segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

#CronicasDeVida:
 
Última Fronteira...
"... A nossa maior glória não reside no fato de nunca cairmos, mas sim em levantarmo-nos sempre depois de cada queda...!"
O. Goldsmith

                             "Foi por pouco” é o mantra que, vez por outra, me flagro recitando desde minha quase morte, ou renascimento, como prefiro chamar o episódio do dia 13 de abril que quase me matou.
                                     Foi em um domingo de sol, ironicamente o dia dedicado ao meu signo, que cheguei a casa no fim da tarde para, lá pelas 19 h, sentir a dor mais forte de toda a minha vida, que desaguou em uma hérnia estrangulada e em uma hemorragia interna que durou treze horas.

                              Treze horas de dor aguda, ininterrupta, que nenhum analgésico conseguia afastar e que, em seu decorrer, me despojaram de tudo: dignidade, pudor, identidade com os seres humanos que me rodeavam, como se, a certa altura, não conseguissem mais me alcançar.
                                      Concentrada em meu corpo, focada em minha dor, eu tentava entender o que estava acontecendo enquanto ouvia opiniões desencontradas, ditas por vozes cada vez mais distantes. De alguns diagnósticos me lembro bem (estômago perfurado, apendicite...), outros se perderam na bruma que me rasgava a barriga.
                             E no entra e sai de palpites, me achei apenas no olhar do meu filho mais novo, que ficou ao meu lado a noite inteira, acompanhando meu sofrimento com olhos cada vez maiores no rosto sério. E foi neles que li que estava morrendo, que não ia sobreviver se demorassem muito mais a descobrir o que eu tinha.
                              A percepção da morte fez parar a dor por alguns momentos, o choque deve ter potencializado os analgésicos, sei lá. Depois veio a raiva – não é possível que não percebam que estou morrendo, que insistam em me observar enquanto minha capacidade de resistência chega ao fim – para, em seguida, ser substituída pela urgência de morrer direito.
                                     Saber que a morte era uma possibilidade tão real quanto sobreviver, me fez pensar se eu estava pronta para ela, se tinha assuntos pendentes com alguém, coisas que gostaria de ter dito ou feito, arrependimentos. E naquela madrugada de abril, na emergência do hospital, fui perdoando ofensas, apagando mágoas, rindo com as lembranças de alguns momentos, pedindo desculpas a pessoas de quem não me lembrava há décadas. Fechei a minha conta, enquanto meu corpo tremia de dor a ponto de sacudir a cama de ferro.
                                   E foi de conta fechada que o cirurgião de plantão veio me encontrar, e avisou que, na impossibilidade de descobrir com certeza o que eu tinha, ia me operar no primeiro horário. De alma lavada, sabendo estar pronta para tudo, fui operada na manhã do dia 14, para acordar quatro horas depois e saber que, se demorassem mais duas horas a interferir, teria morrido.
                                     É difícil voltar, ninguém chega à última fronteira impunemente. Nada é como antes, embora tudo seja mais ou menos igual. Uma parte minha morreu em abril, coisas que eram importantes para quem fui, hoje não significam nada. Saí do processo com a certeza de ter ganhado uma prorrogação, e que preciso cuidar bem dela.
                                           Não sei o que ou quem estabelece quem vai e quem tem permissão para ficar mais um pouco por aqui, quem sabe as Parcas? Mas acredito em usar bem o tempo que me foi dado. Ainda não atinei em quê, não tem problema. Vou acabar descobrindo, tenho todo o tempo de minha nova vida para isso.
...
 
Das Crônicas de Uma Vida
E Sentimentos de Beatriz Ramos
Jornalista & Cronista
Brasília – DF