quarta-feira, 14 de janeiro de 2015


Índio Quer apito...!

 Ê, ê, ê, ê, ê, Índio quer apito
Se não der, pau vai comer!
Ê, ê, ê, ê, ê, Índio quer apito
Se não der, pau vai comer!
                                          Haroldo Lobo e Milton Oliveira – Marchinha de Carnaval

                                        Uma coisa que fica evidente a cada eleição que passa, são os crescentes desencanto e desconfiança não só com o PT, o que não representa qualquer novidade para os políticos brasileiros, pois atinge toda e qualquer “oligarquia”, que assume o poder. Em 2002 foi o desencanto com Fernando Henrique, após dois mandatos sucessivos e ainda que respaldado pelo “sucesso” do Plano Real, o “povo” se esqueceu de tudo e levou Luiz Inácio Lula ao poder mesmo depois de três derrotas eleitorais consecutivas.
                                    “O “povo” é ingrato. Esquece muito rápido...”, dizem muitos. Tenho a mais absoluta certeza, que o PT estará falando a mesma coisa no dia que for apeado do poder. Como podem 50 milhões de beneficiários do Bolsa Família esquecerem-se de que foi o PT que os tirou da “extrema miserabilidade”, para torna-los “miseráveis cidadãos”?
                                     Ah! Povo ingrato... Ah! Povo, que sempre se deixou levar pela “lábia doce” dos políticos, crente nas suas “promessas de amor”... Ah! Povo, que parece que começa a ficar esperto... Ah! Povo, que parece que começa a tomar forma de uma Nação...

                                   Ao fazer uma análise evolutiva do “silvícola brasileiro” desde o Descobrimento, parece-me que os atuais não mais se contentam com “espelhinhos e miçangas de vidro”. Se o Brasil é hoje uma nação próspera e crescentemente rica deve-se ao trabalho da sociedade, trabalhadores e empresários e não à ação de qualquer governo, que nada produz.
                                 As ações governamentais que possibilitaram esse desenvolvimento são a mais simples e básica das obrigações do Estado. Não é à toa que sociedades mais avançadas separam uma verba polpuda para os “políticos” brincarem de presidencialismo ou parlamentarismo e até mesmo de monarquia, desde que não se intrometam na Economia, sejam moderados nos gastos e cobrança de impostos.
                                 O que acontece no Brasil atual é que os defensores de “tetas públicas”, típicas do “centralismo econômico” põem a pecha de “neoliberais” e até mesmo de “entreguistas” nos que defendem a tese da “menor intervenção do Estado” e até mesmo do “Estado Zero”. Na verdade, estes são os “que pagam” e aqueles os “que gastam” e é evidente que é mais fácil decidir como gastar o dinheiro alheio, do que ganha-lo.
                             Ufana-se o Governo em conceder “bolsas” à metade da população, esquecendo-se de agradecer pelo esforço ao restante da coletividade em “pagá-las”. Não somos merecedores de qualquer tipo de agradecimento pelo nosso “duro suor gasto”, enquanto eles só gastaram a “tinta da caneta”, que ainda por cima é financiada também com nosso dinheiro.
                               O que as eleições vêm mostrando sucessivamente é que o “otário contribuinte”, já vem sofrendo com a degradação da sua qualidade de vida por salários, cada vez mais achatados. Que se vê obrigado a contratar terceirizadamente “serviços públicos” essenciais e constitucionalmente garantidos, quer seja de saúde, educação e até de segurança pública, além de não ver a sua contribuição através dos impostos serem tratada republicanamente, vê a “sanha arrecadadora” crescente e famelicamente insaciável.
 
                              Se já não têm a capacidade de “prestar contas” confiável e transparentemente com que direito vêm nos exigir mais? Quais erros foram cometidos ao pagar impostos, para que sejamos punidos com mais encargos? É esta inversão de valores que o eleitor crescentemente começa a se questionar.
“Tudo eu...?”, se pergunta.
                             Pois bem, conseguimos evoluir do “tempo dos espelhinhos” e agora “índio quer apito”, e daqui para frente índio terá que apitar alto e forte, ensurdecedoramente, pois parece que os protestos pós-eleitorais não chegaram aos “tímpanos oficiais”.
                              Não vou discutir a legalidade e a transparência do pleito, pois se não tivemos a capacidade de fazer valer nossos conceitos e princípios antes da eleição de como fazê-lo limpo e cristalino, que nos mexamos pelos próximos, porque para este o “leite já derramou e talhou”.
                            Mas nesse intervalo de tempo devemos “apitar” não só pelos nossos direitos solenemente ignorados, mas principalmente pelo nosso dinheiro, que vem sendo sistematicamente “redestinado” para fins outros, que não aqueles expressos na Constituição, além de não ter demonstrada sua utilização adequadamente.
                             Lembro-me de minha primeira viagem aos EUA, quando todo atrapalhado com o uso de moedas, (na época o Brasil não usava moedas de centavos, pois a inflação fazia com que o valor material da moeda valesse mais que seu valor estampado), resolvi entregar a uma vendedora meu “porta niqueis” para que tirasse dali o suficiente. No final era merecedor de um troco de 3 cents e disse à vendedora que não era necessário e ela então me disse: What’s mine is mine. What’s is yours is not mine …
                           Com essa lição aprendi o porquê do sucesso dos EUA como nação. Tão importante ou até mais do que o respeito à Constituição é o respeito ao dinheiro alheio.
                           Lembrei-me na época da imensa quantidade de títulos públicos e bônus lançados no Brasil desde a época do Império e que acabaram por virar aquilo que nos meios financeiros foi usado para garantir empréstimos e pagar dívidas como “moeda podre”. O ponto é exatamente este. Quando o dinheiro foi recebido pelo Governo e entregou Títulos da Dívida esse era um “dinheiro bom e útil”, mas quando o Governo simplesmente “decidiu unilateralmente” dar o calote, virou moeda podre.
                            Estão aí precatórias, ações indenizatórias de aposentados e outras devoluções de imposto de renda e tantos outros “débitos oficiais” cuja devolução é feita “como e quando” o Governo quer em total desrespeito ao “direito e ao patrimônio do cidadão” e ninguém “apita”.

                         Está ai a correção da Tabela do Imposto de Renda, que segundo alguns tributaristas tem uma defasagem de 65% e agora a PresidentE, (ainda sou tradicionalista seguidor do respeito ao Velho Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa falada no Brasil), diz que vai vetar a correção de 6,5% aprovada no Congresso e ninguém “apita”.
                         Ai vem o novo Sinistro da Fazenda dizer que tem que criar novos impostos e reativar alguns velhos, o que certamente fará crescer a carga tributária acima dos 40% atualmente penalizantes e ninguém “apita”.
                       A conclusão que tiro disso tudo é a de que ou o brasileiro não tem boca e folego para assoprar seu apito, ou é “frouxo mesmo”...

O “índio velho” aqui quer o seu apito... Pulmão não falta...!

 

Dos pensamentos de Antônio Figueiredo
Escritor & Articulista
Convidado Especial da Sala de Protheus
São Paulo – SP -