quarta-feira, 1 de junho de 2016

#SerieMulher:

“Sou Mulher e Tenho 
Ouvido as Esquinas! ”


“... Eu sou assim, quero tudo e quero agora! 
Uns chamam de mimada, 
mas eu prefiro decidida...!”

Clarice Lispector

Por uma mulher...

                                   Está difícil ser mulher no século XXI. No planeta em geral, no Brasil, em particular. Aqui morrem 13 mulheres por dia, segundo dados divulgados pelo Mapa de Violência Contra a Mulher, em novembro de 2015.
                                No planeta, as baixas são incontáveis; morremos pelas mãos do Boko Haram, somos lapidadas e açoitadas pelos países que aplicam a Sharia ‘a, sofremos mutilações genitais em vários países africanos. 
                                   Morremos porque nascemos mulheres em todos os lugares do mundo. Homens usam nosso corpo como arma de guerra em boa parte dele, como instrumento de limpeza étnica e religiosa em outra, como recipiente de despejo para seu alívio a despeito de nossa vontade, sempre. 


                        Ultimamente temos morrido bastante, afogadas no Mediterrâneo, abraçadas a nossos filhos, perante os olhos indiferentes de vocês.
                       Nada do que escrevi até agora é novidade, já foi denunciado inúmeras vezes por feministas históricas, como Branca Moreira Alves, sem que o quadro mude de maneira significativa, ao contrário. Nunca se matou, estuprou e aviltou tanto o corpo feminino como hoje. 
                            Enxugamos gelo. No Brasil, as conquistas da legislação punitiva, como a Lei Maria da Penha, são rapidamente anuladas pela discriminação encontrada no acolhimento às vítimas nas delegacias; na apuração feita por homens que, no fundo, acreditam que “ela fez por merecer”; pelo estigma que as acompanhará até o final da vida.
                      Entretanto, acredito que a superfície sempre reflete a profundezas. Nos últimos tempos ando percebendo coisas no “Universo Feminista” que me fazem pensar se não temos parcela de responsabilidade no que nos acontece, dentro da eterna Lei do Retorno que a tudo alcança.
                         Em meio a mortas e dilaceradas, ouço que é importante usar “todas”, mesmo que haja homens e mulheres no recinto, porque a regra linguística é machista; como se transgredir a regra nos fizesse mais mulheres, ou a eles, menos homens.
                       Tenho ouvido que antes de ser oposição ou governo, somos mulheres, e que o mais importante é fazer a política de gênero, mesmo que isso custe ao país treze anos de luta contra um regime de ladrões e corruptos que nos espoliou.
                      Não! Não mesmo, quem se alija será alijada. Não é a flexão feminina transgredindo a regra gramatical, ou a colocação dos interesses feministas acima dos da população, que nos garantirá o direito a voz e ao respeito que é nosso por direito de nascimento.

                                Um breve olhar sobre as sociedades igualitárias do período Neolítico, descritas no primal “O Cálice e a Espada”, de Riane Eisler, mostra que a época em que as mulheres foram mais poderosas e influentes na política foi quando trabalharam ombro a ombro com os homens, inclusive na caça e na guerra.
                           Fazer o jogo da oposição ao governo recém-empossado, em nome de política de gênero, é ignorar que a eventual desestabilização dele trará de volta ao poder uma presidente que, embora mulher, nada fez de concreto para evitar que o Brasil se tornasse o 5º país do mundo que mais mata suas iguais. Essa conquista fúnebre é dela, não de Temer. 
                        Às minhas colegas feministas, recomendo um olhar mais atento sobre o conceito de sororidade e lanço uma reflexão: em determinado segmento, o salário mais baixo é pago a uma mãe solteira, com um filho adolescente em crise depressiva, que há anos não sai de casa. Essa moça é atormentada por ameaças veladas de demissão a cada semana e todos os erros são sempre a ela atribuídos. Os salários mais altos são pagos às mulheres casadas, em condições de negociar por eles.


                             É esse o conceito de feminismo moderno? Porque nada tem a ver com o antigo, em que as mulheres se agrupavam em guildas para melhor se proteger. Mais do que a flexão feminina, fazer política como mulher, com sensibilidade, responsabilidade e o coração, é o que nos resgatará.
Se os homens têm tantos defeitos, está na hora de parar de imitá-los.


Entendimentos & Compreensões

A autora está identificada nos 
Arquivos da Sala de Protheus
Preferiu ser “voz geral”.



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