quinta-feira, 13 de novembro de 2014


Da mente sábia do escritor
Antônio Figueiredo para a
Sala de Protheus:


Viva a República...




              “...Logo, é forçoso que quem tem uma alma má
                      governe e dirija mal e quem tem uma boa,
faça tudo isso bem...!”
                                                                                  Sócrates – A República





                                                               Já se passaram quase dois milênios e meio que as discussões socráticas, que instigaram Platão a escrever A REPÚBLICA: são motivo de reflexão sobre uma forma de governo e a atuação justa e racional dos políticos no exercício do Poder. Sócrates foi o fundador do que chamamos Filosofia Moral vinculando a Justiça e a Razão e estes são bons e dos mais que apropriados tempos para nos debruçarmos sobre esses conceitos, visto que é deles que deve emanar toda a “paz e bem estar sociais”.
                                                                Estaríamos discutindo uma utopia, se considerarmos que a alma humana esconde o “pecado original” de toda uma espécie? Na verdade, não. Estamos falando de regramentos e limites à essa “tendência natural para o mal”, que é genética na humanidade. Estamos falando de equilíbrio. Estamos falando do “bem comum possível”, que dia após dia se aperfeiçoa pelo aprendizado dos “erros consentidos” ainda que inconsciente e inconsequentemente, mas que uma vez reconhecidos, não podemos permitir que se petrificasse.
                                                                Estamos falando da nossa sociedade heterogenia e do seu povo autóctone que pouco a pouco foi se miscigenando com europeus, africanos, asiáticos e outros povos americanos de tantas raças, credos, e tradições e que ousou se transformar em uma Nação. Estamos falando do nosso “berço esplêndido” ocupado por toda essa gente construindo seu sonho de um “futuro”.

                                                              Não há como falar de hoje sem repercorrer mentalmente a história desde o nascimento desta Nação, povoando-a com os tantos que dedicaram suas vidas ao alargamento deste território e à manutenção da sua unidade geográfica. E não falo aqui dos “heróis condecorados” do Panteão da Pátria, mas sim do “brasileiro comum”, que sempre foi a imensa maioria heroica de todos os feitos daqueles.
                                                                Estou falando do tripulante degredado da esquadra de Cabral, que aqui foi deixado e das famílias que se estabeleceram na Capitania de São Vicente e ali trabalharam no primeiro engenho de açúcar. Do homem comum que participou das Entradas e Bandeiras e do garimpeiro solitário que cobiçoso trabalhou nas primeiras lavras de ouro e diamantes.                   
                                                              Falo do índio, do negro e do branco irmanados na Batalha de Guararapes e do seguidor fiel de Antônio Conselheiro, que lutou em Canudos. Falo dos homens que juntos, quer dos irmãos Vilas Boas, quer de Rondon embrenharam-se pelos sertões e também daqueles que construíram a Ferrovia Madeira Mamoré, Brasília, a Transamazônica e a Perimetral Norte. Falo enfim do “brasileiro povo”.

                                                            Falo de homens e mulheres, velhos ou jovens, nacionais ou importados de todas as regiões, raças e credos. Falo de mim e de você cidadão filho desta nossa “Pátria mãe gentil”. Nesta semana celebram-se os 125 anos da Proclamação da República da qual o “Zé povinho”, como sempre, foi excluído por decisão dos homens da elite e mando em todos os eventos de construção da Pátria Ideal deles. Sempre fomos dóceis cordeiros submissos à vontade desses nossos “pastores”. Até hoje.
                                                         A mim me parece que nos dias 05 e 26 de Outubro mais de 115 milhões de brasileiros resolveram retirar de seus guarda roupas seus trajes de gala democráticos para se apresentarem às urnas e nela depositarem sua opinião. Infelizmente 30 milhões resolveram se omitir, quer por comodismo ou total falta de espirito de brasilidade, quais observadores pendurados por um barbante dois palmos acima da frigideira comum e não fizessem parte da “fritura coletiva”.                     
                                                        Ainda assim estou seguro, que o calor desse “fogão cívico” queimou seus fundilhos individualistas. A História nos ensina que a formação da “consciência coletiva” só se consolida mediante a ocorrência de grandes desgraças e conflitos, onde os riscos e consequências são igualmente distribuídos e suportados. Para muitos desses brasileiros a realidade atual ainda não é grave ou próxima o suficiente para incomodá-los.
                                                           Ainda assim a frase inicial se aplica a governantes e governados. “Gosto, que me enrosco”! Já dizia Sinhô no início do século passado e é o que penso hoje ao ver as manchetes dos jornais dizendo que “a população vê hoje estarrecida” os escândalos, que brotam das práticas e no comportamento da classe política pelo uso e abuso de privilégios, que faz escorrer pelo ralo o suado dinheiro do contribuinte.
                                                          Gostaria, sinceramente, de entender o motivo dessa surpresa cega. O brasileiro sempre se comportou ingenuamente como uma “menina do interior”, (isso a dos velhos tempos), que se encantava com os “homens da capital”, concedendo-lhes sua “virtude” por um “passeiozinho de automóvel”. Nunca pensou criticamente sobre a origem de partidos e pessoas, bem como sobre suas “reais intenções” para o futuro. Assim, apenas a “boa lábia” sempre foi o suficiente para fazê-lo “deitar-se abandonado” para ser o “coitado”.

