quarta-feira, 1 de julho de 2015


A Viúva e os Órfãos...!


Ovo e uva boa!

Pregão de Feirante

No anedotário militar da primeira metade do século passado há uma referência, que era frequentemente lembrada pelo general Ernesto Geisel durante seu governo, sobre a “viúva”, expressão que é utilizada largamente até os dias de hoje. “É a Viúva de Caxias", referindo-se à Pátria Mãe e se pode supor que a expressão nasceu quando alguém lhe perguntou: "E quem paga?". Isto só vem demonstrar a “premissa falsa” sobre a qual se apoia a Democracia Brasileira, regime que conceitualmente é “do povo, para o povo e pelo povo”, ao desvaler o “povo brasileiro” nesta equação, reduzindo-o à mera condição de ”órfão contribuinte arrimo de viúva”. Na verdade, ela jamais foi viúva, posto que a cada 4 anos se “casa” com um novo pretendente, que nós os órfãos elegemos, achando que nos seria o melhor dos “bondrastos”, ainda que uma grande parcela de brasileiros, verdadeiros “filhos bastardos sociais”, viva da esperança da sua adoção por um “pai dos pobres”, mas que ao final se revela igualmente “cafetão”, escorchando-nos os bolsos seguindo os “bons ensinamentos colonialistas” do “extrativismo tributário”.


Um povo dominado pela preocupação constante da caça ao “leão de cada dia” não se organiza politicamente, pois o “eu sobrevivente” é mais importante que o “nós cidadania” e desta maneira os “cafetões da Pátria Mãe” não precisam mais de se articular nos “escuros porões do Poder”. Hoje podem e o fazem ao “sol do meio dia” nas suas reuniões do Congresso Nacional e demais Câmaras, Judiciário e todas as instâncias do Executivo. Os conceitos básicos de que uma República é composta de Três Poderes “independentes entre si” e de que “todos são iguais perante a lei”, no Brasil é interpretado por eles como “poderes independentes do Povo” e que “igual é o povo entre si”, como o comprova o Sistema de Previdência. Um Congressista pode se aposentar proporcionalmente, desde que tenha cumprido 2 mandatos, a razão de 1/35 por ano de mandato, ou seja, R$ 7.700,00 após 8 anos de mandato, o que corresponde a quase o dobro do teto máximo do INSS para o “vil povão”. Um funcionário público civil ou militar aposenta-se com vencimentos integrais, assim como um “juiz corrupto” é afastado a “bem do serviço público”, mas ainda recebendo vencimentos integrais... Do público. A mesma regra vale para políticos corruptos executivos ou legislativos.


E assim lá se vão 50% dos recursos da Previdência para 28% de segurados. Na Reforma Política em curso na Câmara Federal aprovou-se em 1º turno um interstício de 30 dias para que parlamentares mudem de partido sem a perda de mandato e sem que os partidos renunciados percam o Fundo Partidário correspondente a esse parlamentar e, evidentemente, com o novo partido recebendo pela nova aquisição. Até a inflação que reajusta os “vencimentos deles” é diferente da que reajusta os acordos coletivos laborais, o salário mínimo e as aposentadorias da Previdência Social. Isso significa em termos de Teoria Econômica, que quem “gera a riqueza”, (ou já gerou, contribuindo para o engrandecimento da Nação), vale muito menos do que quem só “gera gastos”. Como dizia um mochileiro inglês, que foi meu professor particular de inglês lá por 1977: “It’s incredible !!! Nobody complains”. (É incrível, ninguém reclama). Lembro-me de protestar de imediato, “por essa intromissão em assuntos estrangeiros”, do gringo mochileiro, ilegal, via Acre. Reclama-se sim. De pênaltis não marcados. De gols marcados em impedimento e até mesmo contra dirigentes de clubes adversários, que põem em dúvida a honestidade da conquista de um título pelo nosso time de futebol do coração. O que mudou desde então? Pouco... Absolutamente muito pouco... Bem, isso em termos de “povo reclamando”, o que é muito recente a partir de junho de 2013. Já no comportamento dos políticos muita coisa mudou e para pior nos últimos 30 anos, principalmente pelo reforço da parte deles na manutenção da República Corporativista do Brasil, já que a partir da Constituinte formou-se o “Centrão” e de lá para cá as Bancadas Ruralista, Evangélica, da Bola e a da Bala. O que o brasileiro ainda não aprendeu e entendeu é que um princípio básico da Democracia é que a sua representatividade se dá através das Câmaras Legislativas, responsáveis em fazer as leis sob as quais o Poder Executivo “conduzirá a Nação” e que o Judiciário “julgará a todos”. Ainda conservamos 200 anos depois um “conceito imperial” do Poder Executivo, que legisla e indica os juízes e desta maneira cuida mais dos seus “jogos de poder”, do que do “interesse do povo”.


Engalfinham-se hoje nas “redes sociais virtuais” os milhões de “órfãos da viúva”, manifestando-se pró e contra, mas que não representam a “malha social real”, composta na imensa maioria da população pelos “filhos bastardos da Democracia”, sem vez e voz. Para eles a viúva não é mãe e nem madrasta, mas simplesmente a “mulher rica”, com anéis de ouro nos dedos, que vez por outra lhes atira um “níquel”, como “esmola social”. A verdadeira “inclusão social”, que hoje é feita sob um “discurso rancoroso” da diferença econômica, só será realizada quando todos os cidadãos tiverem a noção exata dos seus direitos básicos constitucionais, inclusive os da representatividade e isso implica em que todos os níveis econômicos e sociais se façam representar em um parlamento realmente democratizado. A verdadeira inclusão social é um processo integrado pelas ações relativas à prestação de serviços de saúde, educação, segurança e transporte, segundo as necessidades essenciais de cada segmento social sejam no centro ou na periferia das metrópoles ou grandes áreas rurais, que devem estar representadas, não por “caixeiros viajantes políticos”, mas por “vozes locais”. A despeito do alarme dado por Dom João VI em sua partida para Lisboa, foram muitos os “aventureiros a lançar mão da coroa imperial” no Brasil do último século, até o ponto de chegarmos aos tempos de “escândalos políticos” jamais imaginados em uma Democracia e quiçá até mesmo nos regimes ditatoriais mais fechados.


Somente no dia em que a voz da “malha social real” for ouvida e respeitada poderemos dizer que finalmente “já raiou a liberdade no horizonte do Brasil”. Queremos e precisamos do BRASIL PÁTRIA INCLUSIVA sem viúva e sem filhos bastardos, mas com todos “herdeiros legítimos” de uma Mãe Rica e Generosa.

Entendimentos & Compreensões

De Antônio Figueiredo

Cronista e Escritor

São Paulo – SP -