terça-feira, 24 de fevereiro de 2015


Quatro Dias Comigo!
 “Nunca me senti só.
Gosto de ficar comigo mesmo.
Sou a melhor forma de entretimento
que posso encontrar...!”
Charles Bukowski

                               Consegui! Passei quatro dias desconectada das redes sociais, entrando, apenas em horas previamente determinadas, para checar se os filhos viajantes haviam chegado a salvo a seus destinos.
                              Em uma dessas entradas encontrei um pedido de postagem do meu trabalho – pois é, trabalho com redes sociais – mas não considero o projeto inutilizado, já que entrei rapidinho, fiz o que me foi pedido, e saí do ar antes de poder dizer “Mangueira”!
                              Eu estava sentindo falta dessa pausa há tempos; fui uma criança da década de 1960, criada à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. As palavras vinham dos livros, poucas casas tinham televisão, éramos obrigados a imaginar o que não podíamos ver.
                             Para a minha cabeça de menina tudo tinha um sentido oculto, misterioso. O sol que batia nas águas, no final da tarde, eram as fadinhas dançando depois de um dia de trabalho; a abertura de uma rocha no alto de um morro, a entrada para a Gruta dos Três Martelos; passei horas a fio procurando a entrada para o Reino das Fadas entre a vegetação das margens do que foi o meu parquinho na primeira infância.
                          Hoje, quando a terceira idade é um trem desgovernado vindo em minha direção – como diria minha filha - , não tenho mais espaço para imaginar muita coisa, a realidade se impõe de maneira muitas vezes chocante em minha rotina.
                             É tanta informação, a maior parte delas arrasadora, que chega antes mesmo do café da manhã, que minha cabeça vive cheia de palavras que não são minhas. Na hora em que sento para escrever não me encontro, em meio a tantas citações e palavras de ordem.
Resolvi usar os feriados para dar um tempo e ver se ainda conseguia existir, fora das redes.
                                 O primeiro dia foi duro, a vida virtual está tão entranhada em mim que a sensação de tédio, de não saber o que fazer com meu tempo, quase deu cabo do projeto. Acima de tudo senti uma sensação terrível, como se o mundo estivesse vivendo sem mim, como se as crises estivessem acontecendo sem que eu estivesse lá para resolvê-las. Hummm... anotação mental: estar presa às redes faz um mal danado ao meu ego. Não sou onipotente, o mundo sempre se resolveu sem a minha humilde contribuição.
                              No domingo eu já estava melhor, hoje estou ótima. Não tenho a menor ideia do que aconteceu no Brasil e no mundo desde sexta (13), mas em compensação li dois livros ótimos, meditei, dormi até acordar, brinquei com meus cachorros, vi a chuva cair no jardim e não tirei o carro da garagem.
                              Como nada de novo anda acontecendo ultimamente, tenho certeza que, amanhã, quando abrir os jornais, não demorarei muito para saber dos últimos roubos rebatizados de malfeitos; o país continuará tentando sobreviver a seus governantes e o mundo, tentando ignorar as atrocidades cometidas pelo EI, até que ele bata à sua porta.
                            Tudo isso acontecerá amanhã, mas hoje, apenas hoje, minha cabeça está livre, cheia apenas com meus pensamentos e sonhos, exatamente como quando eu era menina; quando não havia internet; quando as fadinhas dançavam ao pôr-do-sol nas águas da lagoa; quando não se degolavam crianças ou queimavam pilotos ao vivo; quando era possível ser feliz...
 
Das Crônicas de Uma Vida
E Sentimentos de Beatriz Ramos
Jornalista & Cronista
Brasília – DF