domingo, 29 de maio de 2016

#SerieCidadania:

E a Imprensa do Brasil?

“...Se a imprensa não existisse,
seria preciso não inventá-la...!”
Honoré de Balzac.


                          O grande Brasilês Rui Barbosa deixou escrito para a posteridade: “...A imprensa, entre os povos livres, não é só o instrumento de vista, não é unicamente o aparelho do ver. Participa nesses organismos coletivos, de quase todas as funções vitais. É, sobretudo, mediante a publicidade que os povos respiram. (...).”
Bonito e sábio, não é mesmo?
Teoricamente sim. Na prática o que vimos, sentimos, observamos e descobrimos na última década é um pouco diferente.
Uma explicação conveniente aqui, da citação de Rui Barbosa:
- Publicidade, vem do latim publicare – Dar publicação, levar ao povo informações de interesse.
- Propaganda, vem do latim propagare – Ou seja propagar, espalhar, tornar público o máximo possível.
                            O primeiro não é considerado como elemento pago. Pois é de utilidade pública. Já a Propaganda é um método de divulgação geralmente paga e hoje, subdividida em várias partes.

                     Veículos de todos os tipos, incluindo agora os virtuais, foram “pagando suas contas” ou “sobrevivendo” graças as “benesses” de governos. Nos três âmbitos da nação. União, Estados e Municípios.
Qual município não conhece um veículo de comunicação que: “se não fosse a prefeitura”, já estaria fechado? Creio que em raríssimos dos mais de 5.600, existentes em nosso país continental.
                   Nossa imprensa remonta oficialmente do império. Porém existiu um pouco antes com uma publicação do exilado Hipólito José da Costa lançara, de Londres, o Correio Braziliense, o primeiro jornal Brasilês — ainda que fora do Brasil. O primeiro número do Correio Braziliense é de 1 de junho de 1808, mas só chega ao Rio de Janeiro em outubro, onde tem grande repercussão nas camadas mais esclarecidas, sendo proibido e apreendido pelo governo.
                    Isto era censura. A censura de hoje é mais fácil e não precisa de tantos “fiscais”: Basta “patrocinar”, literalmente.

                         Entrei na imprensa do Brasil, ainda guri (menino para os gaúchos). Aos 15 anos começo no radiojornalismo. Para as outras áreas foi um pulo. Minha formação jornalística incluía oratória, comunicação de massas, literatura clássica, muitos textos, ainda em latim, ou em espanhol, pois publicações mais exigentes para a formação não existiam no Brasil. Não ao menos no interior de muitos estados. Mesmo cultos como o Rio Grande do Sul. A Língua Portuguesa era muito mais que exigência, era uma imposição. Se você não soubesse escrever, seria apenas um mero ajudante de uma redação. E nesta época já tinha entrado as Mudanças da Língua, 1972. Ou você sabia.... Ou você sabia.
                         Publicar uma notícia era, literalmente, ater-se ao fato ocorrido, com fontes, provas irredutíveis, fotografias – mais tarde as filmagens-, e gravações que ficavam em arquivo. Não era medo da justiça. Era medo do “editor” das notícias do veículo, ao qual se trabalhava. Por quê? 
Eram “carrascos” na área de cobrar uma notícia bem-feita.
Por que a verdade era a única virtude reconhecida. Não existia a subjetividade do redator ou repórter. Era o contido, estritamente no fato. 
Como era antes?

                          O francês Max Leclerc, que esteve no Brasil como correspondente para cobrir o início do regime republicano, assim descreveu o cenário jornalístico de 1889:
"A imprensa no Brasil é um reflexo fiel do estado social nascido do governo paterno e anárquico de D. Pedro II: por um lado, alguns grandes jornais muito prósperos, providos de uma organização material poderosa e aperfeiçoada, vivendo principalmente de publicidade, organizados em suma e antes de tudo como uma empresa comercial e visando mais penetrar em todos os meios e estender o círentação da opinião pública. (...) Em torno deles, a multidão multicor de jornais de partidos que, lonculo de seus leitores para aumentar o valor de sua publicidade, a empregar sua influência na orige de ser bons negócios, vivem de subvenções desses partidos, de um grupo ou de um político e só são lidos se o homem que os apoia está em evidência ou é temível."
(Fontes abaixo. A versão do Google não corresponde a editada pelos autores nas fontes.)
E qual seria a sua visão de hoje. Como leitor?
Enquanto você pensa lembro-lhe:
                           Durante o regime de exceção, governado pelos militares, (como conheci o governo e a história, nego-me ao titular de “regime militar”) ouvi falar e uma vez passou por uma emissora um tal de “fiscal” que eram conhecidos como “censores”. Fora isso. Nada.
                               Os veículos sobreviviam pela seriedade e ética que pautavam suas informações. E desta ética é que vinham propagandas. Pois as publicidades – de órgãos oficiais – não eram cobradas. Por isso publicidade.

                   Seria desonra (ao menos no interior gaúcho) um veículo de comunicação cobrar algo de um órgão público, principalmente uma prefeitura. Desta prática que você deve lembrar, ter ouvido, ou lido sobre um locutor anunciar sem fundo musical e seco: “Serviço de utilidade pública! ”. Pois era isso mesmo, um serviço para a utilidade do público. Nada era cobrado. Era interesse de cada veículo prestar, mais que o outro, informações para seus leitores ou ouvintes. Um veículo que descobria-se ter recebido algum tipo de “patrocínio político”, simplesmente perdia o respeito e logo desaparecia. 
Se existia? Claro que sim. Mas eram considerados folhetins, com fins politiqueiros.
                       Não precisava haver preocupações com “censores” ou a tal de Censura de algum Governo; A “censura” acirrada dos editores de redação chegava ao ponto de ser cruel com repórteres e redatores. E como aprendi na prática antes da teoria, foi com estes que descobri verdadeiros mestres. Eram simplesmente jornalistas muito cultos, versados em literatura clássica. Falavam além da Língua Portuguesa, O latim, o Espanhol, e na grande maioria – dependendo da colonização -Ainda italiano ou Alemão – o germânico. Tinham um poder de síntese que humilharia os “habitantes da rede Twitter”. Eram impecáveis na escrita e na cobrança de seus repórteres ou redatores. Tudo era minuciosamente corrigido.
                       Faço-lhes esta narrativa, pois o que lemos, assistimos, ou ouvimos hoje, fere até os ouvidos não dotados de muito conhecimento adquirido.