                                                            A satisfação momentânea sempre foi o bastante, mas que sempre ao final mostrou-se insuficiente. Afinal, quem é essa tal república e sua irmã siamesa a democracia? O que nos oferecem de tão precioso? Que pozinho mágico ou varinha de condão possuem? Na verdade, esqueceram-se de nos avisar, que ambas compõem um “quebra cabeça customizado” com muitas e minúsculas peças e com “idade cidadã recomendada”, para ser montada em conjunto por muitas pessoas, pois com quantos mais palpites se contar, mais perfeito será o resultado.
                                                            É evidente, que com tanta gente, as opiniões sejam divergentes quanto à forma e a imagem esperada e por isso devem ser compostos vários grupos, que comunguem dos mesmos objetivos. Só uma regra essencial deve ser obedecida. Que o quadro afinal montado represente ambas as irmãs juntas e em harmonia, pois as peças são todas de formato e tamanho igual e não têm encaixes especiais, o que torna a montagem mais complexa, mas ao mesmo tempo permite total liberdade de união das partes.
                                                        É um quadro que jamais terá uma forma final pré-estabelecida, pois a composição permitida pela paleta de cores e formas é praticamente ilimitada, para poder atender ao “bom gosto” de todos. É evidente também, que jamais se conseguirá agradar a todos uniformemente, mas é imprescindível a presença do respeito e da tolerância mútua em toda e qualquer divergência. Contudo será sempre a vontade da grande maioria, que esboçará sua forma final. Entretanto, mais árdua ainda é a tarefa de manutenção do quadro em construção permanente e para isso deverão ser escolhidos “cuidadores” seriamente comprometidos em mantê-lo conforme a vontade dos “montadores”, sempre atentos ao constante aprimoramento de acordo com a evolução do tempo e dentro dele de exigências, necessidades, novos anseios, ideias e ideais.
                                                    Esta é a tarefa. Urge começarmos a partir de já. Agora despertados, não poderemos dormir até que vigilantemente definamos as cores e as formas daquilo que não só queremos, mas também de pensarmos naqueles, cuja principal preocupação é a sobrevivência e para os quais os conceitos de republica e democracia se traduzem exclusivamente em uma mesa matadora da fome. Uma moradia a protegê-lo do tempo, uma saúde forte o suficiente para carregar o seu fardo de dificuldades, a educação de seus filhos para que possam ansiar um pouco mais que eles e um trabalho digno e remunerado bastantemente.
                                                  Esta é a verdadeira Bolsa Família. A que dá a todo e qualquer cidadão o gozo da plenitude dos seus direitos constitucionais e não podemos nos esquecer, que a menos que as estatísticas oficiais estejam manipuladas, são 50 milhões de brasileiros, (25% da população), que hoje vivem em “miséria cidadã e exclusão social”.



                                                  Não temos ainda o direito de dar “vivas a uma república”, que não arquitetamos, pensamos ou queremos, pois temos ainda um grande “dever de casa”, (ou nas ruas), a cumprir, para merecermos a promoção para o estágio evolutivo seguinte. Mesmo que dia a dia tenhamos resgatado alguns milhões de excluídos, mas que ainda reste uma centena deles por incluir, ainda teremos algumas peças a mais para ajustar no nosso “quebra cabeça”.
Então sim poderemos dar vivas à uma república ... VIVA! ...





Das vivências, percepções e pesquisas de Antônio Figueiredo
 – De algum lugar entre a Bahia e São Paulo Economista, Escritor,
Empresário, Militante Apartidário Parlamentarismo e Voto Distrital Puro.
Ex - Ativista Movimentos Sociais Católicos/ Metalúrgico/ Estudantil (1961/73).
 Operário da Cidadania