sábado, 3 de janeiro de 2015

#PensarNaoDoi:

“Quatro Pernas, Assento e Encosto...!”
 “... O valor que damos ao infortúnio é tão grande
que,  se dizemos a alguém “Como você é feliz!”,
em geral somos contestados...!”
Nietzsche
           Uma pessoa cruel, odiosa, invejosa, egoísta e deficiente. Cheia de defeitos, fragilidades e sofrimentos. Qualquer um que convive com um ser humano assim reconhece tais características. São evidências inegáveis de quem observa os sentimentos mais cruéis da pessoa. Impossível evitar, elementos emergem de maneira tão óbvia que qualquer desconfiança pode corromper a realidade, vertigem existencial e alienação.
          Vivemos em eterna disfunção, reconhecemos toda forma de maldade das pessoas. Como Sartre alertava, “o inferno são os outros”. Eles nos cercam, nos oprimem e nos iludimos acreditando que tudo que podemos fazer para nos defender é ignorar, fugir e evitar, não só a maldade, mas todo sofrimento que dela decorre. Ou seja, a maldade faz sofrer, portanto, evite sofrer, “fuja da dor”. O ódio, a inveja, o egoísmo, os defeitos de caráter sempre vão trazer tristeza, dor e devem ser evitados a todo custo.
          Sentimentos presentes o tempo todo, sem folga. De forma impiedosa estamos vulneráveis a uma avalanche de sofrimentos desagradáveis, sem pedir licença invadem nossa consciência a cada acontecimento da vida. Quando menos se espera, a maldade aparece sempre ardilosa, atenta e mostra a face mais cruel do ser humano.
 
           Conscientemente vislumbramos o sofrimento, observamos a pessoa e vimos tudo que entendemos ser defeitos de caráter, tudo que pode impingir sofrimento e dor. A consciência é a visão moldada pelos sentimentos que permitimos. Como queria Kant, uma cadeira é só aquilo que a cabeça elabora pela visão consciente. Podendo até não ser uma cadeira, depende muito mais do que realmente nos é permitido observar de algo com quatro pernas, assento e encosto. Algo como um cachorro sendo empurrado num carrinho de bebê, tudo presente, quatro pernas, assento e um encosto (no caso, quem empurra o carrinho).
          Pronto, você é daqueles simpáticos à ideia de cachorros sendo empurrado, em carrinhos de bebê, o ódio já deu as caras, mas calma, observe que vai crescer ainda mais. Caso lesse que os que empurram os carrinhos são escravos do medo e ficam submissos a um ser quadrúpede para preencher uma insignificância cósmica que a vaidade impede de enfrentar. Aí sim, a vontade de matar o autor destas linhas já está tomando conta dos pensamentos e toda a incrível capacidade inventiva do ser humano só trabalharia com as formas criativas de sofrimento possíveis direcionadas ao ora escriba.
          As acusações são verdadeiras, tanto para o autor, quanto para os sentimentos que dominam a pessoa dócil dona do cãozinho querido. Os sentimentos são mesmos, os desejos idem, uma por consciência das palavras escolhidas (sarcasmo), outra por ver na crítica um motivo justo de tal sentimento diante de um animal indefeso. Mas os sentimentos são idênticos? Quem mesmo é a pessoa cruel, odiosa, invejosa, egoísta e deficiente? Qual delas passa a desejar (algumas vezes até agir) o mal real da outra pessoa? Uma observa e critica com idéias, a outra, em nome de uma “tolerância” contraditória e pervertida, quer matar.

