quarta-feira, 1 de outubro de 2014


Na semana mais importante do Brasil
a reflexão do escritor Antônio Figueiredo
na Sala de Protheus:

 
Agora, Só Nos Resta VOTAR...
“...O povo de Brasil, só vai aprender a votar,
quando aprender a pensar...!”

Adilson Santos
 
                                                 Apesar dos meus 69 anos esta é apenas a sétima eleição, em que me apresento à urna para escolher o “meu presidente”. De 1965, (aos 20 anos) e até 1969, (quando completei 44 anos), fui “roubado no meu direito”. Eu e alguns milhões de brasileiros ainda vivos e atuantes politicamente da minha geração e remanescentes das anteriores, que morreram sem voltar a votar.
                                                 Talvez muita gente não dê muita importância e provavelmente não tenha a consciência, do que isto representa e que isso já tenha acontecido algum dia na nossa história, da mesma forma que naquela época não sabíamos do ocorrido na “Era Vargas”, (1930/1945).
                                                Então como é de hábito, vamos a um “pouco de saudades” e relembrar alguns dos pleitos em que “não votei”, mas “participei” e dos pleitos que “queria votar”, mas as urnas “não estavam lá” e isso me leva à “minha iniciação” em 1960. Com apenas 15 anos, era o final do Governo Juscelino e cursava o 4º Ano do Comercial Básico, (atual 8ª Série), do SENAC em SP. Sempre é importante situar os fatos segundo seu tempo.
                                                 Ainda que os Movimentos da Ação Católica da Democracia Cristã, (Franco Montoro, Plinio de Arruda Sampaio e outros), já começassem a se evidenciar, essa politização ainda não aparecia nas escolas de 1º e 2º graus. A grande maioria dos nossos professores eram “meros instrutores” e a Política era um “tema anódino”, ainda que pelas ruas presenciássemos uma fervilhante campanha eleitoral. E o tema da Campanha em 1960 era..., a Corrupção.
                                              De um lado a “chapa governista” representada pelo Marechal Lott, tendo como vice João Goulart, que era o “escudo de JK”. Do outro lado a “vassoura higienista” de Jânio Quadros e seu vice Milton Campos. O símbolo de campanha de Lott era uma “espada” e a de Jânio uma “vassoura” e assim aconteceu a batalha da “espada contra o cabo da vassoura”. Para Adhemar de Barros o seu “trevo de 4 folhas” não deu sorte.
                                                Naquele tempo não tinha PESQUISAS ELEITORAIS, revista VEJA e nem HORÁRIO ELEITORAL OBRIGATÓRIO. A pesquisa de intenção de voto era demonstrada pela quantidade de “povo no comício”. As denúncias de escândalos eram feitas diretamente de cima do palanque à multidão e o horário eleitoral era “toda hora” com o candidato no "corpo a corpo" e "olho no olho" com o eleitor nas ruas. Entretanto, os grandes comícios sempre acabavam por ter cobertura radiofônica.
                                               A mobilização de eleitores fazia-se através da convocação em faixas anunciadoras nas ruas dos bairros e a entrega de cédulas, iguais às que seriam depositadas nas urnas. Os comícios eram feitos em praças públicas amplas e sem qualquer preparação especial, que não fosse a colocação das “cornetas de som”, pelas quais, algumas horas antes, já começavam a soar os “hinos de campanha”, gravados em discos de 78 RPM*, sempre com direito a muito chiado.
                                              O palanque via de regra era um caminhão com uma cobertura de lona. Mas o que efetivamente era importante no comício era a “qualidade” dos oradores, pois a retórica era a arma para ativar o “entusiasmo popular” antes da apresentação e discurso do candidato principal. Lembro-me em especial de Emilio Carlos, quem era o “aquecedor” de Jânio Quadros. E, evidentemente, não podia faltar o “bêbado inoportuno” bem próximo ao palanque, para questionar o candidato e fazer rir o povo.
