terça-feira, 28 de outubro de 2014


Psicanálise Política!
"...Não se cogita a repressão total das
tendências agressivas do homem:
o que podemos tentar é canalizar
essas tendências para outra
atividade que não seja a guerra...!"
 
Freud
            
                                    Talvez “Esquerdo Caviar” (livro do Rodrigo Constantino) seja um título exagerado e provocativo demais, quem está no comércio sabe que ninguém come a casca da laranja, mas é ela que garante a carona da fruta para a casa do consumidor. O apelo comercial é evidente, assim como eficaz na instigação, talvez esteja fazendo muita gente coçar a cabeça na livraria, especialmente a turma do senso comum barulhento, que adora só um lado da bibliografia, mas se diz defensor da liberdade e da diversidade.
                        Quem se leva minimamente a sério pouca importância dá ao rótulo, só interessa o recheio, mas nada impede se valer da curiosidade frágil do ser humano para fazê-lo pensar, especialmente sobre si mesmo. Ao se discutir ideias, há necessidade de marcar território, na impossibilidade de imitar os cachorros, usa-se o mesmo marketing barulhento que garantiu a contaminação intelectual no mundo, cujos reflexos vão, desde as sociedades tidas, tradicionalmente, como conservadoras, até as relações pessoais básicas (filhos e pais, marido e mulher, irmãos e outros...).
                              Marketing é provocar e fazer pensar, filosofia mercantilista do título de autoria do economista escritor, mas também muito bem absorvida pelo grupo Porta dos Fundos, que hoje colhe os frutos (notoriamente lucrativos) da liberdade de expressão ainda existente no Brasil, apesar da vigilância ostensiva do senso comum.
                           “Esquerda Caviar” ofende somente quem quer ser ofendido. Alguns esquetes da Porta dos Fundos, também ofendem, mas somente quem quer ser ofendido. Ambos se valem da liberdade para provocar ideias, um, na discussão política, outro, na comédia, ainda que ambos os ramos da filosofia andem entrelaças desde a origem, na Grécia antiga.
                          Provocam mudança de sentimentos e comportamentos, exigem energia intelectual e devem ser vistos também como eventos psicológicos. Aliás, psicoterapia nada mais é do que uma relação política de inoculação filosófica com fins terapêuticos.
                         De qualquer forma, parece que o admirável, criativo e talentoso ator Gregório Dudivier e o já celebrado ator Herson Capri, deixaram-se picar pela provocação, ofendidos, adjetivam os debatedores, seja lá quem fossem, ainda que jurem não usar o mesmo artifício provocador nos seus esquetes ou espaços na mídia.
                       Entretanto, justiça seja feita, na coluna do dia 20 de outubro, na Folha de São Paulo, apesar da perversa referência ao agressor da Luana Piovani (usando um nome próprio como adjetivo), fato repetido no dia seguinte pelo mais experiente Herson Capri no O Globo, aparentemente, existe uma centelha de evolução psicológica nos admiráveis atores.
                        Não precisa ser muito dado à política para verificar que existem duas correntes de esquerda dominantes no mundo desde o final da Segunda Guerra Mundial. A contaminação das ideias socialistas/comunistas no meio intelectual foi crescente e muita gente boa usou da sapiência para evoluir na discussão das mesmas ideias.
                      Por conta do resultado do conflito, alguns passaram a reconhecer que certo nível de conservadorismo é essencial para a tal justiça social. A conservação da democracia com instituições de Estado independentes, poderes equivalentes e instrumentos fiscalizadores entre si, com representatividade popular, passou a serem acolhidos como garantia da liberdade individual, assim como esta uma das formas mais eficazes de crescimento econômico, onde as relações de comércio fundadas na livre iniciativa são meios civilizatórios, pacificadores e promovem a tão buscada justiça social (Adam Smith).
                      Por outro lado, tem uma esquerda parada no tempo. Ela ainda acredita que a política começou com Rousseau e todas as teorias de Marx só comportam uma interpretação. Ainda que nada do que se revela coerente na teoria tenha oferecido reflexos práticos nos grupos sociais que passaram pela experiência. Fato estanque, especialmente com a relativização das instituições da República, da livre iniciativa econômica e individual, em favor do bem comum igualitário, definido por um grupo seleto que nivela e submete os indivíduos a um “pensamento coletivo”.
                   Naquela, a psicanálise política forçada com o advento da Segunda Guerra Mundial, provocou autocrítica e confronto das próprias deficiências como uma forma de aprendizagem e evolução, amadureceu a ideologia. Nesta, simplesmente aceitar o fato de que, não fosse o “ultra” conservador Winston Churchill, talvez o oeste americano estivesse falando japonês e o leste alemão, parece uma heresia digna da fogueira. Mas, apesar da façanha política de colocar no mesmo ambiente Roosevelt e Stalin, Sir Churchill prontamente deu posse ao adversário trabalhista nas eleições havidas após fim da guerra, ou seja, garantiu a democracia com alternância de poder, ganhou a guerra e foi derrotado nas regras que defendia, sem mágoa ou ressentimento.