          “Os inferno são os outros”, expressão máxima da ironia. Longe dos crentes em um mundo legal e uma vida alegre. O mundo real nos obriga a optar entre viver ignorando os sentimentos mais naturais da espécie, alienado da natureza cruel e predatória do ser humano que coabita na mesma estrutura biológica da gratidão e generosidade; negando os próprios defeitos para defender a vaidade do ego, indefeso, orgulhoso e medroso, em nome da “felicidade geral da nação” e reconhecer, verdadeiramente. toda extensão da maldade também presente em mim, em você e todas as pessoas. Por coerência intelectual, a segunda opção é a única viável, talvez Sartre deva ser lido, “o inferno sou eu, nos outros”. Pelo menos seria mais sincero à espécie.
                  No final das contas, as pessoas só tem um elemento em comum, o erro. A partir dele as escolhas são tomadas, para o bem e para o mal. Admitir que ele exista, de forma crua e dura, por ação ou omissão própria, dói, fere na alma, mas é o primeiro passo, fundamental, essencial, a contradição necessária, seja para evolução, seja para a confirmação de algo.
             Para uns, a dor no orgulho é maior, a vaidade impede responsabilizar-se pelo próprio sofrimento. Para outros, catalogar equívocos durante a história é forma de aprendizagem. Talvez a única capaz de enfrentar realmente o sofrimento, identificando a causa para descobrir, quase nem sempre o correto, mas nem que seja pelo menos mais uma das várias formas erradas já tentadas, pode ser o suficiente para o crescimento.
              Existe uma grande diferença entre o ódio mortal que se lança contra a crítica ao cachorrinho sendo empurrado em carrinho de bebê e a critica em si. Geralmente quem critica, tolera a discordância de idéias e a considera essencial para seu crescimento.
              Diferença que distancia quem critica, do desejo de morte aos praticantes de tais passeios, a eles existe um obstáculo intransponível chamado tolerância. Algo que o discurso geral de “coletividade harmônica” usa para destinar seu ódio mais agressivo mais excludente, “em nome da tolerância, aquele que escrever contra deve ser preso”, “quem apresentar idéias contrárias ao governo deve ser calado”.

                   É a tolerância fundamentando a própria intolerância, tudo em nome do bem, de um “mundo melhor”. Bom, talvez esteja chegando a hora e esse “mundo melhor” seja visto um eco vazio de uma massa sem identidade. Um conjunto disforme de seres humanos autointitulados de bondosos, mas que não tolera que sejamos contra a liberação de drogas. De seres humanos que ignoram os próprios defeitos, vivem em eterna alegria “do bem”, queridos e se sofrem, são vítimas, os culpados estão lá do outro lado, afinal, “o inferno são os outros”.
                Ignorar que temos carências infantis, somos ridículos, mimados, vaidosos, invejosos, egoístas, odiosos e carregamos vários outros defeitos de caráter, não anula que eles existem, só revelam o medo de enfrentá-los, apesar do sofrimento. Negar a realidade cruel da natureza humana não resolve a maldade que cada um carrega. Ignorar a existência da dor é deixar de resolvê-la. O ser humano só venceu o medo de sair da caverna por conta da fome, mas primeiro ele descobriu que esse medo existia, existe muito maior hoje que a vida na caverna já torna todos, umas dondocas ingratas e reclamonas.
                 A fuga da parcela de responsabilidade pelas frustrações da vida é o que torna o ressentimento fato real, somos vítimas, carentes e culpados, mas culpamos o outro daquilo que somos indefesos, ignoramos os próprios defeitos e são eles que nos transformam em seres ainda mais insignificantes, vulneráveis e mimados. Receber um elogio pela beleza física significa mais para vaidade do que um livro terminado, afinal, exigiu reconhecimento externo para suprir o que está vazio por dentro.

 
 A vida é sofrida, erramos de forma infinita até encontrarmos uma forma correta. Por natureza nascemos com a certeza da morte, somos derrotados pelo próprio corpo diariamente, que ameaça parar a qualquer instante, mas é justamente a consciência plena da derrota permanente que faz cada pequena conquista uma verdadeira vitória. Abrir os olhos toda manhã é uma vitória, sair da cama é uma vitória, dar e receber um bom dia é uma vitória, respirar é uma vitória. No meio de tanto sofrimento, cada instante nos oferece uma chance de acumular mais uma vitória. A vida não dá folga nunca, baixar a guarda é impossível, o inimigo está 24 horas, 7 dias por semana nos sabotando, por isso que cada uma dessas pequenas vitórias, cada respiração conquistada, representa uma chance única de reconhecer a dimensão do valor em cada fragmento de vitória. Somente admitindo o orgulho se pode reconhecer realmente o valor da gratidão, através do egoísmo que se aprende sobre generosidade. São os erros que nos ensinam o acerto.
                 É a consciência da derrota completa que transforma cada pequena vitória da vida em algo que realmente vale a pena no meio de tanto sofrimento. Relativizar defeitos é ignorar a natureza de espécie, negar a realidade inevitável. Por maior relevância que a obra de Immanuel Kant tenha, a realidade é que algo de que quatro pernas, assento e encosto, sempre será uma cadeira, mesmo que feia, velha, fraca e inútil.
Pode pensar bastante... Não vai doer...
  
 

Entendimentos & Compreensões
Dos diálogos com Michael Nedeff Chehade
 ... dizendo-se (Idiota Intransigente)
Leituras & Pensamentos da Madrugada.