domingo, 24 de agosto de 2014

A análise política do Brasil atual
por Antônio Figueiredo
na Sala de Protheus:

“... Com Que Roupa...!”

 “...Há duas categorias de seres inteligentes:
aqueles cujo espírito irradia e os que brilham:
os primeiros iluminam à sua volta, os segundos
mergulham-nos nas trevas...!”

Marie Eschenbach
 

                                         O genial Noel Rosa em 1929, então com 19 anos, compôs o samba “Com que roupa”.  Noel foi um crítico mordaz dos costumes e do quotidiano da sua época, como, aliás, todos os artistas populares daquele tempo, o eram. Uma das poucas formas de informação disponível, visto que só a elite possuía receptores de rádio, era através da música, que se tocava nas lojas pelas calçadas das ruas.
                                         Pois bem, por alguma razão inusitada fui conduzido ao debate eleitoral do nosso tempo e a indagação proposta por Noel levou-me a pensar na governabilidade do Brasil após as eleições. Com que “roupa política” se vestirá o próximo Governo?
                                         Uma lição política que o brasileiro não aprendeu ainda e incrivelmente recusa-se a assimilar é a de que o Presidencialismo ainda que quase imperial, pois ao Executivo é permitido dispor dos recursos do Orçamento a seu bel prazer e sem compromisso algum em cumpri-lo e principalmente de prestar contas, (uma peça de ficção), depende do Legislativo para toda e qualquer Reforma com uma pauta de demandas imensas.
                                         Desta maneira e com base nas coligações, que agora se apresentam, vou projetar como se preencheriam as cadeiras do Congresso Nacional e ver como se disporiam as forças políticas. A candidatura Dilma senta-se sobre a Coligação com a Força do Povo composta de PT (88), PMDB (73), PCdoB (15), PDT (18), PP/PROS (60), PR (25), PSD 44) e PRB (10) com 333 dos atuais deputados federais.
                                         A de Aécio Neves da Muda Brasil Coligação sobre o PSDB (44), Democratas (28), PEN (1), PMN (3), PTB (18), PTC (0), PTN (0), PT do B (3) e Solidariedade (21) totalizando 118 dos atuais deputados federais. E Marina Silva da Coligação Unidos pelo Brasil composta de PSB (24), PPS (6), PPL (0), PHS (0), PRP (2) e PSL (0) totalizando 32 dos atuais deputados federais.
                                        Sabemos, entretanto que a “coligação de hoje” é a “traição de amanhã” e por isso vamos considerar apenas os “casamentos estáveis”, onde teríamos PT/PC do B/PDT com 121 deputados, PSDB/DEM com 72 deputados e PSB com 24 deputados, num total de 217 deputados que seguem “orientação partidária”.
                                     Deste modo os restantes 17 partidos, autênticos “bebês políticos”, pois sempre estão no colo de “partidos adultos” e seus 287 deputados são antigos e experientes “mascates da política”. Exclui dessa contabilidade o PSOL (3) e o PPS (6) por “respeito” ao passado ideológico do primeiro e político do segundo.
                                       A análise simplista dessa condição, mais do que corrobora que nenhuma das três chapas terá “condições de governabilidade” sem se utilizar do hábito político tradicional de socorrer-se do grande balcão de “negócios políticos” do Congresso. O PT que tem a maior bancada da Câmara não ultrapassa 17% das cadeiras e no Senado o PMDB com 19 cadeiras representa meras 20%.
                                     Na Câmara a maioria só se fará se o PT “cooptar” o dobro da sua bancada e no Senado o PMDB pouco mais que outro tanto da atual. Ou seja, qualquer que seja a opção terá “governo de minoria”, isso sem a certeza que após a eleição PT e PMDB estarão ainda coligados.
                                   Outro ponto que chama a atenção é a quantidade de partidos representados no CN num total de vinte e cinco, coincidentemente o mesmo número dos “grupos do jogo do bicho”. Afinal a política é para todos e a brasileira, na sua prática, bem que se enquadra entre a leve “contravenção penal” e os “crimes qualificados”.
                                    Comprova-o a quantidade de deputados federais, estaduais, senadores, vereadores, prefeitos e governadores indiciados. Até um presidente escapou de investigação e indiciamento para o “bem da governabilidade”. Toda a “mulher de César” por aqui sempre tem um dos pés no Bataclan e pratica sua “tabela de serviços”. Se não copula, faz ao menos “sexo oral”.
