quinta-feira, 23 de outubro de 2014


Um pedido especial do
Escritor Antônio Figueiredo
na Sala de Protheus:

COM AÇÚCAR E COM AFETO...

“... Você pode dizer que eu sou um sonhador.
 Mas não sou o único...!"
                                                                        John Lennon

                          Lembro-me muito bem desta canção em sua época e Chico Buarque, ainda que a qualidade da música destoasse muito da qualidade dos seus versos, era o poeta mór da sua geração. Parecia que garimpava no nosso mais profundo aquilo que em nós só era manifesto por um “suspiro” do peito, que mal ousava tentar se explicar.
                         Nos idos de 1968, nosso professor de Português, o Luís, recém saído da USP, nos exigia a análise sintática e morfológica em sala de aula das letras das suas músicas, mas que a ali não se restringia. As aulas sempre acabavam na mesa de um boteco e Chico nos acompanhava e sempre ao final de cada verso, Luís sempre exclamava: Puta que o pariu, Chico...
                         Grande parte do nosso grupo era constituído de meninas e as declamações de Luís, sempre acabavam em um suspiro. Os enormes olhos verdes do Buarque de Holanda eram irresistíveis para elas e “hors concours” para nós, mas todos os amávamos igual e cumplicemente. Elas aos “olhos” e nós aos “versos”. Ah esse “coração feminino”, que nos vicia em “açúcar e afeto”!
                            Neste domingo os eleitores brasileiros estarão se apresentando às urnas para uma das eleições mais importantes desde o Movimento DIRETAS JÁ e talvez a mais virulenta dentre as que me lembro de e isso não me assusta. Não vejo a Democracia em risco por isso. Explico: Todo e qualquer movimento de aprimoramento se faz sob atrito e calor.
                             Tudo na humanidade começou com a utilização da pedra. Este embrião tecnológico dotou-nos de ferramentas e armas de “pedra lascada” e isto fez de quem fragilmente se expunha no meio da “cadeia alimentar”, tornar-se a espécie mais adaptável e de sucesso dentre todas as espécies. Nada mais apropriado, que uma “democracia mesozoica” se utilize da mesma tecnologia para começar a subir seus degraus evolutivos. Isso é o que tem acontecido na prática e discussão política atual.

                              Na “fase seguinte” talvez comecemos a utilizar um “moinho de pedra” ou de “roda d’água”, que é composto de 2 pedras circulares muito imperfeitas lavradas à mão, ainda que perfeitas à visão. Só o uso as ajustará e fará com que delas se extraia a “melhor farinha”. A parte superior é fixa e tem um buraco por onde caem os grãos. Já a pedra inferior é a que gira e é a sensibilidade do moleiro, que ajusta a distância entre as pedras.
                               Isso quer dizer, que se estiverem ousadamente próximas demais a princípio se comerá farinha com muito pó de pedra, correndo-se o risco de “bater pedra”, isto é que as mós se partam. Se estiverem cautelosamente distantes demais se comerá uma “canjiquinha” grossa demais ou então “nenhuma farinha”. Por outro lado se a força da água liberada for excessiva o produto final será uma “farinha queimada” e se for pouca, pode até parar o processo de moagem.
                            O mesmo acontece na lapidação de uma gema. O objetivo é obter-se o máximo da pureza e brilho e para isso tem que se retirarem os excessos. Pois bem, ouvi de uma comentarista política de larguíssima convivência em processos eleitorais, que a despeito de tudo tanto o PT, quanto o PSDB são o “que de melhor” o Brasil conseguiu construir nestes nossos tempos. É o “moinho de pedra” da política brasileira.
                            Não são feitos da melhor pedra e tampouco no seu funcionamento nos tem dado o melhor das “suas farinhas”. Talvez por serem tão próximos é que tentam mostrar-se tão distantes. A diferença talvez esteja no “volume d’água” que os impulsionam. O PT sempre se alimentou das camadas mais embaixo da pirâmide social e o PSDB da parte mais acima.
                             A qualidade da “farinha democrática” dependerá de como nos vestirmos neste domingo. Se cobertos das peles das nossas presas/predadores abatidas nessa “caça política”, ou se de “linho branco” pacificador, fruto do trabalho conjunto de uma coletividade, não mais nômade de caçadores extrativistas, mas de cidadãos livres agricultores da “semente democrática”.