                                            Bons tempos em que a Democracia era praticada e enchia as ruas e que apenas o carisma de um líder era insuficiente para fazer “nascer um candidato”, pois a este sempre caberia “abrir a boca” e convencer o povo, pois não existiam ainda os “marqueteiros”, nem “propagandas photoshop” construtoras de imagem.
                                               Depois disso veio 1965. O Movimento de 31 de Março em 1964 tinha como pressuposto a “faxina política” na “extrema radicalização”, que vinha acontecendo desde a subida de Jango Goulart à Presidência. O “discurso incandescente” de Leonel Brizola, cunhado de Jango, que prometia uma “organização paramilitar”, (“Grupo dos Onze”), cobrindo todo o Brasil com o recrutamento de quase 1 milhão de adeptos, (contas de Brizola), além das Ligas Camponesas de Francisco Julião, como “forças de resistência e suporte” as “Reformas de Base” do governo.
                                              Entretanto, foi à indisciplina hierárquica dentro das FFAA, principalmente dentro da Marinha, (Almirante Aragão e a Revolta dos Marinheiros através do Cabo Anselmo em um discurso escrito por Carlos Marighela), que arrastou o Alto Comando Militar para o “golpe” e que a princípio atendeu aos reclamos da sociedade, pois havia o compromisso de Eleições Gerais Livres em 1965.
                                              Houve intensa mobilização ao redor das candidaturas de JK, (construtor de Brasília), Carlos Lacerda, (remodelador do Rio de Janeiro) ex-governador recente da Guanabara, (Estado criado com mudança do Distrito Federal para Brasília), Jânio Quadros e Leonel Brizola. Contudo, o Comando Militar decidiu-se pela suspensão das eleições e a cassação dos postulantes. Essa foi à primeira eleição, que me roubaram.
                                             Seguiram-se 18 anos de “suspensão dos direitos políticos” do eleitor brasileiro na escolha dos seus Governadores e Prefeitos, (1982), pois até então eram indicados os “biônicos” pelos Governos Militares. Essa “abertura política” fez crescer a eclosão do movimento Direta Já, (1986/9), quando tivemos a última demonstração pública civil de que queríamos voltar a decidir nossos rumos por “vontade popular”, quando milhões participaram em comícios na Praça da Sé, (SP) e Candelária, (RJ).
                                             Hoje queremos uma “Democracia sem povo” e aconchegados no “colo” de um sofá e discutindo as propostas dos candidatos com os “pets” de estimação, pois no mundo moderno, vizinhos não se conhecem e não falam com seus vizinhos de porta, até mesmo em condomínios de apartamentos. É só prestar a atenção aos “grupos isolados” dividindo a “churrasqueira condominial” nos finais de semana.
                                           Muitos podem questionar que este é um “estilo de vida global”, mas vejamos o estilo da Democracia Americana. A apresentação dos candidatos postulantes à Presidência é livre, mas devem passar pelas “Primárias”, isto é, pelo crivo do “eleitor” filiado ao Partido, seja Republicano ou Democrata nos diferentes Estados da Federação.
                                              O vencedor ganha o “voto cativo” desses “delegados distritais” para a Convenção Nacional do Partido, donde sairá o “candidato oficial”, pela contagem majoritária dos votos dos delegados. As “primárias” começam 10 meses antes e a Convenção Nacional dos Partidos é feita a 5 meses da Eleição Presidencial. Ou seja, o debate eleitoral começa prática e oficialmente há quase 1 ano antes das Eleições.
                                               A “força” da Democracia Americana reside na capilarização dos Partidos Democrata e Republicano por todos os Condados e Estados Americanos e no Voto Distrital Puro e Majoritário dentro deles, que é a única maneira em que os cidadãos estão devidamente representados. São permitidos partidos a nível local, mas para eleições nacionais é exigida uma “estrutura nacional”. Em pequenos Condados é permitida a “gestão profissional” de um Prefeito.
