segunda-feira, 11 de agosto de 2014


O escritor Antônio Figueiredo
mostra as diferenças dos
jovens dos Anos 50 e hoje:

 
O Que Dizer Aos Jovens Agora...?

 
“... Existe uma vitalidade, uma força de vida, uma energia,
um despertar que é traduzido em ação através de você,
 e porque só existe um de você em todos os tempos,
essa expressão é única...!”

Martha Graham

                                                Debrucei-me por muito tempo para entender o significado da expressão “choque de gerações” e os porquês da difícil comunicação entre elas. Por uma reação defensiva intuitiva e muito humana, quando jovem atribuía todos os males aos “velhos do meu tempo” e agora que sou velho, sou tentado a empurrar essa responsabilidade aos “jovens de hoje”. Contudo, para pelo menos justificar o conceito de que aos jovens “sobra energia”, mas aos velhos deve “sobrar sabedoria” resolvi “dar um tempo” para pensar nisso mais delicadamente.
                                           Uma análise justa requer duas perguntas: O que quando jovem impedia meu diálogo com os mais velhos? O que agora velho dificulta meu contato com os mais jovens?
                                      A velocidade das mudanças culturais e dos costumes nos dias de hoje com certeza é a grande responsável por esse desencontro, como já era na minha juventude e sempre o foi desde sempre, só que então o compasso era mais lento. A não existência de referências em comum afasta o diálogo e aproxima as desconfianças. Há que considerar também a “eterna rebeldia juvenil”.

                                     Lembro-me que, tinha já 7 anos, meu pai trazia para casa dois jornais diariamente: A Gazeta Esportiva e a Gazeta. Foi essa mistura de esportes e noticiário político nacional e internacional, que me iniciou no meu “interesse pela política” e no amor pelo meu Corinthians e tenho hoje a consciência do privilégio, que isso representava, pois muito pouca gente podia dar-se a esse luxo. Jornais eram muito caros na década de 1950 e por isso poucos na periferia tinham acesso à informação e educação política”.
                                    O jornalismo daquele tempo já se encontrava em mãos de grandes grupos editoriais, (Estado S. Paulo, Folha, Diários Associados, (SP) e Jornal do Brasil, Globo e Tribuna Imprensa, (RJ)), muitos dos quais aí estão até hoje, mas imbuídos então do “sacerdócio da informação” com absoluta fidelidade à veracidade dos fatos e por isso gozavam de respeito e prestígio social e político.
                                   É bem verdade, que suas linhas editoriais subentendiam interesses e alinhamentos políticos específicos, ainda que corporativos o que é natural, mas a informação divulgada era comparavelmente igual em todos eles, principalmente no tocante à política internacional, cuja fonte era exclusivamente de agências estrangeiras. Entretanto, quanto à política interna era visível o cuidado no trato de informações comprometedoras às autoridades.
                                   Ainda que a política brasileira tenha sido desde as suas origens altamente oligarquizada, o conceito de “honradez” sempre foi levado muito a sério e à risca e assim a Imprensa sempre foi muito cautelosa e responsável na divulgação de suspeitas e ilícitas, pois vigia então uma Lei de Imprensa muito rígida. Foram vários os eventos em que a afirmação de que “V. Excia é um ladrão/canalha/corrupto”
acabaram em morte dentro do próprio plenário do Congresso Nacional.
                                   Outra característica da Imprensa daquele tempo era sua baixa dependência das verbas da propaganda oficial, um expediente praticamente inexistente e isto fazia com que a isenção do noticiário dependesse exclusivamente da capacidade financeira do grupo editorial. A fidelidade editorial aos leitores era praticamente absoluta, o que emprestava à política matizes ideológicos muito bem definidos e amplos. Até mesmo os “jornais de esquerda” assim procediam e sua publicação era no geral reivindicatória, sem os atuais ataques à idoneidade moral dos adversários políticos.
                                      O jornalismo baseava-se em ideias e ideários e o jornalista era considerado um missionário, por isso foram muitos os que tiveram proeminência política e respeito público. Nem poderia ser de forma diferente, posto que a ética e a responsabilidade e fidelidade à verdade não eram padrões de uma classe e sim da sociedade brasileira como um todo. Assim nos ensinaram nossos pais e avós e isso era o que transmitíamos a nossos filhos e netos. Certamente, ainda que se apregoe que “o mundo é dos espertos”, mantenho a crença de que são ainda os valores transmitidos.


