segunda-feira, 8 de setembro de 2014


Histórias da Vida Real:

 
A Descoberta de Lorena!
- 1ª Parte -
“A flor respondeu – Bobo”! Acha que abro minhas
pétalas para que vejam? Não faço isso para os
outros, é para mim mesma, porque gosto. Minha
alegria consiste em ser e desabrochar...!”
 by Arthur Shopenhauer, por Irvin Yalon cap.XIX, pp 151.

                                          Durante toda a vida, nosso ambiente interpessoal circundante – colegas, amigos, professores, bem como a família, principalmente, - tem uma enorme influência sobre o tipo de individuo que nos tornamos. Nossa autoimagem é formada, em grande medida, com base nas avaliações refletidas que percebemos nos olhos de figuras importantes em nossas vidas. (Eis aqui a teoria do Inconsciente Coletivo de Jung). Além do mais, a maioria absoluta dos indivíduos que buscam algum tipo de ajuda, quando conseguem identificar, tem problemas fundamentais de relacionamentos; de modo geral, as pessoas caem em desespero por causa de sua incapacidade de construir e manter relacionamentos interpessoais duradouros e gratificantes. A grande maioria acumula “quantidade” tendo enorme dificuldade em diferençar verdadeiras e profundas amizades, e meros colegas e pessoas que se relacionam no seu dia a dia. No tocante a relações mais profundas, como amar, a dificuldade aumenta. Nesta situação esta Lorena.
                                      Se fosse um diagnóstico, ela seria maníaca depressiva, com uma linha tênue entre a obsessão e compulsividade. Apenas separada por momentos, buscados, de euforia. Como não sou terapeuta, apenas copio sintomas, que possam ser diagnosticados, por profissionais.
                                      Assim, os finais de semana, ou algumas noites de Lorena, são “destinados” á festas. Ou seja, sair com “amigos”todos discutíveis no tocante a amizade por ela – com um homem com que, geralmente sai, e entrega-se por completo, mesmo sem saber o porquê está fazendo. E para dormir necessita de Remédios (soníferos).
Mas quem é Lorena? O que a deixa apenas “passar” por esta vida e não viver, tendo apenas 29 anos? O que lhe marcou tanto?
                                       Lorena vem de uma família média, tanto financeira quanto estruturalmente. Não foi originada em grande aculturamento. E seu estudo adquirido é médio. Uma faculdade não concluída. Um emprego de sobrevivência em um shopping. Mora com duas amigas em uma cidade distante de sua família. Tem contato com a família. Diz amar a família. Não ter problemas. Mas aqui começam todos os problemas.
                                      A admissão de culpa faz menor a pena. As palavras do pensador, não são inteligíveis para um depressivo. Em muitos casos para os ditos “normais”. Neste caso, específico, extrapola.
                                      Lorena é uma jovem mulher, muito bonita. Para os padrões normais. Olhos grandes, amendoados. Um sorriso gigantesco o que lhe aumenta ainda mais a beleza física. Maças do rosto bem delineadas.
Cabelos entre longos e médios castanhos claros. Pele clara. Enfim, a definição de uma mulher bonita. Mas o que chama realmente a atenção é seu olhar, que mais parece uma tela plasmada de cinquenta polegadas, e seu sorriso que resplandece qualquer alma triste.
Mas o que faz uma mulher tão bela, sorridente, ser deprimida.
 
                                            Primeiramente esta no olhar. Os grandes e perfeitos olhos, tem uma espécie de “nevoa”, uma “cortina” bem suave, que esconde majestosamente o principal de Lorena. Sua beleza e luminosidade interior. Mas porque esconde?
Lorena sabe, mas tranca em seu “quartinho dos fundos”. Com trancas, cadeados, e um monte de entulhos, do tipo, “para ninguém encontrar a entrada”. Nem ela mesma.
                                              Lorena teve um amor. Desde jovem, adolescente. Daqueles amores que as famílias do interior, classificam: Foram feitos um para o outro. Foram feitos para casar.
Esta mensagem, colocada, em forma de transferências de longo prazo, utilizando a psicanálise, acabam se firmando na mente e se tornando verdades.
Assim Lorena entregou-se completamente ao seu amado. De corpo inteiro. Alma mente e coração.
                                             O “romance” durou o tempo determinado que o dito “macho”, tinha discernimento para isso. Depois de alguns anos o grande amor de Lorena, simplesmente, termina.
O dela? Não. O dele. Ele parte para suas aventuras e seu destino.
                                               Lorena fica com o que julgava ser o amor de sua vida. Sozinha. E daqui para o solitário, é apenas um pequeno trecho. O não entendimento, a não compreensão do que lhe aconteceu transcende sua racionalidade, e entrega-se as emoções.
O choro torna-se constante. As tristezas são alimentadas quase que como rotina, como forma de autoflagelo. E a piedade e si mesma transforma-se no grande ato masoquista. Ou seja, quanto mais sofrer mais tenta “visualizar” o amor, lotado ainda em seu coração, mas distante. Entre esta “concepção” de ter sido amada, e ainda, amar muitíssimo, encontra-se o não entendimento do que realmente esta acontecendo. As amigas tentam consolá-la, a família, julgando que isso é normal e acontece, “tenta” consolar a filha.
Mas, mais preocupada com a idade da filha e seu não casamento, e um “ficar pra titia”, dentre as tantas hipocrisias que os grupos sociais ainda mantêm, mesmo que primitivos, que no fundo esquecem-se do ser Lorena. Assim a depressão é o destino mais certo de Lorena. Ela vem em profundidade. Lorena acaba concordando em procurar ajuda. “Cai” em um psiquiatra que somente se preocupa em “recuperar” seus químicos cerebrais e a “lota” de “remédios”.
Em principio, e na falta de um aculturamento, tanto do terapeuta quanto da paciente, lá vai Lorena, tomar todos os “remedinhos” que o doutor mandou.
 
