quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

#Sofá de Convidados Especiais


Amor seco!

 


“...Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado:
pensava que, somando as compreensões, eu amava.
Não sabia que, somando as incompreensões
é que se ama verdadeiramente...!”

Clarice Lispector


Li um fragmento do livro “Água Viva” de Clarice Lispector, depois o reencontrei em forma de crônica no livro “A descoberta do mundo”. Sinceramente, foi a coisa mais tocante que já tive o privilégio de ler. Em “A descoberta do mundo”, a autora dá o título da crônica de “Calor Humano”, ao que me parece mais um conto, que uma crônica.

Rico em efeitos e recursos metafóricos e sinestésicos, esse conto de Clarice Lispector, parece levar ao auge sua engenharia peculiar de reconstruir a linguagem! Luz e cor, calor e cheiro, úmido e seco são imagens e sinestesias, representadas por uma alegorias externas, figuras de elefantes, pátio vazio de escola nas férias, entre outras. Aliás, os animais são figuras recorrentes na literatura de Clarice Lispector. Calor vermelho, secura parada, a secura da pele dos elefantes!

Imagino a mulher, de “Calor humano”, na tarde longa, de calor escaldante. Não o calor vibrante e vermelho do fogo. “Não fazia vermelho”. Era um calor de luz sem cor e parada. E a mulher não transpirava. Ela pensava: se esse calor fosse vermelho como ela o sentia, mas não, era um calor sem vibração e sem cor. Tudo em sua volta era seco. A vida lhe escapava. Ela própria estava esquálida e seca. Se pelo menos ela transpirasse, mas não. “Nada escorria, nada escoava naquele fim de tarde ensolarada”.

Lá fora, somente pássaros de penas empalhados. Tudo tinha cheiro de morte e seus sentidos ficaram embaraçados: Ela estava aturdida, a ponto do calor tornar-se visível. Então ela apertava os olhos para não ver o calor! Mas vinha apesar do esforço inútil a alucinação. Via elefantes grossos e lentos se aproximarem. Eram grossos e secos, de couro ressequido. Eram lentos porque eram pesados. Contudo, úmidos por dentro, de uma ternura quente insuportável. Os elefantes eram difíceis de suportarem a si mesmos, o que os tornava ainda mais lentos e pesados.

Ela pensou: e se eu acender as lâmpadas? Quem sabe assim, precipitaria uma noite que não vinha, não vinha, nunca chegava, parecia impossível. Por falar em impossível, e o amor de sua vida? Amor sem ópio nem morfina, farpa incrustada na parte mais grossa da sola do pé! Farpa que não podia ser retirada com pinça!

A única presença era daquele calor causticante. O resto era somente faltas e ausências. Nem ao menos havia a sede.. Calor com sede seria suportável se houvesse água... Mas só havia a falta de sede. Nem ao menos a vontade de água! “Nada escorria naquele fim de tarde eternizada”. Além do calor, as farpas, sem pontas por onde pudessem ser extirpadas.

Na boca, somente os dentes eram úmidos. Boca voraz, sobretudo de “nada”. Seus olhos abertos e diamantes. No telhado, pardais secos entoavam: - eu vos amo pessoas. A frase impossível! Para a mulher a humanidade era uma morte eterna, sem, no entanto, o alívio de enfim morrer!

Nada, nada morria naquela tarde seca, nada apodrecia.. E as seis horas da tarde, fazia meio dia. Fazia meio dia com o som insistente da máquina de bombear água. Bomba que trabalhava a tempos, pois não havia água na cidade. Nada jamais era tão acordado como o corpo daquela mulher sem transpiração e seus olhos diamantes, parados. E Deus? Não. Nem ao menos a angústia. Não havia grito!

Enquanto isso lá fora, verão extenso como pátio de escola vazio nas férias. Dor? Também não, a não ser a farpa que a incomodava. Nenhum sinal de lágrima. Sal nenhum. Somente a alucinação com os elefantes doces e lentos de couro ressequido, doçura pesada. A secura quente e límpida.

Pensar em seu homem? Não, novamente a farpa sem ponta saliente por onde ser retirada lhe doía o calcanhar! Filhos? Dez filhos dependurados sem se balançar a ausência de vento.

E se chovesse? Mas não. Por puro ódio nem que houvesse água ela tomaria banho. Por ódio, não havia água, nada fluía. Tudo era difícil! A dificuldade é assim, uma coisa parada. Uma espécie de joia-diamante. Lá fora a cigarra maldita não parava de rosnar. E Deus, se compadeceu? Liquefez-se enfim em chuva? Nada.

A mulher pensou nesse momento: - Nem quero. Por puro, seco e calmo ódio, quero é isso mesmo! Quero que não chova. É nessas horas que o bem e o mal não existem. Ocorre uma espécie de perdão inesperado, nós que nos alimentamos de punição, de súbito, o perdão. Não um perdão com julgamento, não confundam com um perdão pós julgamento. É a ausência de juiz e de condenado  E assim, a morte que era para ser uma boa e única vez, continua sendo, sem parar

Enquanto isso não chove, não chove, nada escorre, nada flui. Não existe nem ao menos a menstruação! Os ovários, duas pérolas secas. E ela pensa: -Vou vos dizer a verdade; por seco,  puro e calmo ódio, quero é isso mesmo, quero que não chova!



Nesse momento ela ouve uma coisa. È uma coisa também enxuta, que a deixa ainda mais seca de curiosidade. É um trovão seco. Que vem de onde?  No céu absolutamente azul, nenhuma nuvem de amor.  - Deve mesmo vir de muito longe o trovão. Pensa a mulher.

E é nesse instante que sente um cheiro adocicado de elefantes grandes, ou será do jardim da casa ao lado? È a Índia, invadindo com suas mulheres adocicadas. Veio ao mesmo tempo, um cheiro de cravo de cemitério. Irá tudo mudar de repente? Para quem tinha senão faltas e ausências, de repente veio o cheiro de madeira apodrecendo, veio a noite, cravo vindo de chuva de cemitério? Chuva que vem da  Malásia? A urgência é uma coisa ainda imóvel, mas já tem um tremor por dentro.

Ela não percebe, que o tremor era o seu! Como também não havia percebido que aquilo que a fustigava não era a tarde ensolarada e sim, seu calor humano. Ela percebe que algo, enfim vai mudar, que vai chover, que a noite virá. Mas não suporta a espera de uma passagem e antes que a chuva caísse, o diamante dos olhos se liquefaz em duas lágrimas.
E então o céu enfim se abranda.



Das Leituras, Pensamentos & Entendimentos de minha amiga
Professora Cláudia Ezídgia de Carvalho
Mestrado em Teoria da Literatura e Literatura Comparada pelo IEL UNICAMP
Belo Horizonte – Minas Gerais -