segunda-feira, 2 de março de 2015

Quando Você Olha, O Que Vê?
 “...A única maneira, portanto, de se chegar à verdade, é aprender como enxergar diretamente, como deixar de
lado a intermediação da mente. Essa interferência é o problema, porque a mente só é capaz de criar sonhos...”
Osho, Tarô Zen, carta “Projeções”.

                               As palavras do Osho nunca me pareceram tão atuais. O que sou eu... Onde começa o outro? O que é real ou projetado parece estar ficando mais e mais difuso, em um mundo em que as regras sociais, criadas para uma época completamente diferente, caíram em desuso como as palavras mais longas, feitas para escritos que não cabem em 140 caracteres.
                            A leitura verticalizada, típica de hoje, faz com que o mesmo texto seja entendido de tantas maneiras diferentes que fiquei pensando; e se as relações afetivas estiverem passando pelo mesmo fenômeno? E se a diplomacia mundial for lida e interpretada com a mesma “verticalização” apressada?
                             Estamos realmente vendo o que nos cerca e interagindo com esse ambiente, ou lidando com nossas projeções e medos, colocando quem atravessa nosso caminho na ingrata condição de saco de pancadas de nossas frustrações mais profundas?
                            Será o Brasil de hoje o resultado de uma projeção coletiva, de um povo que viu o que esperava encontrar em um grupo político que jamais escondeu sua real intenção de se locupletar?
                           Há alguns anos, durante meses, eu fui só cabeça. Um dia após operar o ombro esquerdo, caí da escada de casa e explodi a perna direita. Fiquei, seis meses, imobilizada e mais seis em cadeira de rodas. Essa experiência, tão intensa, me proporcionou algumas lições preciosas.
                           Por cerca de um ano fui invisível e percebi que a maior parte das pessoas que conhecia não via a mim, mas projeções minhas, todas elas em pé. Cheguei a passar ao lado de amigos que conviviam comigo há mais de vinte anos e que sequer me olharam. Foi quando entendi que, durante tanto tempo, nenhum deles realmente me conhecia em essência, apenas projetavam em mim a imagem que achavam que eu deveria ter.
                         Descobri o mundo dos cadeirantes que ninguém cumprimenta ou olha, vi como são solidários, como sempre falam um com os outros, senti falta deles quando voltei a andar e passaram a me ignorar, como se os houvesse traído.
                          Voltei o foco para dentro e percebi que não era melhor do que ninguém. Foi doloroso rever quantas vezes projetei em um homem amado uma frustração que era minha; ou em um filho, um medo ou esperança que me pertencia. Até hoje luto comigo mesma para impedir que esse véu volte a turvar minha visão, quero enxergar meus filhos, não eu mesma, sempre que olhar para eles.
                            Acho que esse processo não atinge só a mim, infelizmente. Penso que, na maior parte do tempo, mesmo quando acreditamos estar socializando, nos apaixonando, ou observando o mundo, todos estamos lidando com nossas projeções, em uma imensa viagem do ego. Ao não enxergar o outro sinto que estamos cada vez mais egoístas, menos solidários e tolerantes, com uma capacidade a cada dia mais reduzida de empatia com o sofrimento alheio.
                           Sei que esse texto talvez não agrade tanto quanto os anteriores. Não tem fadinhas dançando ao pôr-do-sol, está cheio de interrogações que não pude responder. Como diz uma tia muito amada, “vão desculpando”. Escrever também é dividir inquietações e dúvidas.
                             Acredito que a cada encarnação trazemos desafios pessoais e intransferíveis, as respostas, portanto, também o são. Posso compartilhar apenas o que faço para combater minhas projeções: olho muito o outro, sempre. Procuro ouvir com cuidado o que diz e tento fazer a ele apenas o que gostaria que me fizesse. Vem dando certo... Para mim.
                           Talvez a melhor resposta sobre o assunto ainda esteja com o final da carta do tarô do Osho:
“...Com a ajuda do seu entusiasmo, o sonho começa a parecer realidade. Quando o entusiasmo é demasiado, então você está intoxicado, não está na posse dos seus sentidos. Nessa condição, o que quer que você enxergue será apenas uma projeção sua. E existem tantos mundos quanto mentes, porque cada mente vive no seu próprio mundo”.

 
Das Crônicas de Uma Vida
E Sentimentos de Beatriz Ramos
Jornalista & Cronista
Brasília – DF-