quarta-feira, 4 de março de 2015

As histórias vividas do
escritor Antônio Figueiredo
na Sala de Protheus:

Estica e Puxa...
Ouvi dizer que o tempo não volta atrás
Já tentei de tudo, mas no fundo sei que não sou capaz É tão difícil aceitar esta visão
Estou tão cego não consigo achar a solução
Acordar do sonho Olhar pro futuro
Acordar e esticar a corda
Não me diga que não está na hora
Não sei se fico ou se vou embora
Só quero um rumo para esta história



4 Taste – Esticar a Corda!

                              As pessoas que habitualmente me leem já estão acostumadas com um trecho de música sempre abrindo a crônica e isso só vem comprovar que os poetas e bardos sempre foram e continuam sendo cronistas pontuais do que vai pela boca do povo. Em especial quando o tempo é de “exceção ou turbulência política” as letras de música tornam-se “mensagens cifradas” da insatisfação ou dos “propósitos resistentes”, que permeia o sentimento popular.
                            Os contemporâneos do Movimento de 1964 hão de se lembrar de dezenas de músicas Chico Buarque, Gonzaguinha, Edu Lobo, Vinicius de Morais, Carlos Lira, João do Vale, Sérgio Ricardo, Caetano Veloso, Gilberto Gil e muitos outros autores falando de “privação”, “resistência” e até “contrarrevolução” impessoalmente contra um conhecido “inimigo imaginário”.
                       
