segunda-feira, 6 de outubro de 2014


Eu Sou Desclassificado!


“... O homem é uma corda estendida entre o animal e o Super-homem: uma corda sobre um abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar; perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar. O que é de grande valor no homem é ele ser uma ponte
e não um fim: o que se pode amar no homem é ele
ser uma passagem e um ocaso...!"
Nietzsche

                                 Os dias continuam, no sul, entre o inverno que parece não querer desistir nunca, as chuvas cujas, os agricultores dizem “nunca serem demais”... O florido de uma primavera antecipada... A política dita “nacional” quase uma “coisificação”.
                              Enquanto meus pensamentos perdiam-se neste emaranhado da rica e perfeita natureza e a imperfeição humana, chega um amigo.
Eis algo sempre necessário. De cumprimentos e curiosidades do dia a dia de um sobre o outro o assunto sofre uma pausa...
Meu amigo ergue os olhos para cima, como a buscar algo de significativo e simplesmente diz:
- Eu sou um desclassificado!
                                  A afirmação pegou-me, confesso, de surpresa. Afinal estava diante de um homem que se pode dizer vivido, trocou sua profissão – em nível federal – de altíssimo poder e ganhos, por outra mais inferior, porem que lhe propiciou viver muito melhor-. Tinha além de bela, uma esposa inteligentíssima e companheira em todos os sentidos. Ambos apreciadores de uma saborosa cerveja.
De uma cultura um pouco atípica para seres que encontramos todos os dias, este meu amigo, posso afirmar inteligentíssimo causou-me embaraço ao não saber como continuar sua afirmação.
Pretensiosamente pensando estar ele jogando-me um aforismo, lembrei-me imediatamente de Carlos Drumond de Andrade quando afirmava: “Ninguém é igual a ninguém. Todo o ser humano é um estranho ímpar”.
                                       Enquanto me perdia em alguns pensamentos buscando uma forma de continuar o diálogo. Ele, por sua vez, voltava os olhos para mim, como se esperando um questionamento.
Não o fiz. E ele continuou:
- Meu amigo: Sim, cheguei à conclusão que sou um desclassificado. Não me encaixo em classificação alguma.
                                      Entre estranheza de tão profunda afirmação e uma tentativa vã de encontrar uma ligação com o mundo deste sábio amigo, não me contive e saiu... Automaticamente:
-Explique, por favor... Sem me dar nó no cérebro...
E ele pacientemente continuou.
-Veja bem: Eu não me encaixo em nada do que existe atualmente em conceituação.
Politicamente, não sou esquerda nem direita, prefiro fazer gol de cabeça, metaforizou ele, com um breve sorriso e continuou:... Até porque em nosso amado Brasil não tem esta “coisificação” de esquerda e direita... Só interesses.
                                     Como homem não sou um ser sábio, inteligentíssimo, um filósofo... Mas também não gosto de me encaixar em uma pessoa dita “comum”...
... Como homem não preciso de outras mulheres tem uma que me “atura” (literalmente a relação dos dois é algo de causar inveja de tanto amadurecimento encontrado entre dois seres).
- Como profissional não tenho “títulos” apenas trabalho... Em algo que gosto... E que me garanta uma sobrevivência.
                                      Como homem, novamente, não sou alguém a quem pode-se chamar de bonito, de um verdadeiro gentleman (termo utilizado por ele, mesmo que humildemente, pois é um cavalheiro de fato).
Neste momento penso estar ele em uma espécie de “crise existencial”.
Enganei-me novamente.
Lá veio a resposta mesmo em questionamento algum
                                          Não estou preocupado em nada da existência atual, fora o que faço, os poucos amigos que tenho, minha mulher que não preciso de mais nenhuma outra... Meus prazeres – que é degustar uma boa cerveja – (só toma cervejas artesanais)... No resto da dita sociedade... (faz uma breve pausa) parece-me não haver nenhuma classificação a qual me encaixo.
Então, por consequência Eu sou um “desclassificado”.
                                        Nada do que tem aí de rotulação ou titulação me serve... Não preciso delas... E quer saber a verdade? Nem deles.
O que preciso é de alguns poucos amigos.
                                         Neste momento, ao final desta frase, levanta-se. Pede que eu faça o mesmo e diz:
- Posso te dar um abraço e um beijo?
Minha ação foi também repentina e automática. Levanto-me estendo os braços e ele me abraça fortemente e me beija na face e simplesmente diz:
- Ah, esqueci-me de uma coisa e não sei se isso é classificação: Sou teu amigo e amo você.  Boa noite!
                                          Simplesmente vira-se e sai com seu cálice de cerveja à mão (sim, toma cerveja em cálices especiais para cada tipo de cerveja).
Aquele discurso e a ação daquele amigo deixaram-me com os pensamentos em polvorosa...
Sentei-me frente a minha mesa de escrever... Emocionado... Confuso entre mil buscas que meu “Google” interior não achou resposta nenhuma.
Respiro fundo e chego a uma conclusão:
Também sou um desclassificado. Não sou apegado a rótulos. Não os aprecio. Por isso talvez não os tenha. Prefiro ser... Assim... Um simples ser vivente... Observador... E nestas observações aprender com seres sábios... Vividos... Experientes... E de suas experienciações tirar algo que acrescente a minha ignorância algo de bom... Algo de divino.
Tem razão bom amigo... Sou um desclassificado.

 
Transpirado de meu amigo Amauri...
De minhas interações e compreensões da vida.
Entendimentos, Compreensões e Pensamentos da Madrugada.