                 Um lado da esquerda aceitava a aproximação com os liberais conservadores, especialmente quando se tratava de economia, enquanto outra permanecia irredutível na intervenção estatal mais ampla. Ou seja, um lado entendeu as mudanças do mundo, amadureceu, reconheceu alguns equívocos e passou a lutar também por instituições mais sólidas, menores gastos estatais e inclusão social através dos mecanismos de mercado, com interferências pontuais para manter o equilíbrio entre as relações e as contas públicas, cuja função é promover o bem-estar social. No Brasil, cartilha do FHC, nos Estados Unidos, todos democratas desde Roosevelt até Obama (não por acaso, todos de esquerda).
                    Já, a “outra esquerda” se nega a rever conceitos, afinal, crescer dói, quem se lembrar da adolescência sabe. Permanecem revoltados contra nem bem sabem mais o quê, precisam do conflito para ter consistência retórica, quando chegam ao poder, na falta de quem ferir, sobra para as instituições do Estado, contaminam os poderes independentes, impõem condutas igualitárias sob o pretexto de luta social, pervertem a ordem e a democracia. Ou seja, típico comportamento autodestrutivo do adolescente que vai passando da idade sem confrontar as próprias deficiências e fugir das responsabilidades. O pior, usando ainda o discurso da tolerância para impor sua intolerância à liberdade individual.
                     Triste, mas acontece e, num país com eleições a cada 2 anos, a democracia se transformou em masturbação política raivosa que se alivia na chance do combate com inimigo existente, nessa acepção, a Venezuela ainda é uma democracia, onde só um lado goza o prazer ganhar a eleição e governar.
                Mas justiça seja feita, a esquerda madura consegue discernimento para reconhecer que Aécio é tão de esquerda quanto Dilma, outra parte não consegue nem ver que Obama é de esquerda, estes ainda darão trabalho aos seus terapeutas. O Gregório Dudivier e o Herson Capri nem tanto.
                   Na psicanálise política, ainda que o processo terapêutico seja gradual e lento, o processo de amadurecimento e confronto com as próprias concepções equivocadas exigem alguns passos básicos. O primeiro é descobrir a origem e externá-la. Talvez os fantásticos artistas nem tenham terapeutas formais, afinal, dificilmente aceitariam ajuda de um profissional LIBERAL, talvez um médico cubano os atenda. Mas o fato é que os espaços que ambos ocupam na mídia, quando abordam de política, talvez estejam promovendo resultados psicoterapêuticos interessantes.
                      No texto confessional de ambos, resta confirmado o diagnóstico do Dr. Luiz Felipe Ponde (...) na adolescência é natural a rebeldia e qualquer teoria revolucionária é adequada para a mente confusa em formação (...), coisa que parece que Herson ainda não ter ultrapassado na sua ideologia política, quanto ao Gregorio, talvez pela idade, a confissão oferece ainda mais detalhes ao divã do leitor, refere um encontro com FHC na residência de sua mãe, onde esta teve um comportamento repressor com a minoria segregada, diga-se, o filho, simplesmente por este não estar de acordo com a formalidade do momento. Pobres meninos, que hoje confessam os traumas ainda não superados, aliviam a revolta adolescente e, na fase seguinte, talvez sejam capazes superar a violenta mácula ideológica provocada, um pela mãe e outro pela fuga de Jango.
                       Quem sabe até descobrirão que existe uma esquerda madura no mundo, que permite debate de ideias; que o adversário político não é inimigo; que o Estado Democrático é respeitado; que as instituições básicas do ente público são conservadas para o bem comum e que a liberdade individual é muito mais compatível com bem-estar social do que qualquer outra ideia igualitária.
                       Parabéns aos atores, pelos textos identificaram a origem da imaturidade política, talvez se a mãe fosse liberal, respeitaria a liberdade individual e valorizaria muito mais a companhia do filho do que a casca que o revestia, mas por hábito raivoso da esquerda, reprimiu com energia a atitude infantil, colocando-o ainda mais à esquerda que ela mesma. Talvez se aquela esquerda raivosa tivesse tomado o poder quando Jango saiu, hoje seríamos Cuba e ambos estivessem sem liberdade expressão, pelo menos ficariam livres de expor suas fragilidades pessoais.
                           No entanto, pela liberdade, a centelha de evolução, amadurecimento psicológico da ideologia política acendeu, ainda que tímida. É o primeiro passo da caminhada terapêutica que terão pela frente, talvez um dia se descubram discutindo ideias sem egocentrismo, nem mesmo se valer do coitadismo para externar suas posições políticas e fique menos evidente a falta de maturidade política.
                            Não só para os atores, mas também para essa esquerda agressiva do PT que se nega a reconhecer as deficiências (arrogância) e nem mesmo aprende com as virtudes (esquizofrenia), onde o Sr. Luís Inácio foi eleito com o discurso do “Lulinha paz e amor”, governando com empatia e boa vontade até de adversários políticos, mas cujo comportamento se revelou um engodo e nem ele consegue mais consegue se identificar no narcisismo reinante na sua personalidade, mas aí o caso exige tratamento psicoterápico drástico, com baixo risco de recuperação.
                              E, na falta de um verdadeiro liberal com eco político e social para moralizar essa bagunça, vimos a disputa para ver qual dos candidatos é mais de esquerda, valendo-se da ignorância coletiva para que sejamos obrigados a votar em quem, talvez, seja a esquerda madura.

 

Entendimentos & Compreensões de um Brasil Atual
Dos meus diálogos com o Jurista Michael Chehade - RS -