terça-feira, 26 de março de 2013

" Perdão Nordeste - Somos Maus Brasileses -!"




“... De todas as presunções ridículas da humanidade,
nada ultrapassa as críticas feitas aos hábitos
dos pobres, por aqueles que tem casa,
estão aquecidos e alimentados...!”

H.Malville

Vocês que fazem parte dessa massa,
Que passa nos projetos, do futuro
É duro tanto ter que caminhar
E dar muito mais, do que receber.
E ter que demonstrar, sua coragem
A margem do que possa aparecer.
E ver que toda essa, engrenagem
Já sente a ferrugem, lhe comer.
 - Zá Ramalho


Ao menos a semana trouxe um pouco de sol, em uma das manhãs da semana, depois de muitas com chuvas e temperaturas que encerraram fevereiro com 15°.
Coisas do Rio Grande do Sul.
Ao dirigir-me ao carro, no estacionamento, aborda-me um homem jovem, completamente carregado de mercadorias (de todos os tipos – carteiras, cintos, capas para banco de automóveis entre outras bugigangas), dizendo:

 -Senhor, não esta precisando de alguma coisa?
Sendo gentil puxei conversa dizendo:

           - Olá amigo, sotaque do nordeste, o que fazes aqui nestes frios e olha que o inverno nem começou. Deveria estar na terra do sol.
Ao que ele me respondeu, baixando a cabeça, quase que envergonhado:
          - Senhor, sou da Campina Grande, Paraíba.
Exaltei-me interrompendo-o:
          - Que maravilha pertinho da Capital,  tenho muitos amigos na Paraíba e adoro o nordeste.
Ao que ele, enfático, respondeu:
          - É senhor, mas lá a seca não nos dá o que comer e vindo para cá eu garanto o sustento de minha família.
Interrompi-o, quase que enfaticamente:
           - Mas amigo vocês tem um dos maiores contingentes de políticos no Congresso...

Ele me interrompeu com certo olhar de tristeza dizendo, com a voz um pouco mais baixa.
          - Senhor, não temos políticos, eu não voto. Lá nos temos donos...

Aquietou-me. Emudeceu-me. Comprei uma carteira, qualquer coisa. Penalizado, entristecido comigo mesmo.
Ele se afastou sorrindo e agradecendo.
Eu olhei um bom tempo para aquela carteira em couro, e a música de Zé Ramalho, automaticamente veio-me a cabeça:

Eh, ôô, vida de gado
Povo marcado, ê
Povo feliz

Ele se afastou sorrindo, feliz. E eu entristecido, como a perguntar-me:

- O que continuamos fazendo com o Nordeste? Porque agimos como se fosse outro país? Meu Deus, não nos importamos em nada com todo o sofrimento, de nossos irmãos, com todos os seus flagelos, no nordeste, há décadas... E eles estão sendo sorrindo... Eles estão sempre felizes.
-O que há conosco?
No que estamos nos transformando?

A frase dita por George Washington veio-me à cabeça:

“... Que seu coração tenha pena da aflição e a angústia de todos...!”
Pena? Eu tenho. Mas é um sentimento pequeno, pobre. É tudo o que posso fazer?

Bilhões para obras da transposição do Rio São Francisco e nem na metade está; Bilhões do orçamento nacional todos os anos; Milhões e milhões saem dos cofres nacionais para obras contra a seca: poços artesianos e muitas outras coisas.
E aonde vai?

Ficou as ultimas palavras do vendedor, ecoando na mente:
“... nós não temos políticos; Nós temos donos. Eu não voto!”

Voltei para casa. Hora do almoço. Confesso: abri a geladeira e a fechei novamente. Segurei o choro, gostaria de transportar aquela geladeira para o sertão nordestino, como nos filmes de ficção. Não tenho esse poder. Mas lembrei de que posso escrever, e posso fazer outros brasileses pensarem também.

Imediatamente lembrei-me da frase de Dom Francisco Austregésilo de Mesquita quando afirmou:
 “...Com o povo passando fome é mais fácil comprar votos. Os políticos não têm interesse em resolver o problema da seca...!”

Você que esta lendo isso, é brasiles, tem casa, comida e, principalmente, água, ajude-os a levantar uma bandeira e vamos ajudar este “povo marcado, este povo feliz” e admirável, que não é um gado novo, corrigindo o título da magnífica música de Zé Ramalho. Se somos irmãos, faremos algo. Chega de ficar somente olhando e escutando baboseiras.


O povo, foge da ignorância
Apesar de viver tão perto dela
E sonham com melhores, tempos idos
Contemplam essa vida, numa cela
Esperam nova possibilidade
De verem esse mundo, se acabar
A arca de Noé, o dirigível
Não voam, nem se pode flutuar,
Não voam nem se pode flutuar,
Não voam nem se pode flutuar.

Cantem-na. Mas, por favor, pensem... Não dói!”

Mas para os nordestinos, vamos fazer algo mais. Por Favor!


Entendimentos & Compreensões
Publicado no sitio do Grupo Kasal – Vitória – ES -  em 22.03.2013
http://konvenios.com.br/info/Artigos.aspx?codAutor=117