quarta-feira, 13 de maio de 2015


#HistoriasVividas:

 

Toco Cru Pegando Fogo...!”

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Garota você é uma gostosura 

Foi proibida  Pela censura
Sai de perto de mim 

Olhar prá você eu não posso 
Me segura que eu vou ter um troço 

 

Jackson do Pandeiro – Me segura que eu vou ter um troço

 

                                     Em plágio ao que se lia em um cartaz colocado nos bares nos anos 50 e 60 do século XX, esta crônica, (Fiado), é permitida apenas “para maiores de 70 anos acompanhados de seus pais e com os documentos em dia”, pois que é carregada de muitas memórias saudosas e saudades daquele “menor aprendiz”, que corria pelas ruas paulistanas lá pelos anos de 1959 e 1960.

 Ainda que a vida de “boy”, (office e não play), fosse a dura realidade diária de um andarilho maratonista, posto que as linhas de bonde e ônibus eram ligações “centro x bairro” e por se contar apenas com duas linhas de ônibus, (Circular e Estações), que pouco ajudavam a chegar aos destinos que precisávamos ir, havia o fato de que para os “patrões” tudo era perto e não merecia “dinheiro para a condução”.

Contudo, ter-se o “encantamento” de um menino da periferia aos 14 anos e a liberdade de andar pelo “centro da cidade”, que apenas víamos à distância no horizonte, era uma recompensa sem preço, além de ser fascinante, curioso e divertido. Por isso toda e qualquer distração pelo caminho exigia meninos correndo esbaforidos para evitar as “broncas do chefe”.


Como resistir em parar em frente as lojas de disco, que tocavam os últimos sucessos de “rock n roll”, ou então para ver o vendedor de “óleo de peixe elétrico” com sua jiboia enorme, ou o “tocador de realejo” com seu perequitinho, ou ainda o pessoal do Exército da Salvação ou do Fogo Selvagem? Isso sem mencionar as bancas de jornal com seus jornais e manchetes expostas, que sempre nos faziam esticar os pescoços sobre ombros alheios.

O “paraíso da distração” era a Av. São João, afinal era ali que estavam os mais importantes cinemas com seus cartazes enormes, chamando para “Ben Hur”, “Quanto mais quente melhor”, “A Bela Adormecida” e “Os Bravos Morrem de Pé”, enfim todos os últimos sucessos de Hollywood, cuja grande maioria permaneceria em exibição por mais de 1 ano. Além de apresentações da “Mulher Macaco”, que ao final do espetáculo fazia todo mundo sair correndo, ao quebrar as grades da sua jaula.

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 Mas a grande sensação daquele ano foi o Faquir Silki, que em uma tenda no Largo Paissandu, deitado sobre uma cama de pregos e acompanhado de cobras dentro de uma urna de vidro, tentava um dos seus recordes mundiais de jejum. Comentavam as más línguas na época, que na “calada da madrugada” dava sempre um pulinho no Ponto Chic.

Mas quem já ouviu falar de Walter Pinto, Dercy Gonçalves, Nicete Bruno, Bibi Ferreira, Renata Fronzi, Oscarito, Costinha, Simplício, Carvalhinho, Zé Trindade, Colé, Marly Marley, Eloina, Salomé Parisio, Virginia Lane e Lilian Fernandes? Quem já ouviu falar do Teatro de Alumínio, ali em frente onde hoje começa a Av. 23 de Maio no Anhangabaú? Pois bem, era ali que se concentravam as “mulheres de parar o trânsito” e a Meca Paulistana do Teatro do Rebolado. (Teatro de Revista).

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 Era passando por ali, que todo “menor aprendiz” se igualava aos “adultos babões”, que paravam para ver os pôsteres das vedetes “vestidas sumariamente”, além de todos se deliciarem com os nomes provocativos dos espetáculos: Toco Cru Pegando Fogo, Tem bububu no bobobó, Tem chique-chique na Lua e por aí ia.

A verdade é que a saudade sempre tem um propósito e não se presta exclusivamente à relembrança dos “bons tempos” passados e para nos lamuriarmos do “bem” e/ou da “juventude perdida”. Para mim “relembrar” é uma forma de catalogação comparativa entre o “como era” e o “como é” e no que de bom tínhamos e que não conservamos. No que evoluímos, onde estacionamos e o quanto “andamos com os pés voltados para trás”. Amo os meus quase 70 anos, pois hoje nada valeria sem os 25.540 dias anteriores.

Foi graças a eles que reconheço o quanto o progresso cobra, principalmente em termos de “espaços públicos”, pois foi assim que perdemos o Teatro de Alumínio e principalmente a segurança em caminhar por essa “via láctea” do entretenimento. Entretanto, há uma perda irreparável e inconteste. Aquele “enxame de menores aprendizes” que povoava as ruas, hoje os convertermos em “flanelinhas” e “cheiradores de cola” maltrapilhos ocupando faróis e esquinas de ruas “sem futuro”.

O que é feito dos “nossos jovens” de hoje? O que será desses “homens” no amanhã?

 

 

Das Vivências &Observações

De Antônio Figueiredo

Cronista – São Paulo – SP -