quinta-feira, 18 de setembro de 2014

A visão Profunda
do escritor Antônio Figueiredo:

 
30 Anos de Democracia!

 
“...Marx formulou a “filosofia marxista”.
Lula deu-lhe um “choque de capitalismo”.
Marx morreu na miséria.Lula tornou-se um “camarada milionário”.Socialismo de resultados..1”.

O Autor

                                   No próximo ano de 2015 temos uma enorme conquista a celebrar. Pela primeira vez na história da República gozamos de verdadeiras “garantias constitucionais democráticas” no exercício da política. Talvez não sejam pelas quais muitos lutaram e morreram para conseguir, mas são a que nós brasileiros merecemos pelo esforço, que fizemos em tê-las.
                                  Comecei a escrever esta crônica ainda sob o impacto das denúncias de Paulo Roberto Costa, ex-Diretor de Abastecimento da Petrobrás e fui levado a questionar nosso conceito de “República Democrática” e seus valores em relação a um passado histórico recente dos últimos 60 anos e evidentemente vamos falar de “corrupção” e da “interface Poder e Justiça”.
                                   Além de gozar de excelente memória, sempre me socorri da leitura histórica e da minha experiência pessoal para entender e interpretar os diferentes tempos. A memória por vezes falha, mas a História e as experiências vividas são registros, que não se apagam e evidentemente as memórias são crivadas pela consciência política atual.
                                    Vamos às memórias e à História: Nos anos 50/60, adotando-se a técnica moderna de “nuvem”, os maiores questionamentos políticos aconteciam com as palavras: escassez de alimentos, fila de alimentos, cota de importação, crise cambial, salário mínimo desvalorizado, falta d’água, transporte e postos de saúde na periferia, nepotismo e favorecimento de aliados.
                                    Os casos de corrupção no Congresso noticiados eram praticamente nulos e no Executivo, pontuais. Lembro-me das grilagens de terra de Moyses Lupion (PR) e Adhemar de Barros e sua famosa renovação da frota policial com “Chevrolets”. Eram mais comuns os casos de “favorecimento”, fosse às políticas do café ou à “imprensa amiga”. Havia-o também nas “cotas de importação” de trigo, outros alimentos e insumos com uma atenção especial aos “empresários alinhados”. A questão era se os empresários se “alinhavavam” ao Governo ou vice versa.
                                     Outro fator crítico sempre foi a “política de câmbio”, visto que o Brasil sempre andou “de joelhos” perante o Sistema Financeiro Internacional desde o Reino Unido. Apesar do “forte controle” cambial exercido pela SUMOC, (Superintendência da Moeda e do Crédito – DL 7293/1945), criada por exigência do FMI e Banco Mundial e do monopólio do Banco do Brasil quanto às “divisas estrangeiras” muitas foram a denúncias de favorecimento aos “bancos aliados”.
                                A palavra “corrupção” não fazia parte dessa “nuvem”, visto que as “práticas de governabilidade” entendiam inclusos todos esses favores do Poder Público em troca de “apoio”, fosse da oligarquia agrária ou da econômica. Somente mais tarde apareceram os chamados “casos de corrupção” como os classificamos hoje, (malversação de recursos públicos) “abafados” na construção de Brasília e cometidos por Israel Pinheiro, que foi cassado pela Revolução especificamente por isso.
                                  O sistema político brasileiro nunca aceitou a “premissa democrática”, de que só é saudável o regime que admite a importância de uma Oposição legislativa livre e respeitada e um judiciário com autoridade e independência. Esta é uma constatação permanente desde os tempos do Reino Unido, quando falavam mais alto as Cortes em Lisboa, passando pelo Império e a República até os dias atuais.
                                    O brasileiro pensa futebolisticamente, que juiz bom é o que marca “pênaltis” para o “nosso time” e que só os “jogadores adversários” cometem infrações graves. Apesar de esta ser uma “alegoria futebolística” tão ao gosto do ex-presidente Lula, não deixa de encerrar uma verdade aplicável não só à CBF, mas a todas as instituições nacionais.
