terça-feira, 7 de julho de 2015


#PreconceitoNao:

 

LUTA DE MULHER É TODO DIA É LUTA DE MULHER

 - SOBRE PRETAS E PARDAS -


“...Uma das lutas contínuas da civilização é contra

a indiferença, porque homens e mulheres não são

especiais e existem às dúzias por aí, a gargalhadas,

como bonecos de cera sem graça....!”

 

L. F. Pondé

 

Há alguns dias fiz uma pequena reflexão sobre a luta diária da mulher. Não tinha conotação feminista, mas, falava da luta do universo feminino e seu cotidiano. Ao final do texto disse que não havia falado das negras, apesar do texto falando do universo feminino certamente falava de nós. Mas, quero fazer alguns destaques sobre a luta diária da mulher negra no Brasil a partir de algumas leituras que tenho feito.

Como por exemplo, o mapa da violência contra mulheres, a morte materno-infantil, população carcerária, pobreza e miséria, o crescente número de famílias chefiadas por mulheres, aumento da participação na criminalidade, hipersexualização e toda sorte de desrespeito.

 Segundo dados recentes sobre a população carcerária no Brasil estima-se que hoje tenhamos por volta de 500 mil presos (outros falam de 700 mil), destes, 14 mil são mulheres, houve um aumento de 74% de encarcerados no Brasil, entre  as mulheres houve um aumento de 146% de encarceramento, o perfil das encarceradas é: possuem baixa escolaridade e "Dados do Ministério da Justiça mostram que o perfil das mulheres presas no Brasil é formado por jovens, dois terços do total têm entre 18 e 34 anos;  são negras e das mulheres encarceradas hoje 45% são pretas ou pardas. "


Sobre a saúde feminina mulheres negras tem 6 vezes mais chances de vir a óbito no parto. "(...) As taxas de mortalidade materno-infantil entre a população negra são superiores às registradas entre mulheres e crianças brancas. Os números mostram que 60% das mortes maternas ocorrem entre mulheres negras e 34% entre mulheres brancas. Já na primeira semana de vida, a maioria das mortes é registrada entre crianças negras (47%) entre as brancas, o índice é 36%." Um dos fatores apontados para esse alto índice de mortalidade entre as mulheres e crianças negras, seria o racismo institucional, que levou a SEPPIR a elaborar uma campanha sobre o tema, além de um curso de sensibilização pelo SUS.

Dados da saúde apontam que mulheres negras fazem metade das consultas de pré-natal que as mulheres brancas, além de receberem um atendimento precarizado no momento do parto, os dois fatos tem levado a um índice de mortalidade alarmante. Há relatos de mulheres negras de que durante o pré-natal são tratadas com descaso, “às vezes nem tocadas” e durante o parto são alvo de maior violência obstetrícia e negligencia.

A alta mortalidade dos homens negros tem levado as mulheres negras a serem chefes de família, a baixa escolaridade as levam a uma menor participação do Mercado de Trabalho: "Dessa forma, a taxa de atividade varia entre 72,7% entre amarelos e indígenas, 74,1% entre as pessoas negras e 75,8% entre as pessoas brancas.", principalmente o de carteira assinada: "Na análise por cor/raça, verificou-se que a proporção de pessoas pretas ou pardas em trabalhos formais é consideravelmente menor que a da população de cor branca. No caso das mulheres negras essa proporção é ainda menor. Somente 47,3% das mulheres pretas ou pardas ocupadas estão em trabalhos formais, percentual que se reduz para 34,6% na Região Nordeste."


Desta maneira as mulheres negras e pardas engrossam as filas das trabalhadoras informais: diarista domestica sem carteira assinadas, camelos, ambulantes, entre outras atividades. Um lado perverso desta situação é que tendo a mulher que assumir a provisão da casa, a filha mulher assume o trabalho doméstico infantil, mesmo sendo mais nova que os irmãos homens. O trabalho doméstico infantil leva a evasão escolar e também a gravidez e a união precoce como forma de “escapar” da responsabilidade de ser dona de casa e mãe dos irmãos.

