sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

#Convidada da Sala de Protheus:


O Enigma!



“... Não decifre o enigma. Olha o mistério
transluzia o rosto que está sério...!”

Carlos Drummond de Andrade.

Ao ler essas palavras de Carlos Drummond de Andrade no prefácio de Claro Enigma. Interessante notar o paradoxo no próprio título, pois se algo é claro, dentro da lógica, não seria enigmático! Talvez o eu lírico estivesse fazendo uma brincadeira com a palavra “clara”.
Claro de iluminado, não de óbvio!

Talvez diante desse fragmento “não decifre o poema”, qualquer devorador de literatura, por mais pretensioso, recuasse! Mas ocorre o contrário, esse “ser obscuro” de O enigma se sente ainda mais desafiado a se aventurar na tentativa de decifrar o hermético e ao mesmo tempo óbvio poema. Hermético por ser de difícil digestão e óbvio por remeter ao poema anterior que dizia, “No meio do caminho havia uma pedra”. Um exemplo de intertextualidade, na qual os papéis, homem e pedra se invertem.

Mas o desafio ainda instiga o “ser obscuro”, no caso, o leitor em uma teimosia obstinada e já fadada ao fracasso se aventura nessa tessitura do poema, tentando atribuir a ele um significado. Nesse sentido, “O Enigma”, é antes de tudo um meta-poema, um poema que se explica e que teoriza a se mesmo e ao ato de interpretação, ou de desconstrução de si mesmo como afirma o filósofo Heidegger: “Interpretar um texto é desconstruí-lo”. Porém a interpretação é subjetiva e carregada de valores do sujeito leitor, no caso, o decifrador.

A teimosia, no entanto, persiste, torna-se caso de vida ou morte: “Decifra-me ou devoro-te”. Mas ao contrário da esfinge, o poema “O Enigma”, não quer ser decifrado. Não quer ter seu sentido engessado, já que enquanto mistério, ele pode ser milhões de coisa.

Essa possibilidade de ser, daquilo que está encoberto remete a escritora Clarice Lispector, apesar da distância temporal. Para a autora tudo aquilo que ela não conhecia era a sua parte maior e melhor e é com ela, esta parte desconhecida que o mundo se revelaria.

As pedras que antes atravessavam o caminho do eu lírico, agora se sentem assediadas, ameaçadas por esse ser que quer lhe impor um sentido único e verdadeiro, que tenta de forma compulsiva, despi-las de seu mistério, que é o seu maior valor. As pedras são uma alegoria para representar as próprias palavras. Essa imagem da pedra representando o poema, as palavras do poema, foi também usada por João Cabral de Melo Neto, que faz questão de um poema pedra, de difícil digestão, um poema que faz pensar!




Em “O enigma”, tanto as palavras pedras, quanto o leitor se paralisa perante o outro, um com medo de ser decifrado, limitado, engessado e o outro com medo de ser devorado! Devorado pelo fantasma da impotência, porque ele sabe que o processo de interpretação dá margens a diversas significações e que o sentido, conforme Lacan se dá numa cadeia de significantes, não de significados dispersos!

Mas apesar de todos esses argumentos “a coisa interceptante não se resolve, barra o caminho e medita”.  P.243 Antologia Poética Carlos Drummond Andrade!

Para Claudia, a leitura e pensar... Não Dói!
Obrigado prof. Claudia pela aula de crítica literária.




Das leituras, Interpretações e Significados
de Claudia Ezidgia de  Carvalho
Prof. de Língua Portuguesa Rede Municipal de Belo Horizonte, Lic. em Língua Portuguesa pela UFOP, Mestrado Teoria da Literatura UNICAMP
De Belo Horizonte – Minas Gerais – Para a Sala de Protheus
Publicado no Grupo Kasal –Vitória – ES –
www.konvenios.com.br/articulistas