                           Na realidade vamos necessitar neste domingo, que os espíritos estejam desarmados e se retome o espírito de unidade para que o Brasil possa encontrar as soluções para avançar no caminho das premissas constitucionais de liberdade e igualdade. Esse desafio em uma “nação continente” jamais se realizará pela vontade exclusiva de um presidente, mas somente pela vontade de um “povo inteiro e uno”.
                            Há 80 anos fez-se no Brasil uma campanha de saúde pública para que “Jeca Tatu calçasse botinas” para combater a verminose e o “bicho do pé”. Hoje o que necessitamos é que o “Zé Nordestino”, (não esquecendo os mineiros da “zona da SUDENE”) e o “Zé Nortista” calcem as “botas de sete léguas” da inclusão social da Educação e Saúde, pois não podemos querer que todos “discutam igualmente” o futuro do Brasil estando as coisas como hoje ai estão.
                               Antevejo o dia em que todos os brasileiros calçarão as mesmas “botinas da igualdade digna” marchando para as urnas, quando os sulistas também lutarão pelos direitos dos nordestinos e nortistas e os nordestinos e nortistas conscientes de seus direitos estarão lutando não pelas “migalhas” da mesa da cidadania, mas por sua merecida “fatia de pão”.
                              Que não seja mais a voz de um “salvador da pátria”, (ou de si mesmo), que nos emule a buscar o futuro. Mas sim a consciência cidadã de que a “igualdade constitucional” é um direito a ser perseguido e conquistado, porque somos todos “filhos da mesma mãe” e gerados por um “pai de todos” e nos livremos definitivamente dos “pais dos pobres”, que só distribuem a “miséria”, pois é dela que se limentam e dela tiram votos.
                             Todas as eleições e manifestações políticas das quais me lembro, sempre foram muito mais vestidas pela emoção do que pela razão. A emoção é a única reação humana coletiva que efetivamente provoca mudanças e neste quesito sempre foi a mulher a responsável por seu despertar. Impossível não se consternar ante a visão de uma mãe africana e já exaurida de forças e músculos amamentando seu bebê, ou uma mãe palestina carregando seu filho ferido após um bombardeio.
                             Uma imagem forte que guardo na memória, que vi pela televisão, é daquela menina vietnamita, hoje uma grande propagandista dos DDHH, correndo nua e toda queimada por uma explosão de bomba de napalm. Porém, das mais fortes são as que vi, pessoalmente, milhares de vezes, de mães retirantes alimentando seus filhos em uma cuia com um caldo ralo de leite e farinha de mandioca. A condenação à morte pela fome é a mais sádica sentença de um povo, que se diz civilizado.
                                 Entretanto, a imagem feminina que quero ver neste domingo não é a do choro e nem da desesperança, mas sim a da altivez e da certeza de quem olha em primeiro lugar e acima de tudo, para aqueles que a cercam e a quem deve proteger. Não tenho a ilusão de ver nas filas das urnas garbosas senhoras e senhorinhas vestidas com vestidos de laços de fitas, chapéus e sombrinhas, mas, ainda que com “sandálias havaianas”, a sua elegante vestimenta seja a dos seus mais “ambiciosos sonhos de igualdade”.
                              Uma eleição não se decide pelos mais esclarecidos ou pelos mais necessitados, mas sim pela confiança, que um dos candidatos passar ao eleitorado. Aquele que melhor falar ao “coração” das pessoas e que despertar o “real sentimento de mudança”. Isto se traduz em “olhar para o futuro”. O passado não se muda mais...
                               Eleitor: vote “com açúcar e com afeto”, ainda que esta receita não esteja no livro da Dona Benta. Eu sou aquele menino com olhos fixos na vovó com um birote no cabelo, mas também com um olho naquele lindo bolo.... Da DEMOCRACIA.
Lembre-se que assim encerra nosso hino: Pátria amada, BRASIL...

 
Das percepções e pesquisas de
Antônio Figueiredo – Entre Algum Lugar entre a Bahia e São Paulo
Economista, Escritor, Empresário, Militante Apartidário Parlamentarismo e Voto Distrital Puro. Ex - Ativista Movimentos Sociais Católicos/ Metalúrgico/ Estudantil (1961/73). Operário da Cidadania