quarta-feira, 10 de dezembro de 2014



O QUE SERÁ? QUE SERÁ? ...

 


“Não acredite só na “fotografia do momento”, que os seus olhos captam. É só um instantâneo. Creia mais no “longa metragem” que sua alma vê. É o futuro...”

                                                            O Autor

 “O que será que será? Que andam suspirando pelas alcovas, que andam sussurrando em versos e trovas, que andam combinando no breu das tocas, que anda nas cabeças e anda nas bocas. Que andam acendendo velas nos becos, que estão falando alto pelos botecos e gritam nos mercados que com certeza está na natureza...”

Chico Buarque

 

A cada dia que passa me surpreendo mais e mais com a capacidade profética do “muso das Esquerdas” em, ainda que mirando a “política dos anos 70” nas suas músicas, falar com propriedade e justeza do nosso tempo e em especial em “antever” o comportamento político da “Esquerda Contemporânea”.

Chico Buarque na história futura, quase que com certeza, será reconhecido como o “João Evangelista” do “Apocalipse das Esquerdas”. Ou melhor, do “jeito esquerdo brasileiro” de fazer política, que o PT a despeito das “intenções iniciais” acabou por se render e aprimorar. Somos especialistas em piorar o ruim, até torna-lo péssimo.

Uma coisa que os velhos mais fazem é pensar, principalmente sobre o passado, porque pensar sobre o futuro costuma não render muitas perspectivas de futuro. A “expectativa de vida média” do brasileiro aumentou em 4 meses e agora podemos gozar mais esse tempo além dos 74 anos. Isso para mim representa mais 5 anos... Não quero pensar nisso!

Mas vamos lá. Dias atrás me questionava, porque a “filosofia marxista” durou pouco mais de 120 anos, (1867 pela publicação de O Capital, até a Queda do Muro de Berlim em 1989) considerado o “tempo de vida” do Comunismo, assim como todos os “filósofos contemporâneos” de todos os tempos também passaram, enquanto a Filosofia Clássica Grega ainda segue sendo uma referência até os dias atuais?

O propósito aqui não é uma “discussão filosófica comparativa” na qual gastaríamos muitos maços de cigarros e latas de cerveja, era assim no meu tempo, porque hoje se “filosofa baseada e energeticamente”, isso sem contar os baldes de “saliva voadora” dos contendores, principalmente depois que a cerveja, (ou a da “lata”, mexendo com os cariocas dos anos 70), começasse a “filosofar”.


Não quero me centrar exclusivamente naquilo que representa o “questionamento permanente” do ser humano. De onde e para onde? Essa não é a real questão, que hoje em dia foi tornada irrelevante, mas sim a busca de razões para o “durante” por aqui e ainda mais se o aqui é no Brasil.

O que precisamos fazer para tornar nosso insuportável, suportável?

Somos seres gregários ancestralmente e por isso exigimos “cavernas seguras”. A “certeza de um futuro” é a razão maior das nossas incertezas e por aqui no Brasil até hoje os “mamutes” e “tigres de sabre” ainda perambulam tirando a nossa paz. Em especial os viventes no “Jurassic Park” de Brasília, que fazem com que viver nesta “selva brasiliensis” ainda sejam muito perigosos.

Os tais “pré-históricos” sempre arranjaram novas artimanhas de caça para reavivar os nossos medos e é assim que sempre nos mantiveram assustados e indefesos, mas agora o nosso “chega” chegou... E com uma força inusitada.

A última delas é arrogar-se do direito de usar o nosso dinheiro de impostos para gastá-lo da maneira, que bem entendem e sem nos dar qualquer satisfação. Ou seja, querem mandar a Lei de Responsabilidade Fiscal para as “cucuias”, ou “prá casa do K7”. Isso na prática significa que aquele “cercadinho de proteção”, que levamos quase 100 anos construindo com tanto esforço e paciência para aumentar nosso “conforto e segurança na caverna” está em vias de ser demolido.


A Presidente e sua “matilha amestrada” não estão nos pedindo um “waiver”, (perdão), que é uma praxe entre instituições financeiras multilaterais pelo descumprimento de metas e exigências contratuais ou por “políticos parlamentaristas”, quando seu governo não emplaca. Com arrogância nos exigem a mudança da regra, pois gastaram além da conta e da responsabilidade e agora nos “enfiam goela abaixo” a “conta”.

