sábado, 11 de outubro de 2014


“Alçou Voo...”
“... Ela era um anjo, e anjos não pertencem a Terra...!”
Caio F. Abreu
 
                                         Quando escrevo isto é um sábado nebuloso, aguardando a chuva que os produtores tanto se alegram... É véspera do dia das crianças que me alegra mais ainda... É véspera de Nossa Senhora Aparecida (que amadamente, na intimidade, chamo de “minha Santa Nega”), a padroeira amada do Brasil.
Confesso não sou religioso. Mas como bom reikiano, tenho uma fé inabalável...                             Poucas coisas me tiram do eixo de minha existência... De minha verdadeira missão enquanto humano... Algumas delas são exatamente ver uma criança chorando... Sofrendo... Foi neste dia que ao abrir meu correio eletrônico encontro uma mensagem dizendo tão somente:
“... A noticia que vou dar é a pior da minha vida... Nosso anjo nos deixou na terça-feira... Alçou Voo...!”.
                                      A pequena e entristecedora noticia vinha de uma amada amiga, cuja irmã – sofrendo há algum tempo da doença mais devastadora que o ser humano conheceu o câncer – Devastadora por que  é como se dissesse: “ ... vou te levar aos poucos...!”.
                                     E assim foi para este anjo lindo. Sim lindíssima. Não a conheci pessoalmente... Mas a sentia. Por sua irmã recebi uma foto dela sorrindo, quando ainda em tratamento, sem cabelos.. Sim carequinha como veio ao mundo, sorrindo parecia brilhar... Estava com uma beleza divinizada tão brilhante que deixava seu belo rosto ainda mais e incrivelmente maravilhoso para quem  olhava aquela foto. Lembro-me de tê-la deixado, a foto, como imagem no computador muito tempo... Para apreciar aquela beleza humana tão esplendorosa... E para lembrar-me das sutilidades e fragilidades de nossa própria vida... O quanto temos que aproveitar cada segundo em que, saudavelmente, reclamamos de qualquer coisa... Não gostamos de coisas simples e queremos o complicado... Não amamos quem está perto e geralmente queremos o que é inatingível... O que está longe.
                                      Peguei-me diversas vezes, interrompendo meus escritos... E como em busca de inspiração olhava para a foto deste “anjo terreno” e sentia sua força... Sua beleza tanto física... Quase me mandando mensagens de seu espírito.. De sua alma pura...
                                      Perdão a pessoalidade... Perdoem-me esta humanidade talvez demasiada, mas, meu pensador preferido dizia que quando estamos assim fragilizados pela perda de um ser tão especial, estamos envoltos em nossa humanidade mais pura (Nietzsche)... Mas fiquei egoistamente arrasado, mesmo sabendo que este dia chegaria... Sabendo?                                
                                   Sim, sem arrogância, mas sua amada irmã e minha amiga de alma sempre me informava como estava aquela a quem senti e a chamava de “anjo terreno”. Olhei para o céu nebuloso de  sábado e não contive lágrimas que teimaram, que foram mais forte que minha pseudo razão para aquele momento... E a frase lida... Parecia-me ter sido dita... Ouvida... Pois ecoava aos ouvidos...
“... Nosso anjo alçou voo...”.
Sim, assim com reticências... Sem ponto... Sem final... E olhando para as nuvens como se a procurasse... Como se eu pudesse vê-la... Voando singelamente... Brincando em meio às nuvens sorridente... Tal qual a foto na tela do computador... Aquele sorriso de menina inocente... Linda... Brilhante.. Agora estava voando... Retornando à sua origem.
                                              O mesmo pensador costumava dizer: “... O gosto de minha morte na boca deu-me perspectiva e coragem. O importante é a coragem de ser eu mesmo...!”. Não foi a minha, mas senti-me como se tivesse perdido algo importante... Algo que nunca tive. É possível? Sim. Aprendi a valorizar e ter coragem de enfrentar todos os percalços da vida, mesmo com muito mais anos que este “anjo”, exatamente pelo exemplo que ela deu em vida... Que ela mostrou enfrentando tal qual guerreira cada passo de sua jornada de jovem mulher, extremamente bonita... E com câncer.. Ela me ensinou que minhas pequenas dores são tão ínfimas que não devem nem ao menos serem reveladas que dirá sentidas ou manifestadas enquanto alguém enfrenta, sorridentemente, algo tão atroz...
“Nosso Anjo alçou voo...!”.
                                                   Certamente esta frase vai ecoar alguns dias em minha mente... Vou olhar para o céu e... Tentar encontra-la dançando entre as nuvens... Com o mesmo sorriso, mas agora sem nada para atrapalhá-la.. Sem câncer... Só perfeição... Como ela... Só generosidade extremada verificada e sentida por toda sua família com sua doença e quem os confortava era ela própria.
“Nosso anjo alçou voo...!”
                                      Vá anjo... Retorne a sua originalidade perfeita... E se puder se não for assim demonstração de minha fraqueza humana... Assim muita imperfeição... Por favor, vez por outra olhe para nós... Só um pouquinho... E, lance através de seu sorriso lindo um pouco de toda tua força... De tua energia divina sobre nós tão pequeninos... Tão fragilizados e na maioria das vezes nos achando com tanta importância quando não temos nenhuma se comparada a luta que deixou como exemplo para cada um de nós.
Continue... Vá... Voe... Não nos esqueceremos de você tão facilmente Vivian.
                                           Voe Vivian... E por favor, novamente, nos ame... Precisamos em meio a nossa pequenez...
                                            Voe Vivian... Seja agora e eternamente o que foi aqui em sua vida terrena... Um Anjo!
Bênçãos... E voe Vivian...
 

Em homenagem a um ser, enquanto humano,
exemplo de luta e de vida... Vivian Gurgel – Pará.