segunda-feira, 27 de junho de 2016

Quando, Onde E Por Quê ser idiota!
“A maior tristeza de um povo é 
não ter onde viver”.
(Ytzhak Rabin, primeiro ministro israelense, 
morto em 1995)

“A maior tristeza de um povo
é não ter onde morrer”.
(Yasser Arafat, lider da Autoridade Palestina, 
falecido em 2004)


Onde se vive ou morre é irrelevante na vida de cada um. A maior tristeza do ser humano é viver e morrer sem saber quem é.
Na estúpida imposição por igualdade de resultado, as pessoas perdem aquilo que é mais precioso na vida. Pouco interessa o lugar, cada ser humano é único nas suas decisões, ações e o resultado de cada passo, cada chance, cada segundo de vida, é singular na lembrança de quem cada um será depois da vida.
Em qualquer época, o desejo mais primitivo do ser humano é deixar sua marca na Terra. Por onde passou, o que realizou, o que aprendeu e ensinou, na lembrança dos possíveis descentes e na história do mundo, seja lá a dimensão que alcançar seus atos de vida.
A cada um cabe descobrir a marca que deixará, tanto no coração das pessoas, quanto nas lutas enfrentadas. Amores passados, amores frustrados e amores presentes, tudo depende da coragem de assumir riscos, responsabilidades e se apresentar nos desafios mais improváveis da vida.
Enquanto se respira, a pele aquece, o olho brilha e a vida aparece, todos têm chances permanentes de fazer melhor, fazer o bem, nem que seja, pelo menos, para evitar o pior. E o pior da época atual reside nesta imbecilidade de igualdade material, ceifando qualquer forma de virtude do outro. A virtude financeira de qualquer um é decapitada em nome da igualdade social. A virtude nas relações pessoais é cercada por alertas preconceituosos dos “amigos”. A virtude profissional faz surgir um cardápio indigesto de suspeitas e acusações. A virtude pessoal, mesmo que seja a discrição, modéstia e humildade, já basta para alguém ostentar a pecha de “estranho" nos olhos de muitos que se dizem ver.
Dito tudo isso, por que quase me “obrigaram”, a assistir, uma gravação remetida. Diante do mês rigoroso de um inverno apenas iniciado, quase em estádio de hibernação, atrevo-me a assistir o “presente” deste amigo filosofo, que me inquire a fazer uma digressão sobre os idiotas. Nesse caso, configura-se o idiota em mim,
E o que assisto: uma mulher bonita como Megan Kelly (Fox News) se mostrar corajosa para encarar o “mostro” Donald Trump em entrevista exclusiva, que mulheres e homens, colegas ou não, iniciam uma série de chibatadas públicas na “loira”, que qualquer comentário ou palavra jocosa do entrevistado nos últimos meses, não passaria de piada ingênua.
Mas os comentários, fofocas, relatos e desconforto geral seguem na proporção da raiva despertada pela virtude de alguém, ainda mais uma mulher bonita entrevistando um bilionário que lidera a corrida presidencial estadunidense. A criatividade humana é impressionante, desde uma pequena cidade provinciana, até o centro de Nova York, qualquer relação entre personagens semelhantes, mulher bonita e um homem bem-sucedido, independente da natureza da relação, fará deles seres mundanos aos olhos de pretensos santos.
Sorte de todos que a palavra “morte” não mata, nem a palavra Jesus ressuscita alguém. O mesmo Nietzsche que declarou a morte de Deus, suplica para que Ele exista no supremo desespero de incompreensão do mundo.
A mesma situação se repete todos os dias na vida de qualquer pessoa que exercite uma virtude própria e atinja resultados diferente dos acomodados. Dr. Simão Bacamarte, célebre médico nascido da genialidade de Machado de Assis já ensinava, “o menor indício de virtude já é suficiente para isolamento e internação do paciente”. O desconforto provocado por Megan Kelly em nada difere de tantas outras mulheres em qualquer cidade, bairro, vilarejo, rua ou edifício no mundo. A pessoa que, simplesmente, mostrar-se determinada, autônoma, livre e sincera, tanto na profissão, quanto na relação com seus filhos e maridos, servirá para alvo das amarguras que outras pessoas sintam nas próprias vidas. Uma vez constatada a determinação lúcida de um, a agressividade mórbida de outro ganha amparo social da coletividade, cuja intenção obscura não é outra, senão sabotar a individualidade virtuosa de tantas pessoas que, simplesmente, fazem a parte que lhe cabe, vivendo ou morrendo em qualquer lugar do mundo.