                                                O mandato do Senador é de 6 anos e o dos Deputados Federais, (Câmara dos Representantes) é de 2 anos e somente a cada 4 anos coincidentes com a Eleição Presidencial, (ou seja, uma obrigatoriamente é no meio do mandato presidencial) e para concorrer o Representado deve possuir a “cidadania americana” nos últimos 7 anos.
                                                A quantidade de “vagas por Estado” é proporcional à sua população, que é revisada a cada 10 anos pelo Censo Nacional, sendo garantido o mínimo de 1 representante por Estado, mas o Representante nunca pode representar menos de 30 mil eleitores, pois os “Pais Fundadores”, (pais da Pátria) há mais de 300 anos sempre priorizaram a importância da “representação popular” nas decisões do Congresso.
                                                 Todos os Presidentes Americanos desde o início do século passado (exceção a Eisenhower) saíram da Câmara de Representantes do Congresso Americano.
Teríamos algo a aprender com eles?
                                                 Desgraçadamente, no Brasil, nascemos órfãos de “Pais da Pátria” e a minha experiência pessoal, (órfão aos 14 anos) e de milhares de brasileiros para quem sempre foi decretado que, “quem herda, herda e quem não herda fica na merda”, que mesmo assim “subimos socialmente” contra todas as possibilidades e só o fizemos pela “força interna da mudança”. No fundo o  que temos em nada  são explicadas pelos “slogans eleitoreiros”.
                                               Temos mirado na direção errada todos estes anos e as estruturas partidárias dissociadas da vontade dos eleitores, algumas oligarquias centenárias e outras mais recentes, nos enfiam goela abaixo “qualquer coisa” e para isto tem bastado um bom “vendedor de bom brill de mil e uma utilidades”. Temos votado com medo de perder o “muito pouco”, que temos, correndo o risco de perder o principal: nossos direitos democráticos e até a liberdade.
                                              Não se esqueçam nunca: que o Legislativo está lá, como Poder Constitucional Independente para “fiscalizar os Atos do Executivo” e não para “associado” dividir o “butim do assalto aos cofres públicos”.
                                            Vote em quem julgar mais habilitado para o exercício da Presidência, ainda que sob “forte emoção”, mas para o Congresso Nacional “vote com a razão” em pessoas, que vão fiscalizar o uso correto do “seu dinheiro” pago em impostos, para em troca receber “serviços” de qualidade, que são seu direito constitucional e que aos mais desassistidos sejam garantidas as “políticas assistencialistas”. Isto é constitucional do Estado e não “um favor” de Governo.
                                             Converse isso com sua diarista, motorista de taxi, serventes, pedreiros, faxineiros no seu trabalho e condomínio, camelôs nas ruas, centros comunitários nas igrejas ou nos campos de futebol. Seja um cidadão, que protege e luta por seus direitos, entendendo as necessidades dos mais vulneráveis. Caso contrário, passe o resto da sua vida falando mal dos “excluídos”, que se vendem pela Bolsa Família, principalmente os “paraíbas ou baianos” e “nordestinos em geral”.
Eles são os “culpados”.
                                             Ai você poderá pousar sua “consciência tranquila” no seu “travesseiro de penas”, cuja maioria não será de ganso.
Bom voto, cidadão brasileiro!
 

 

*Nota do Editor - 78 RPM (rotações por minuto) eram discos de metal, - também chamados jingles - e tocavam a esta velocidade e que depois foi substituído. Foi utilizado pelas emissoras de rádio até o final dos anos 70.

 

 Das percepções e pesquisas de
Antônio Figueiredo – Entre Algum Lugar entre a Bahia e São Paulo
Economista, Escritor, Empresário, Militante Apartidário Parlamentarismo e Voto Distrital Puro. Ex - Ativista Movimentos Sociais Católicos/ Metalúrgico/ Estudantil (1961/73). Operário da Cidadania