                                      Somos perversos contra as instituições maiores, que deveriam proteger os nossos “direitos cidadãos”. Não diligenciamos na sua construção, reforço e manutenção, porque isso implicaria que o cidadão criticamente se politizasse e fiscalizasse a “mais valia” do seu voto e o exercício do mandato outorgado.
                                      Ao contrário, por uma danosa “rivalidade provinciana” profundamente enraizada desde tempos imemoriais e sempre “revitalizada” por espúrios interesses políticos, insistimos nos “nós contra eles”, “paulistas contra nordestinos”, “baianos contra sergipanos” e “pernambucanos contra os restantes nordestinos”. Um “desserviço à nacionalidade”, num qualificador mínimo, ou uma “traição ao espírito uno de brasilidade”, se quisermos chamar o “diabo” pelo devido nome.
                                    A maior instituição a preservar deveria ser o “Federalismo”, pois é o que determina a “proporcionalidade de participação” nas decisões nacionais, entretanto o que de mais grave aflige à nacionalidade nos dias atuais é o “divisionismo”, pelo fato de que mal saímos de um período de exceção e justamente quando recomeçávamos a construção de um “projeto político de Nação”, assistimos ao desmonte da confiança em todas as Instituições da República.
Tornamo-nos “velhos” em plena “adolescência democrática”.
                                 Do Governo Sarney herdamos, além da inflação mais desestruturante de todos os tempos, também uma “Constituição Cidadã” medrosa aos tempos de arbítrio e por isso garantista e inadequada à realidade da globalização. De Fernando Collor pelo menos a retirada do “guarda-chuva protetor” do Estado ao empresário, que sacudiu a Economia e nos fez avançar e nos introduzir na Economia Global.
                                  Foram os Governos Itamar Franco e o primeiro de FHC, que com o controle da inflação e neste as privatizações, (que somente a História julgará a adequação) e uma importante “reforma de base” com a Lei de Responsabilidade Fiscal, que o Brasil começou a se enxergar como uma Nação Moderna e com autoestima. Isso rendeu a FHC uma reeleição.
                                   Já o Governo Lula da Silva apostou na necessária e justa inclusão social dando mais dignidade aos até então “excluídos”, o que veio a aquinhoar ao PT três mandatos presidenciais consecutivos. Uma continuidade inédita.
                                   Infelizmente instalou-se uma “polarização”, fruto de “projetos de poder”, (o PSDB falava em 20 anos e o PT não deixou por menos e sapecaram outros seus 20 anos, também) entre as duas maiores “forças políticas progressistas”. Uma militância política exclusivamente de desconstrução de imagens, que começou em 2002. Daí por diante o “projeto de Nação” foi relegado a um segundo plano pela “briga de primos”. São os nossos “judeus e palestinos”.
                                   O Brasil nestes 30 anos mudou agressivamente seu perfil de escolaridade e formação, o tamanho da sua classe empresarial e da classe média e reduziu consideravelmente a pobreza por mérito de todos os Governos, que por lá passaram, mas incrivelmente “nuncadantesnahistóriadestepais” assistimos a uma discussão política tão em nível das famosas “brigas de cortiço” ou “varzeanas”. Só que desta vez é uma “guerra intestina” e assim bem sabemos do material produto final desses “desarranjos internos”.
                                       A explosão de um “ideal político” depende da energia cívica que empenhamos para o seu sucesso. Entretanto, hoje gastamo-la mesquinhamente vivendo e incentivando tempos arrasadores de desconstrução, apequenando ainda mais as já “micro instituições”. Para construir necessitamos de “caros” materiais sólidos e ligantes. Já para demolir dependemos só do gratuito “ódio divisor” e das “marretas da má intenção”.
                                        Ou seja, 30 anos decorridos, nada aprendemos e nada temos a transmitir aos “jovens de Junho de 2013”. Pode começar a tocar a Marcha Fúnebre e circular as filas de visitação ao Esquife da Democracia Representativa. E vai rolar a festa...
 

Das percepções e pesquisas de
Antônio Figueiredo – Entre Algum Lugar entre a Bahia e São Paulo
Economista, Escritor, Empresário, Militante Apartidário Parlamentarismo e Voto Distrital Puro. Ex - Ativista Movimentos Sociais Católicos/ Metalúrgico/ Estudantil (1961/73). Operário da Cidadania