O instinto destrutivo do ser humano primitivo é comum. Sagrado, que antes era ligado àqueles que melhor exercitassem suas virtudes, hoje tem mais relação à repetição da conduta de todos. A frase é sempre a mesma, “seja diferente, para fazer a diferença”. Como Sêneca, Júlio César e Cícero alertavam, o discurso é irrelevante, interessa mesmo o que revelam os atos. Isso em Roma, definindo a amizade na visão estoica das relações humanas. Nada diferente de hoje, algumas pessoas sofrem por não serem vistas, mostrando-se sempre mais. Outras sofrem por serem muito vistas. 
Em maior ou menor dimensão, as vidas das pessoas se desenvolve de forma muito semelhante. Mesmo que se pretenda igualdade a todos, tudo será diferente na formação afetiva, biológica e social de cada um. Cada pessoa sofrerá derrotas, aprenderá e reagirá de forma diferente. Cada um afetará os outros e o mundo de forma única. Também será afetado, singularmente, pelo mundo e outros, que representarão suas diferenças e diferentemente serão representados para todas pessoas que cruzarem no mesmo tempo e lugar. Nem mesmo o tempo, tão pouco o lugar e menos ainda os outros podem ser controlados. Cada um diferente de você e, por óbvio, nem poderia ser diferente.
Por conta disso, evitar os outros pela sua diferença é estupidez, mas imbecilidade mesmo é insistir que todos sejam iguais. Seremos sempre diferentes, nas ações, nos vícios e virtudes, nas relações entre si e o mundo. E um alerta, é fundamental que sejamos diferentes, que aprendamos com os outros e nos descubramos através do que afetamos outros. 
Os outros, as pessoas. Pouco interessa a geografia, o que interessa são as pessoas. O melhor das pessoas, para elas mesmas e cada um de nós, pessoas tão imperfeitas, defeituosas, insatisfeitas, infelizes, derrotadas, frustradas e amarguradas quanto qualquer outro. Os outros, todos, no que de diferente fazem a partir do que é comum a todos.
Num grotesco passeio sofista de Platão pelo inferno de Sartre se veria que os outros são o que afetam todos, pelo comum nos fatos da vida de cada um. Mas, para todos, o fato da vida é inevitável. Para muitos, o fato do outro ter vida é insuportável. Para alguns, tolerável. Para poucos e raros, o fato da vida, tanto a própria, quanto a vida do outro, seria algo, realmente, louvável. Todos igualmente vivos, mas distintamente, vivendo suas vidas. 
Nada tem a ver com o lugar, seja para viver ou morrer, a virtude funciona como um músculo e fortes mesmo são as pessoas que se arriscam por estas virtudes, mesmo quando outras as acusem de viciadas. Na verdade, o vício da gentileza, da modéstia, da humildade, da polidez, respeito e, talvez, nas poucas chances que restam, o exercício de sinceridade, sendo amável com alguém ou, quem sabe, somente a coragem de assumir uma decisão própria, são atitudes incompatíveis com o mundo coletivo atual. 
A fragmentação social da individualidade é a única forma aceitável de virtude. Aceitar ou sustentar uma negativa da vida é intolerável. Onde já se viu negar-se um evento social? É uma afronta, uma ofensa grave, revidada com tantos predicados quanto as nojentas razões que cabriolam nos trapézios do cérebro puderem espetar o vodu social representativo da pessoa autônoma. 
Virtudes vistas por todos e pouco faladas. Vícios não vistos por ninguém e muito fofocados. Além da vida, comum a todos, também a refração ao diferente, ao melhor, ao virtuoso, ao tímido, é comum. Compreensível, afinal, bem mais fácil acusar o diferente de estranho. Aliás, o diferente é estranho mesmo, desconhecido e nem por isso significa que seria ruim. Mas, observar sem agredir, conhecer sem acusar, conversar sem cuspir, talvez seja algo parecido com tolerar. Nada a ver com o lugar ou tempo, nem mesmo as diferenças evidentes. 
A igualdade no resultado de qualquer aspecto da vida, anula o que de mais precioso se poderia existir no tempo de cada um respirando. Igual pode ser o lugar, o tempo, de viver ou de morrer. Igual pode ser a liberdade do outro, na mesma proporção da liberdade de quem a reivindica. Igual deve ser o respeito ao outro, nos atos de quem urra para ser respeitado. Igual é a forma humana. Igual já é a morte. Igual é a regra da justiça. Desigual é a lei atual e tal qual a língua do homem, que sendo igual, pode viver e morrer em qualquer lugar, mas nunca terá a mínima chance de descobrir quem é, afinal, na massa indiferente do rebanho parelho, mugindo no mesmo passo a caminho do frigorífico, que diferença faria ter nascido com vida? 
No fim, os fatos são estes, a lei permite e só sendo muito idiota para fazer a diferença. Idiota é procurar um lugar perfeito para viver. Idiota é exigir um lugar para morrer. Idiota foi Cristo que se ofereceu a Freud para confirmar Gramsci, na consciência misericordiosa única que perdoou os atos inconscientes da massa que o crucificou. 