                               Bem, naqueles tempos o “confronto ideológico” era indireto e sub-reptício. Como se diz na Bahia, desde sempre, que duro com duro não faz bom muro e “naqueles tempos”, no Brasil todo, quem tem “cu” tem medo. Estamos com Figueiredo, o do “prendo e arrebento”, para quem se interpusesse ao Processo de Redemocratização e com isso paradoxalmente constatarmos, que até a Democracia pode ser imposta por “ato de força”.
                               Fruto de exercício permanente e da luta de muitos a Democracia no Brasil de hoje é sinônimo de “elasticidade”, tanta é a sua capacidade de “esticar e puxar” e assim dentro dela abrigar pontos de vista e opiniões tão polares. Extremismos à direita e à Esquerda tem conceitos admitidos e abrangidos nela. Afinal a Democracia implica em “respeito a todos”, inclusive às “minorias barulhentas”. Conceitos sim, mas atos não.
                               Entretanto, o “estica e puxa” que tanto acrescentou em “tolerância” ao nosso desenvolvimento democrático, livrando-nos de “tensões desnecessárias”, que no passado tantos golpes políticos aos “donos da cidadania” ensejaram, hoje toma características de “elástico frouxo” e com isso a noção exata da “medida do democraticamente permitido”.
                             O Chuí dista da fronteira de Roraima com a Guiana, aproximados, 4.400 km e Recife do Extremo Oeste Amazônico, outros, 4.300 km.
                                Quanta “injustiça e disparidade social” com milhares de diferentes graus de carência e emergência cabem dentro deste “continente” chamado Brasil, mas que em sua grande maioria não encontra reconhecimento e retumbância nacional e por não formar “eco eleitoral” está omissamente deixada à “Bolsa Família pagará”.
                                Essas realidades são conhecidas desde que o Marechal Rondon esquadrinhou a Amazônia e durante os Governos Militares o Projeto Rondon encheu de universitários o Norte e Nordeste, em primeiro lugar para que eles conhecessem as diferentes “realidades regionais”, mas também para que o Governo planejasse suas “ações sociais”.
                             Era o tempo do Milagre Brasileiro, que começou em 1970 e podíamos nos permitir “esses luxos” de fazer “obras de interiorização” do porte da Perimetral Norte, Transamazônica, Tucuruí, Sobradinho e muitas outras. Já era um “princípio” no trato das diferenças, mas que teve “morte prematura” já em 1974. Não tínhamos petróleo e nem “legalidade democrática” e o “milagre” virou charlatanismo e com isso patinamos por 20 anos até o Plano Real.
                             Jamais considerei qualquer realização de qualquer Governo uma vitória pessoal de qualquer político. Eles são eleitos para essa finalidade e não estão mais do que cumprindo a obrigação do “mandato popular” outorgado, segundo suas promessas de “realização das aspirações” de todos os cidadãos.
                              No caso do Plano Real, foi a lição de casa “bem feita” pelos que já haviam fracassado antes ao entender que a Lei da Oferta e da Procura é a única que “regula” o Mercado. A sociedade apoiou porque se cansou de medidas populistas e casuísticas de ajuste e “nuncadantesnahistóriadestepais” o brasileiro viu a sua moeda tão respeitada e essa conquista credita-se à sociedade como uma “nação”.
                               De maneira idêntica tem respondido a sociedade ao “crescente esforço fiscal” nestes últimos 30 anos, que, entretanto em quase nada tem sido útil para a “inclusão” dos “eternos excluídos”, pois que os Governos irresponsavelmente além de “gastar” esse “suor extra”, ainda têm gastado crescentemente pelo aumento da Dívida Pública.
                            E é esse “saco sem fundo”, que vem testando não apenas a “confiança nas instituições” por parte da sociedade, mas principalmente a nossa paciente capacidade contributiva, mormente pela constatação de que nestes últimos anos essa capacidade destina-se alimentar uma “cadeia de malversação” do “dinheiro público” honestamente ganho pelo contribuinte.
                              Aquilo que foi uma tentativa frustrada nos anos 60 de organização de movimentos sociais mantidos pelo dinheiro público, (Ligas Camponesas e Grupos dos Onze) o que sempre foi uma prática dos “partidos comunistas” na montagem de um “exército partidário”, (os bate-paus), consolidou-se nos Governos do PT de 2003 até os dias de hoje. E aí está um “ex-presidente” chamando às ruas o “exército do Stédile” para a manutenção de um “projeto de poder”, que evidentemente se desfaz em nacos apodrecidos de carne corrompida.
                              O que o PT e sua “Nomenklatura” talvez não tenham se dado conta, é que a mesma barreira, a qual impede que o Brasil marche celeremente para a sua integração social justa e igualitária é a mesma que não permitirá a confirmação de um “poder totalitário” dominante. Seu imenso território, habitado por uma imensa e diversificada realidade social e econômica.
                             O “Bolsa Família”, ainda que reúna um “exército de desassistidos”, não é um “movimento social” organizado, que pese e influencie rumos. É tão simplesmente um “exército irregular” disperso e sem líderes. Faltou “inteligência estratégica” ao PT, que optou por “movimentos sociais” agitadores para pressionar os “grandes e mais desenvolvidos centros”, exclusivamente.
                              Basta analisar o peso da atuação e influência do MST no Norte e Nordeste e do MTST fora do “eixo São Paulo x Rio”, como também o da “liderança partidária”, que exerce o PT nessas regiões.
                              Entretanto, este não é apenas o grande desafio de organização política que enfrenta um “esquema de Poder”, mas a própria organização política, partidária e institucional, que enfrenta o Brasil e a razão desses “estica e puxa”, que enfrentamos desde a Independência. O desafio segue sendo a “construção” de uma Nação pra valer.
                             O que crescentemente vem mudando o Brasil é o reconhecimento dessa multiplicidade de caracteres, com “classes específicas” de Nordestinos, Nortistas e os do Centro Oeste reconhecendo “identidades equivalentes” no Sul e o Sudeste, que enfrentam iguais problemas. O Sul-Sudeste vem deixando progressivamente de ser o “explorador” de regiões menos favorecidas. Todas as regiões têm sido “exploradas” nas suas expectativas, igualmente.
                                   Já houve tempo em que o PT era a “salvação do Brasil”. Bastou-lhe 12 anos de poder para instalar-se o “Brasil do salve-se, quem puder”...
Evoluímos...
                                  A questão hoje é saber se ainda há espaço para esticar, ou se já é hora de puxar...
                               A Democracia é elástica, até o ponto em que se rompe. Daí prá frente, ninguém quer pagar para ver.

 
Entendimentos & Compreensões
Antônio Figueiredo –
Escritor & Articulista –
São Paulo – SP