A baixa escolaridade, o subemprego ou emprego informal leva a miséria e pobreza: "A análise da pobreza com base em desigualdades de gênero e cor/raça demonstra níveis de pobreza muito elevados entre a população negra em geral, com piores níveis entre as mulheres negras. As pessoas negras com rendimentos familiares per capita de até ½ salário mínimo são 38,9%, uma concentração de pessoas muito acima da média nacional. Em números absolutos, há, aproximadamente, 37 milhões de pessoas negras entre os 55 milhões de pobres. Entre as mulheres negras, 39,8% delas estão em situação de pobreza." Ou seja, no Brasil a pobreza tem cor e gênero bem definidos.

A situação de miséria e pobreza que leva ao subemprego ou ao emprego informal gera um alto índice de negras e pardas analfabetas, analfabetas funcionais ou de baixa escolaridade, a maioria não passando das primeiras series do ensino fundamental. "Na educação, por exemplo, as disparidades nas taxas de alfabetização e escolaridade entre mulheres negras e brancas são preocupantes: 90e 83% para as brancas e 78% e 76% para as negras, respectivamente."


A condicionalidade de educação do Programa Bolsa Família e a política de cotas para negros e pobres tem lentamente mudado esta situação, aumentando a escolaridade das meninas e jovens negras e também proporcionando sua entrada no Ensino Superior, até mesmo em profissões onde eram totalmente banidos: medicina, engenharia, odontologia, arquitetura, entre outras que se destinavam a estudantes de classes mais abastadas.

Quanto a Violência de Gênero as mulheres negras são as maiores vítimas da violência doméstica. Segundo os dados apresentados no Mapa da Violência, em 2010, morreram 48% mais mulheres negras do que brancas vítimas de femicídio, diferença que vem se mantendo ao longo dos anos.


O quadro não é nada bom. Para além dessas constatações que podem ser verificadas nos sites abaixo, temos ainda os estereótipos que permanecem na sociedade, como da negra e da mulata hipersexualizadas, objeto de fetiche de homens brancos e do turismo sexual e nesse caso, a exploração sexual de meninas negras e brancas também é alto.

A televisão e outros meios de comunicação ainda persistem em manter estereótipos da mulher negra como favelada, inculta, barraqueira, hipersexualizadas, domestica mulher ou mãe de bandido, desleixada, negligente com os filhos.

Haja vista que no Brasil, negros em geral e a mulata só aparecem durante o carnaval, para depois aparecerem apenas nas páginas policiais, na sua maioria como bandidos/as ou cadáveres, engrossando as estatísticas da violência contra a comunidade negra.

Há muito que ser debatido no movimento negro e de mulheres sobre a situação especifica da mulher negra e como poderemos reverter essa situação de miséria, pobreza, violência, morte e desesperança.

 

Pra saber mais:

- http://www.progresso.com.br/policia/populacao-carceraria-feminina-cresce-256-em-2012-divulga-diretor-do-depen

- http://www.ebc.com.br/noticias/brasil/2014/11/saude-lanca-campanha-contra-racismo-no-sus

http://www.compromissoeatitude.org.br/wpcontent/uploads/2014/01/RASEAM_interativo.pdf0http://www.institutobuzios.org.br/documentos/MULHER%20NEGRA%20DADOS%20ESTATISTICOS.pdf

- http://blogueirasfeministas.com/2012/11/a-violencia-contra-as-mulheres-negras/

 

Entendimentos & Compreensões de

Candida Maria Ferreira da Silva

Assistente Social, Teóloga, Especialista em Infância e Violência Domestica pela USP. - Rio de Janeiro – RJ -

Candida é autora do Diário
blogcontosrecontos.blogspot.com.br