessem direito à assistência médica extensiva a familiares, refeitório industrial grátis e associação de empregados cooperados, (um supermercado), subvencionada pelas empresas.
                                  Mas isso era preciso para se tornar os “descamisados brasileiros”, exceto no discurso, que não poderia atacar os “tubarões”, pois que era uma associação de benefício mútuo. O PT, inteligentemente, descobriu um riquíssimo “filão eleitoral”, que é o dos “excluídos”, que evidentemente não eram representados pela “nata operária” dos filiados ao Sindicato.
                                   Quem tiver dúvidas sobre isso, que leia do discurso de João Pedro Stédile num “encontro de apoio” à Presidente em um evento do MST no Rio Grande do Sul na semana passada. É puro ódio, inclusive contra a “classe média operária” urbana. Não importa quem sejam os “eles”, desde que não sejamos os “nós”.
                                   O mal para o PT é que o “eleitorado” começa a não mais enxergar os “moinhos de vento” e Don Quixote começa a ficar cada dia mais isolado e a cada dia mais evidente a “causa pública”, que realmente defenderam em 12 anos de Governo: um projeto de poder montado sobre uma “república podre”.
                                  Nem o dinheiro me faz feliz, nem pago para ver amanhã. Só não quero mais uma vez ouvir: ponho só a cabecinha...
Quando as “mentiras sinceras” tornam-se “verdades nuas e cruas”, só resta cantar:
 Mas a ilusão quando se desfaz
Dói no coração de quem sonhou.
Sonhou demais...
Ah! se eu pudesse entender
O que dizem os seus olhos

 

Das Percepções & Pensamentos Partilhados
Antônio Figueiredo - Escritor & Cronista -
São Paulo – SP -