                           A Voz do Brasil, era considerado o veículo com as notícias mais sérias que existia em todo o país. O que ali saia não precisava de Diário Oficial. Tornava-se oficial em tudo e para todos.
                              Erros de escrita, de gramática, concordância de todos os tipos, frases desconexas, textos incompletos sem um mínimo de beleza permeiam jornais, revistas, sítios e diários (blogs) em todo o país hoje. Tudo parece normal. Basta alguém saber de qualquer coisa, de qualquer lugar, não importando se aconteceu ou não e lá vai para as tais de: Redes Sociais e, a partir disso, os veículos é que correm atrás para dar um enfoque diferençado ao fato. Muitos deles inexistentes.
                          Hoje um jornalista que sai de uma academia dificilmente encontraria lugar em uma redação dos anos 80. Não passaria nem como entregador de jornal. A redação é péssima. Não há concordância. E os fatos... geralmente são inventados para, literalmente, “tapar furos”. (Jargão jornalístico para que não fiquem espaços livres nos jornas)
                            Os grandes jornais até os anos 90 no Brasil, muitos seculares, deixaram-se vender aos partidos políticos ou forma por eles comprados e os grandes redatores, comentaristas, jornalistas de renome se recolheram às suas vidas privadas.
                           Muitos destes conhecemos ainda hoje nas redes sociais. Gosto sempre de dar o exemplo do grande jornalista Carioca Miranda Sá. Hoje faz apenas por diversão, em seu blog, e é um dos mais respeitados, até nesta área – de blogs – em todo o Brasil.
                      Deste quilate, deste valor na ativa, não existem mais. Não resistiram ao poder da ignorância comprada de novos “chefetes de redação” com ternos caros e carros de luxo, comprados por alguém para chefiar o veículo. Em todos os estados temos exemplos deles.
E a nossa imprensa?

                        Ela praticamente, parafraseando o pensador do século 15, teríamos que reinventá-la em um novo Brasil. A que aí está hoje não é confiável.
                Temos diários de notícias na rede mundial de computadores (blogs) com mais seriedade e profissionalismo do que muitos jornais grandes, em nome e estrutura, pois em ética e profissionalismo deixaram de ser há muito tempo.
                  
Cada estado tem o seu jornalista sério e confiável. Vou me ater ao Rio Grande do Sul, com o grande jornalista, escritor e autor de Blog, Políbio Braga, de Porto Alegre. Hoje fonte para divulgação de fatos com ética e responsabilidade em toda a Internet no Brasil.
                     
O que Políbio publicar, sem medo de errar, pode “espalhar”, pois o respeito de seu nome está em primeiro lugar. Algo que era exigido nos anos oitenta. Se perder a honra do teu nome jamais será um jornalista... Ouvíamos isso a todo momento dos chefes de redação.
                              
Como isso é “coisa do passado”, hoje qualquer um tem blog, qualquer um escreve (mesmo não sabendo, e não conhecendo nem a própria língua) misturando as duas ortografias de nossa amada Língua Pátria (sim as duas estão oficialmente em uso. Porem ou usa a antiga ou a reforma) e divulga que tem milhões de seguidores
                                   
Todos parecem terem se tornado igreja e pastores. Todos querem seguidores, não importa para quê.
Quanto ao profissionalismo e o respeito com o leitor, ouvinte ou telespectador.... Bem isso é outro assunto.... Dirão: Deixe para lá, ninguém quer saber disso.
Será?

                             Buscando o pensamento de Walmir Celso Koppe, deixo para você pensar que imprensa o Brasil precisa hoje:
“... O papel da imprensa deve ser o papel da indignação, da cobrança por soluções, da informação criteriosa e discutida, da parceria com a sociedade, da exigência, da perseguição dos resultados, da defesa das leis, da crítica às leis, do processo construtivo de uma organização social aprimorada..., e não o papel medíocre, passivo, abestalhado, desinformante e irritante que se traduz em lançar sobre cada cidadão todas as mazelas pútridas dos governos e dos criminosos comuns, sem ao menos um manifesto de amparo, de apoio à boa sociedade. A imprensa brasileira é como um vento que vira as páginas de um livro antes que se possa interpretar, traduzir e criticar o que nelas está escrito...! ”.
                           
Escrever é quase automático hoje, um simples computador faz isso. Mas fazer imprensa para o público é uma coisa muito mais séria do que pensamos...
Óbvio, para os que sabem que: Pensar não dói...


Entendimentos & Compreensões 
Leituras & Pensamentos da Madrugada
Fontes básicas citadas:
CAPPARELLI, Sérgio. Comunicacao de Massa Sem Massa, 5a edição, Summus Editorial, 1989, 128 pp.
REVERBEL, Carlos. Evolução da imprensa Rio-grandense (1827-1845), in Enciclopédia Rio-Grandense. Porto Alegre, 1956.
Publicado originalmente no Grupo Kasal – Konvenios – Vitória – ES
http://konvenios.com.br/info/verArtigo.aspx?a-id=27802#.V0r40JErLNM
Arquivos da Sala de Protheus
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