Agiram como “dondocas perdulárias” dos “tempos da ditadura”, aquelas “ascendentes” do “Milagre Brasileiro” dos anos 70 gastadoras ilimitadas dos nossos cartões de crédito. Por óbvio desta classificação excluo a “mulher atual” responsável, nossas aliadas na austeridade econômica e parceiras no “tudo” da vida moderna e grandes ativistas das redes sociais. A “vida na caverna” mudou muito.

Pois é!!! ... Onde está aquela Canaã prometida onde correria leite e mel para todos? O que será? Que será? ... A única promessa cumprida foi a da “Bolsa Maná” para o “pobre útil”, porque o “leite e mel” só correm para eles e é um privilégio de quem é o “porta voz oficial” do “povo”.

Sempre ouvi a “piada” sobre as três maiores mentiras do mundo: a) Dinheiro não traz a felicidade; b) Pago amanhã e c) Ponho só a “cabecinha”. Acrescento mais uma... Um governo de justiça social, “que não rouba e não deixa roubar”, (lembram-se do Zé Dirceu, aquele que se “subiu ninguém sabe, ninguém viu”) promovido pela “Esquerda Brasileira”. Aquela mesmo que o Chico tecia loas e versos de “porvir risonho”.

Aqui retorno às “minhas considerações filosóficas”. É de Chico Buarque outra “‘pérola profética”: “Deus é um cara gozador, adora brincadeira, pois prá me botar no mundo, tinha o mundo inteiro, mas achou muito engraçado e me bota cabreiro. Na “barriga da miséria” nasci... brasileiro”. Será que ele conseguiu nas suas “visões parisienses” ver as ruas e praças das metrópoles brasileiras dominadas pelo “crack”?

Pergunto mais. Será que nas suas “visões apocalípticas” anteviu “organizações parassociais” penduradas nas “tetas públicas” afrontando a lei, fossem eles “sem terras” ou “sem tetos”, protestando contra a “situação”, mas sem culpar a “Situação”?

Ainda mais. Que o “sindicalismo” fosse a forma de Governo e de fazer e estruturar a política e que de seus “quadros qualificados” saíssem tantas “sumidades” ocupando os Fundos de Pensões, Presidências de Estatais e “pirâmide abaixo” se contassem 125 mil “leais e fieis companheiros” compondo o “quadro de Estado”.

Nem Marx nos seus mais “altos delírios” conseguiu projetar uma “República Socialista”, como a construída sob os “panos democráticos” no Brasil.

Sem qualquer licença, poética ou de direito autoral, vou me utilizar dos mesmos versos de Chico: “Deus é um cara gozador, adora brincadeira, pois prá me botar no mundo, tinha o mundo inteiro, mas achou muito engraçado e me bota cabreiro...”, que passássemos 16 anos sob a Ditadura Militar, (1964-1980, não conto o Governo Figueiredo, pois já era um “governo de arrumação de mudança”?) e agora nos tenha condenado a 16 anos de Governo do PT. Diz “que Deus dará, o nega...”.

Acho isso muito mais do que uma “coincidência histórica”, isto é parte do “aprendizado político” e do exercício da Democracia. É por comparação, que vamos desentortando as curvas e desvios dos “caminhos do durante”.

A construção de uma Nação sempre se faz por tentativa e erro, pois esta é a única forma que a humanidade aprende, por não ser muito boa em “padrões históricos” e seus ciclos. Ora avança e ora regride, mas ainda assim dando “passos”. Um passo nem sempre é um “adiante”, mas sempre é um novo rumo no caminho.


Sou “observador sobrevivente” das ruas dos “anos de chumbo” e com exceção da “Marcha dos 100 mil” e das “Diretas Já” não me recordo de tanta movimentação exigindo direitos por parte da “população”. Excluo, nos tempos de agora, as “manifestações”, com carteira profissional e direitos trabalhistas, militantes que não representam o “povo”, mas o “poder fantasiado de povo”.

São os “Clóvis oficiais”, (clowns), fazendo barulho batendo suas “bexigas de porco” no chão. (Saudades daqueles carnavais cariocas...).

O que devemos é celebrar esse despertar inédito da cidadania, talvez a “bossa nova” mais inédita, auspiciosa e representativa de toda a nossa história como uma nação e hoje repercutida em todas as regiões do Brasil, a despeito de toda desigualdade, que ainda temos. E ela é uníssona nas ruas de todas as Capitais Brasileiras e “na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapé” das redes sociais...

Não é apenas um “momento histórico”, é a “própria História” se escrevendo...

Sou um “velho” movido à música e poesia: “O que será? Que será?...”

O que nos atrevermos, SERÁ!

 

 

Antônio Figueiredo

Escritor e Articulista

São Paulo – SP