Ou idiota somos todos por acreditar que fazer a mesma coisa que todo mundo estaríamos fazendo a diferença. Quem sabe não seja a hora de lembrar que cada um é diferente do outro? Que só se aceitando diferente e tolerando a diferença do outro, sem acusar, sem cuspir e sem matar, seria possível viver ou morrer em qualquer lugar? Preste atenção, talvez você seja exatamente aquilo que te faz tão único e singular no mundo. Mas, para fugir da solidão, ainda segue a bobice igual todo mundo, seria medo de que alguém descubra? Ou o pior, que você descubra? Até lá, nos contentamos com o prato feito servido pela mão de alguém “inteligente”, de preferência, afinal, pouco interessa ser você, desde que se pareça com quem é bonito e a tristeza solitária da verdade nunca chegará, especialmente no mundo profetizado de Thomas Gray*:
Since sorrow never comes too late, And happiness too swiftly flies.
Thought would destroy their paradise.No more; where ignorance is bliss, 'Tis folly to be wise.
Talvez o mundo ao redor tenha razão, idiotas são todos aqueles que perdem tempo enfrentando a tristeza que a vida impõe a todos. Sim, fatos tristes e dor são democráticos e atemporais. Mas, num tempo onde todos fazem igual, alimentam-se igual, falam igual e sorriem igual, com festas diárias e prazeres instantâneos, que motivo teria alguém para enfrentar a dor sem dó de si mesmo? No meio de tanta brincadeira, que valor teria um sofrimento verdadeiro e brutal, solitário e soluçado, uma convocação da vida, uma visita desagradável da natureza, um fato cruel?
Para a maioria indiferente, não sei, mas com certeza, os poucos e raros que vivem (e sobrevivem), o desafio de enfrentar um sofrimento verdadeiro, sabem diferenciar bem uma celebração vazia e, por mais que um choro soluçado seja de cortar o coração, no rosto vermelho, quente, salgado de lágrimas, é o lugar ideal do mais forte e verdadeiro sorriso. 
Mesmo porque, dependendo da “turma do bem”, o poema de Gray ficará real e a ignorância de qualquer valor pessoal será uma benção, alegremente compartilhada em rede social, pouco importa estar recatada ou de fio dental, no meio do grupo, fica tudo igual. E a pessoa perece velha, sem nunca saber seu valor individual. Perdendo a diferença que seria fundamental.
E isso vale em qualquer lugar que se vive ou se morre neste mundo. Povos migrando, todos emigrantes nômades fugitivos da hostilidade normal, pouco interessa uma tribo do Oriente Médio, uma vila em cidade do interior do Rio Grande do Sul ou em Nova York, pessoas iguais demais, sem identidade, lugar ou tempo para viverem as próprias vidas. A maioria segue assim, no ritmo de um bando de políticos que se repetem no mesmo caminho, ignorando a si para se manter acolhido no grupo. 
Ninguém sabe quem é, mas sentem desconforto porque Donald Trump sempre será Donald Trump, Megan Kelly será Megan Kelly, eu serei sempre este idiota e você, bom, sendo eu o idiota, combinamos, você, talvez, seja menos idiota que tudo isso que leu até aqui. 
Quem você é, difícil a este idiota saber, mas uma coisa é certa, você não sou eu. O que você descobre em si nas chances verdadeiras de vida que aparecem é problema ou solução teus, a missão é única, individual e, assim como a vida, a ser gozada de forma pessoal e intransferível, seja lá o desafio que precise enfrentar, fará por conta própria. 
O resto, basta aproveitar cada chance, entre um abraço de sinceridade e outro de glamour, para descobrir o que realmente faz o coração bater, o corpo levantar da cadeira e sorriso verdadeiro aparecer. Até porque, nunca saberemos se a sinceridade nos abraçará novamente. Só resta manter a distinção que faz único cada um de nós, afinal, seria muita deselegância a felicidade chegar até você e encontrar outra pessoa, ou pior, ficar rodando no meio da multidão, entre um tocar e outro, sem poder distinguir a pessoa que merece sorrir de verdade.
Pensar não dói.... Já ser um idiota....

*Thomas Gray (1747):
Desde a tristeza nunca chega tarde demais, E a felicidade muito rapidamente voa.
Pensamento destruiria o seu paraíso. Não mais; onde a ignorância é felicidade, 'Tis loucura ser sábio.




Entendimentos & Compreensões
Leituras & Pensamentos da Madrugada
Das minhas eternas discussões e digressões
com o filósofo Michael Chehade
No gelado maio gaúcho/2016
Publicado originalmente no Grupo Kasal 
Konvenios - Vitória - ES.
Arquivos da Sala de Protheus
www.epensarnaodoi.blogspot.com.br