terça-feira, 12 de janeiro de 2016


#SerieSentimentos:

Varal de Penas!

"...O que realmente faz valer a pena
estar vivo, não há filmadora ou máquina fotográfica que registre. Surpresas, gargalhadas, lágrimas, enfim, o que eu sinto, quem eu sou, você só vai perceber quando olhar nos meus olhos, ou melhor, além deles...!"

                                                                                                            Clarice Lispector

A racionalidade prefere não encontrar tempo ou espaço para o encontro com os sentimentos. Se em algum momento essa racionalidade for questionada sobre o que sente, a resposta dela poderia ser: “não faremos isso, não conversaremos sobre isso, não vou lhe dizer que meu coração algumas vezes dói tanto que tenho vontade de arrancá-lo com as próprias mãos”... Não vou lhe dizer que minha paixão acredita que tenho me dedicado mais a outras coisas, e decidiu buscar outro coração... Não vou lhe dizer que tenho ‘rachaduras’... Não vou, pois se eu disser, vou desmoronar, e não me permito desmoronar...!

Além desta racionalidade encontrei uma oficina, uma "funilaria de anjos": Parte do meu espírito continua ligada aos seres angelicais... A outra de tanto misturar-se com os humanos ficou... Muito humana!
Assim quando este “outro lado”, o angelical, teima, nas madrugadas longas de verão em fazer suas incontáveis viagens, acaba perdendo muitas “penas”.
Descubro em uma destas viagens tal oficina. Lá está um imenso estoque de anjos, todos eles esculturados sobre latas, bem pesados... Assim não voam... Não ficam distantes de ninguém! E ao lado de todos estes anjos “de lata”, tem um imenso varal. E quem cuida deste lugar sai à procura das penas que anjos perdem... Limpa-as, enche de pequenas cores e multicoloridas tornadas, vão a este varal para secar.


Lembro que, muitas viagens efetuadas, precisei parar nesta “oficina” para repor muitas penas.
Cada reposição é uma “fincada” na carne... Sim, recolocar penas dói... E quando perdemos muitas em nossas, nem sempre divertidas, viagens somos obrigados a repô-las... Mas dói!
Mas, dói, ainda mais, ficar sem elas. Não pela vaidade da beleza que elas se transformam... Dói por que não conseguimos mais voar tão longe. Nossos espaços tornam-se diminutos... Nossos pousos mais frequentes... E não gostamos muito destes pousos. Geralmente os lugares não são agradáveis... E os seres que encontramos precisam muito de tudo, de outras coisas... Menos de alguém com “penas”... E se tiver faltando algumas tornamo-nos alvo de chacota... E passam a nos chamar de anjos caídos... E caídos ficamos, realmente e literalmente. Não pela falta das penas... Mas por pena destes seres tão primitivos, involuidos, desprovidos de sentimentos mais profundos... Seres que somente tem o coração físico... Não o metafórico e tão necessário... Parece não terem uma alma com cores... Suas auras manifestam um tom acinzentado, esfumaçados. Longe de auras com cores, de seres com alegria de viver, conviver, amar e serem amados.


Por isso, às vezes, precisamos fazer viagens mais longas... Muito mais cansativas.. Encontrar esta "Oficina, esta funilaria" com este imenso Varal de Penas. Ao menos lá encontramos uma espécie de “conserto” para nossas “penas perdidas”. E cada uma delas, que o vento levou até encontrar o chão, sempre temos a esperança que alguma criança, um avô, um ser sorridente com muito coração a encontre, afague-a, coloque no bolso junto ao seu... Assim nos sentiríamos com uma missão um pouco mais completa entre tantas viagens. Assim tocaríamos mais seres e deixariam de ser tão simplesmente humanos e passariam a ter mais humanidades da alma, com as cores e a luz faiscante e ofuscante do espírito. Eis a força de uma vida.
Mas como é difícil encontrar seres com luz própria. Eles precisam de verdadeiras “velas e lanternas”, para ao menos encontrar um caminho... Não o seu caminho... Mas, outro qualquer. Afinal qualquer um serve. E quando encontram um pouco de luz a mais, do que conhecem, servem-se dela para o que lhes falta.

Por isso, sempre que posso, aos finais de semanas humanos, faço viagens altas e longínquas até esta "oficina" e permaneço um bom tempo para repor muitas penas perdidas... Levo muitas e doloridas “fincadas” de pena por pena... Espero o tempo necessário para que elas fiquem parecidas como eram antes... E alço voo! Para novos seres que precisem descobrir sua luz. E não para os que usam a luz alheia para seu beneficio. Assim, como já disse o poeta: quanto mais alto estou, menor pareço aos olhos daqueles que não sabem voar...!
Somente para repor minhas penas... Vou até este varal, mas também fico com muita pena de todos aqueles que não têm penas.

Afinal ter sentimentos profundos é coisa do espírito e não da carne.
O coração metafórico quase sempre é muito mais importante e vital que o físico. Este último torna-se tão desnecessário sem o primeiro que nos tornamos vazios, fracos, opacos... Sem cor... Sem amor!
Pensar não dói... Já voar e amar...

 


Dos Sentimentos & Entendimentos
Inspirado em frases de Reny Martins
E das leituras e pensamentos da Madrugada
Arquivo da Sala de Protheus