                                   Quer queiramos admitir ou não, segundo o histórico da Republica, foi durante os períodos ditatoriais e de regimes excepcionais em que se buscou combater com mais eficácia os “desvios políticos” no Brasil e se atentarmos melhor, veremos que sempre estiveram na sua retaguarda as Forças Armadas. Isso tem uma explicação lógica, de que nelas prevalece o conceito de que são o último baluarte da “defesa da Pátria” e o ensinamento dos quarteis baseia-se na disciplina do patriotismo e seus valores.
                                 Já o Poder Civil e seus partidos políticos, exceção feita a alguns surgidos decorrentes de golpes institucionais, sempre tiveram ideários difusos e genéricos para a atração do mais largo espectro de participantes e isso implicava em uma “disciplina partidária laxa”, ou melhor, de “hímen complacente”. Todavia, após a Constituição de 1988, (sufragada pelo medo), retornamos à mesma situação de 1945/1964, quando se permitiu a criação de “partidos representativos” de qualquer coisa, na maioria das vezes “representativos exclusivamente dos interesses de seus criadores” e desobrigados de compromissos com o interesse nacional.
                                Entre os partidos políticos hoje existentes no Brasil nenhum deles representa o “novo” na nossa política, apesar de assim aparentarem no seu início. São todos eles exatamente “o mesmo de sempre”. Sem ideário, bandeiras e objetivos, que não o “Poder pelo Poder”.

                                 Vivemos o caos de uma “casa de mãe Joana” política sem qualquer disciplina e “objetivos políticos” e que ainda para piorar permite a criação artificial de lideranças partidárias em novos partidos destinadas a “dividir o butim nacional”, baseado em um regime de coligações, de “deus com o diabo”. Esse, infelizmente tem sido o “legado civil” na organização política e social do Brasil e que nós cidadãos assistimos estupefatos, mas inermes.
                                      Há alguns anos atrás questionei minha mãe, que me havia preparado mal para a realidade e que os valores ensinados fizeram de mim uma “barata tonta” no meio do meu próprio país. Ela calou-se. Entretanto, passado muito pouco tempo, meu filho questionou-me pelos mesmos motivos e eu também me calei, momentaneamente. Não tinha todas as respostas a menos que fizesse novas perguntas. Desde a mais tenra infância somos: por que? e no resto dos dias a vital insistência de repetir um ilimitado: por que?
                                      A nada termos sem o “suor do próprio rosto” foi a condenação recebida nas portas do Jardim do Éden e mesmo porque é essa luta por sucesso que nos diferencia na criação, assim como a de assumir riscos para aprender e desobedecer aprendendo. Conquistamos com isso o direito ao livre arbítrio e com ele o de desenhar os nossos caminhos.
                                     É evidente que um “diálogo entre gerações”, (a nossa e a dos jovens atuais) é dificultado pelos “status” de cada uma. Nós temos a nossa vida resolvida e a deles ainda busca seu espaço em um ambiente cada vez mais acirradamente competitivo. A grande maioria sabe que não conseguirá dar a seus filhos o mesmo que recebeu e não por competência, mas por acessibilidade às oportunidades e nisso muito influi a atual situação político-econômica. O horizonte é sombrio para todos.

                                         Os jovens têm uma vida pela frente para buscar “céus mais azuis”, já os “velhos”, na sua grande maioria, já retirados da vida profissional “rezam” para que a desvalorização da sua aposentadoria não se deteriore mais.
                                         A Nação já esperou por 125 anos pelas diretrizes dos “homens públicos”, em vão. Sempre demonstraram serem “incompetentes construtores” de uma Nação e sua cidadania e por isso só nos resta a todos comungados tomar de suas mãos essa tarefa, dizendo-lhes o que e quando o queremos e para isso só há uma forma. Via Emendas Populares da Constituição.
                                         Vamos dizer-lhes que tipo de República Federativa quer. Como achamos que devam ser eleitos nossos representantes e como poderemos cobrá-los. Que cada brasileiro de qualquer parte do país sinta-se representado e tenha acesso direto regionalmente a seu representante e que se não cumprirem com os objetivos que traçamos, poderemos demiti-los e substitui-los.
                                          “Todo o Poder emana do Povo e em seu nome deve ser exercido” deve ser nosso lema e meta e é o que reafirmaremos perante eles e também é isso o que vamos deixar de herança e responder aos mais jovens se formos perguntados outra vez...
  
Das percepções e pesquisas de
Antonio Figueiredo – Entre Algum Lugar entre a Bahia e São Paulo
Economista, Escritor, Empresário, Militante Apartidário Parlamentarismo e Voto Distrital Puro. Ex - Ativista Movimentos Sociais Católicos/ Metalúrgico/ Estudantil (1961/73). Operário da Cidadania