                                    Começamos esta crônica falando de Noel Rosa, mas gostaria de retroceder a 1916 e falar de Ernesto dos Santos, (Donga), que compôs “Pelo Telefone”, a primeira gravação do Brasil segundo registros da Biblioteca Nacional, onde cantava “pelo telefone, o Chefe da Polícia manda me avisar. Que na Carioca tem uma roleta para se jogar”.
                                 Data da Carta do Descobrimento a prática de sinecuras na política brasileira e a escolha do sistema de Capitanias Hereditárias só veio aumentar esta prática. Passou pelos Vices Reinados e até o Reino Unido com a presença de Dom João VI por aqui e com Dom Pedro I e sua “corte portuguesa” consolidou-se.
                                 Tanto o IIº Império, como a República Velha dependia da “oligarquia rural” e da dos “brasis distantes” para governar e com Getúlio Vargas não foi diferente. Tivemos 21 anos de “período de exceção” e por isso temos hoje escassos de 39 anos de práticas políticas mais democráticas, porém mantendo a “velha forma política” da Organização Partidária e o Voto Proporcional.
                                 A capacidade crítica política sarcástica do brasileiro sempre foi notável em todos os tempos e isso não passava “em branco” e a ela eram sensíveis para os políticos, contudo após os Governos Militares, que censurava a Esquerda e agora que “governos democráticos” praticamente censuram a Direita, o brasileiro acomodou-se, (acovardou-se).
                                   O que se pratica hoje não é a sátira de usos e costumes, mas apenas um denuncismo vazio, que coloca em pé de igualdade “todos os lados” sem resultados moralizantes práticos e principalmente “não indutores” de mudança, nem da parte dos políticos e principalmente do cidadão. Tornamo-nos a “pátria do eu sozinho” e o resto, que se “exploda”.
                                   O Brasil que nunca teve uma “identidade nacional” e por isso jamais chegou a uma “vocação nacional” precisa urgentemente investiga-la, descobri-la e adota-la sob pena de esfacelar-se como “território uno”, ideologicamente falando, e então mantendo esse distanciamento de aspirações das muitas regiões desiguais, aceitar como imutáveis as atuais práticas políticas.
                                   A oligarquia política sabe muito bem, que sua manutenção depende da sua capacidade de manter as “aspirações nacionais” diversas e desunidas e que o povo não se reconheça como que participando da mesma nacionalidade. Ser brasileiro hoje é um acidente genético de nascimento e não a convicção de contribuir para o sucesso de um mesmo Brasil.
                                      Das três grandes agremiações políticas fortemente organizadas no Brasil, só PT e PSDB optam pela “luta hegemônica” pelo Poder, enquanto o PMDB simplesmente aguarda a “rodada final” para “solidarizar-se” ao vencedor. Temos ainda nesse páreo o PSB, (Marina Silva, pois Eduardo Campos não era tão competitivo), que certamente por sua “base de apoio” e força da estrutura organizacional será o que terá mais dificuldades de “reunir uma maioria”.
                                   Contudo, o “ideário partidário” brasileiro é sempre muito flexível e sua bandeira pode muito bem ter de um lado uma estátua de Lenin e do outro a Estátua da Liberdade.
                                  Volto a Noel para finalizar e com ele volto com a pergunta: Com que roupa? O manequim que nos tem sido imposto e que usamos disciplinada e estoicamente, (ou cinicamente), teremos que decidir algum dia, se nos serve e é nele que nos sentimos “elegantemente democratas”.
                                  Se a ele nos conformamos, sugiro que pelo menos o troquemos por um mais moderno, como cantava Miltinho nos anos 60, na inspiração de Haroldo Barbosa e Luiz Reis na sua PALHAÇADA “Cara de palhaço, pinta de palhaço, roupa de palhaço até o fim”.
 

Fonte:
Das vivências, percepções e pesquisas de
Antônio Figueiredo – De algum lugar entre a Bahia e São Paulo
Economista, Escritor, Empresário, Militante Apartidário Parlamentarismo e Voto Distrital Puro. Ex - Ativista Movimentos Sociais Católicos/ Metalúrgico/ Estudantil (1961/73). Operário da Cidadania