terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Sala de Protheus
recebe Beatriz Ramos
de Brasília- DF- :

 Meu Pai Me Queria Augusto!
“... Seus filhos serão seus pais...!”
Khalil Gibran 

                                      Na cama de hospital meu pai me encara pelos olhos de um estranho. O choque da devastação sofrida em tão pouco tempo faz com que, por um instante, eu respire quase com tanta dificuldade quanto ele.
                                     Teve belos olhos, quando jovem: castanhos, com uma orla que começava verde e terminava azul, o que me fascinava. Agora o azul, transformado em halo senil, ocupa metade da íris, como se as pupilas fossem os alvos de uma competição de arco e flecha. Azul, marrom e preto, quase em proporções iguais.
                                   Não reconheço seu rosto, sua pele fina, seu corpo prostrado. As lágrimas vêm facilmente, sem que eu tenha tempo de descobrir se choro por ele ou por mim. Nos perdemos, uma vez mais: meu pai também não sabe quem sou.
                                   Beijo seus cabelos ralos, abraço seu corpo ferido com cuidado e, quando começo a passar nele a colônia nova que trouxe, ouço sua voz rouca em meu ouvido: Ah, mamãe!
                                   E assim me torno mãe de meu pai, aninho-o em meu peito, falo com ele na linguagem das crianças, tento preservar o encanto deste momento de intimidade, mesmo sabendo que não sou quem ele busca.
                                  Quero cantar para ele, mas não sei com que músicas minha avó o punha para dormir, se é que o fazia. Sei pouco deste pai que me deixou tão cedo, ao se divorciar, e a quem procurei tanto. Não temos a intimidade da vida compartilhada, dos segredos cúmplices. Ele também não deve ter tido uma infância fácil, pois jamais se referiu a ela espontaneamente.
                                   Sei que não ficou feliz quando nasci mulher. Já pai de uma menina, esperava um homem, que eternizasse o nome da família e o ajudasse a recuperar glórias perdidas, que só ele chorava. Sei que lidou mal com a decepção de aguardar Augusto e receber Beatriz.
                                   Superamos nossos descaminhos com a pressa dos que se julgam eternos. Quando me dei conta, já era tarde demais. Meu pai morreu no dia 10 de agosto, e eu fiquei sozinha, angustiada como um hamster, correndo eternamente em sua rodinha, tentando encontrar respostas para questões que teimam em martelar minhas têmporas maltratadas: o que herdei deste homem?
                                       A risada solta, a generosidade com os amigos, a capacidade de amar, o excesso de confiança que chegava às raias da temeridade, a recusa em se deixar abater pelas pancadas da vida ou o gosto exagerado pela bebida em que se refugiou quando a velhice começou a pesar? Talvez eu jamais descubra. O tempo se foi, e eis-me aqui, matriarca sem senso de uma família que espera de mim o que não consigo me dar.
 
 
Entendimentos & Compreensões
Homenagens ao Velho
Beatriz Ramos
Jornalista & Cronista
Brasília - DF