                                         Assim, Lorena, cria uma máscara, entre os “químicos” que lhe amortecem os pensamentos tristes. E consegue “melhoras” mesmo que momentâneas.
Mas como não tem discernimento do que esta acontecendo realmente, afinal espera que estes “remedinhos” resolvam seu “desamor”. Quem sabe até consigam trazer de volta seu amado? Que se entrega aos dias. Todos eles.
                                       O tempo passa. E depressa. Logo Lorena, encontra um trabalho, conhece novas pessoas. Vai morar com amigas.
Tudo parece estar melhorando. Lorena esta conquistando sua independência. Começam festas nos finais de semana. Algumas bebedeiras, sem exageros. Acaba adquirindo o gosto pela bebida. Não consulta mais o terapeuta.
Afinal alguns “remedinhos para dormir” conseguem-se sem receita. Eles ajudam a dormir.
Assim, se um dia não se esta bem se aumenta as doses, geralmente, líquidos, psicologicamente fazem efeitos mais rápidos.
                                            Nos finais de semana, depois de algumas bebidinhas, de euforia, precisa aumentar a dose, mas tudo bem.
Assim não fica longe da “alegria” – disfarçada de euforia, uma espécie de fuga de si mesma.
                                             Um dia conhece um homem. Entrega-se completamente e mantém um relacionamento, de certa forma, duradouro. Ao menos na visão dela.
O “namorado” é de outra cidade próxima. Vem quando quer. Quando necessita de sexo. Leva-a para festas. Fica com ela, no dia seguinte, consumado o ato... Fica um até logo. E até a próxima semana. Lorena julgando-se amada. Aceita toda a situação. O “namorado” foge dos padrões do que se poderia chamar de alguém à altura de estar com alguém do tipo de Lorena. Mas Ela ainda não consegue discernir sobre isso. É um ser simples.  Inculto, sem nenhum estudo, no máximo o ginasial o que lhe permitiu um emprego comum. De sobrevivência. E age como tal.
 
                                              Um ser que poderíamos chamar de comum dos comuns. Cafajeste por principio mantêm Lorena em uma cidade e outra em outra cidade. Considera-se superior por conseguir fazer isso. Tudo o que leva a Lorena é sexo pelo sexo. Automático, mecânico. Pela descrição de Lorena, que quase nunca chega ao orgasmo, ou não se lembra de tal, pela bebida ou excesso de “remedinhos”, não existe um amor profundo. Não existe a dita “química” de uma relação de substância entre duas pessoas.
Mas porque Lorena permite isso. Aqui está uma das partes preferidas da Psicanálise, a Transferência.
Sim, como não conseguiu lidar com seu “passado”, Lorena simplesmente transferiu para o primeiro que apareceu, o que julgava ser de seu antigo amor.
Assim, de certa forma, é como se Lorena ainda mantivesse o que somente está em seu “quartinho dos fundos”.
Sai para as festas, com seu “namorado”, assim pode se igualar a todas as suas amigas, e ser uma “normal”.
                                       A mentira para si mesma é o primeiro dos diagnósticos encontrados nos depressivos.  Tão normal nos humanos, tentem imaginar em um depressivo. Torna-se verdade. A mais verdadeira possível. A busca de máscaras que escondam real e profundamente o que esta em seu intimo, por algo que se mostra para todos. Assim estes “todos”, dentre quais até os amigos ditos mais “chegados”, lhe proporcionam a certeza de que “aquilo” não é mentira, e sim a sua vida.
Não consegue discernir mais entre os demais homens que a admiram, esta diferençação. E simplesmente os considera como “iguais” ao que ela “julga ter”.
Este processo todo de mascaramento de nossos sentimentos, ou de como lidar com nossos problemas esta enraizado em nossa educação.
Desde a familiar, escolar até a acadêmica. Juntada as nossas relações, de amizade, que tem as mesmas origens, transformamos tudo em um caldeirão, incandescente, que apenas “ferve”, e poderá logo estar pronto para ser “servido”, porem sem “gosto”.
 ...Quanto a você... Controle a Ansiedade...
Continua...

  

As palavras e a comunicação na terapia.
Estudo de caso, baseado em informações de terapias.
Base de discussão Os Desafios da Terapia.
A partir da Obra de Irvin Yalon.
Os nomes foram alterados para preservar a privacidade.
O caso foi transformado em crônica,
discutida, para facilitar discussões.
Bibliografia pesquisada, além do caso apresentado.
Os Desafios das Terapias e suas reflexões sobre pacientes e terapeutas.
Irvin D. Yalon, Ediouro – Titulo original - The gift of therapy – 2002.
Pesquisa, Elaboração, apresentação e discussão.
Jornalista e Prof. de Comunicação.