segunda-feira, 13 de julho de 2015


#CenasDaVidaReal:

 

A Visita de Manfredo!


 

Meu nome é Clara, tenho onze anos e uma avó de quem gosto muito. Na verdade, gosto muito das minhas duas avós, mas é sobre uma delas que quero falar hoje.

Essa minha avó mora do outro lado da cidade e trabalha demais. De vez em quando passamos quase um mês longe uma da outra e sinto saudades. O nome dela é Beatriz, mas eu a apelidei de Bibia quando comecei a falar e minhas irmãs mais novas, Ana e Sofia, também pegaram o costume. Ela é engraçada, tem 57 anos; acredita em reencarnação, fadas, duendes e tem três cachorros: Bia, uma labrador preta; Pingo, um lhasa apso velhinho e Morgana, uma schnauzer quase branca que só falta falar.

    

Ela mora em uma casa azul cheia de livros e quando durmo lá, adoro ficar deitada do lado dela, cada uma lendo a sua história preferida, bem quietinha, felizes só por estarmos juntas. Minha avó faz tudo o que eu e minha irmã queremos, acho que é porque gosta muito de nós.

Vovó tem olhos verdes e não enxerga nada sem óculos que vive tirando, tem cabelos claros grisalhos que não pinta há anos e é meio gorducha, mas você não pode dizer isso de jeito nenhum, senão ela ameaça transformar você em uma sapa pestanuda ou em uma barata cascuda. Vovó Bibia adora brincar de bruxa e de vez em quando acontecem umas coisas com ela que me deixam meio cismada, como essa visita que apareceu sem avisar...

Em uma segunda-feira tranquila, vovó chegou em casa mais cedo do trabalho, muito alegre.

Ainda no andar de baixo, vovó foi ao altar e acendeu uma vela de sete cores – uma para cada dia da semana – um incenso de alecrim e agradeceu pelo dia tranquilo. “Graças a Deus por um dia em que ninguém pisou no meu pé, nem puxou o meu cabelo ou o meu tapete, nem me olhou torto”, suspirou satisfeita.

Vovó deu comida para Bia, Pingo e Morgana e subiu, para agradecer no altar de cima. Minha avó tem dois altares! Sim! Por quê? Como garantia, eu acho. São lindos, em minha opinião. Ela tem imagens de Jesus; Shiva; Nossa Senhora; Arcanjo Miguel; Ganesha; Buda; Durga e muitos outros que ela me disse quem são, mas não consegui decorar.


Tem gente que diz que ela fez uma confusão danada; misturou tudo, mas vovó responde que Deus está em todas as religiões e que os altares são dela e ninguém tem nada a ver com isso. De vez em quando minha avó é meio esquentada...

Vovó chegou em seu quarto, tirou os óculos e foi agradecer no altar. Escolheu uma vela amarela, sua cor favorita, e foi pegar um incenso de alecrim no cesto ao lado, quando viu o que, no escuro, pareceu um paninho largado em cima das caixas. Pegou por uma das pontinhas e, como achou que poderia estar empoeirado, deu uma boa sacudida para dobrar depois.

Foi aí que, mesmo sem óculos, vovó percebeu que o “pano” estava olhando para ela com dois olhinhos zangados meio zonzo! Soltou com cuidado os olhinhos no cesto, voltou correndo para o quarto, pegou os óculos e uma toalha lilás, e voltou para o santuário/varanda, para descobrir que tinha chacoalhado um morceguinho do tamanho de seu punho – vovó tem punhos pequenos -, que ainda estava meio tonto e indignado.


Vovó acha que todo mundo deve ter um nome e decidiu que o morceguinho tinha cara de Manfredo. Resolvido o problema, ela ficou meio embatucada, sem saber o que fazer com ele, já que era noite escura e ela não é nada corajosa. Meus tios Pedro e Tony, que moravam com minha avó até há pouco tempo, eram os salvadores oficiais de morceguinhos, esse era o primeiro “só dela”. Mas vovó sabia que, se não voasse, Manfredo morreria e não podia deixar isso acontecer.

Bom, vamos lá, Manfredo, disse vovó, desculpe o mau jeito. Isso é para você aprender a não entrar na casa dos outros sem ser chamado. É um perigo aparecer assim. Já imaginou se tenho um gato? Você poderia ter virado jantar. Continua ela, enquanto joga a toalha lilás em cima do cesto e desce as escadas com cuidado.

Srrrcccc, srrrcccc, srrrccccc.... responde Manfredo, tentando escapar do cesto.

Escute bem, rapazinho - continua vovó, que parece achar natural conversar com morceguinhos – Se fosse na casa da minha filha, Fabiana, acha que alguém iria lá fora, lhe ajudar a voar? Nananinanão. A essa hora ela já tinha ligado para uma tal de Zoonoses e teriam mandado na hora um Homem do Saco para...Bom...Acho que você não precisa saber de tudo.

Vovó pousou a cesta na lavanderia enquanto decidia não contar que na Zoonose sacrificam morceguinhos e ia pé ante pé acender a luz e abrir a porta da área de serviço quando ouviu:

Scooooorrrrc, scooooorrrrc, scooooorrrrc....

Scooooorrrrc”? Essa é nova – pensou vovó – que voltou a tempo de ver Manfredo, com meio corpo para fora da cesta, a pontinha da língua aparecendo do lado da boca, fazendo um esforço enorme para escapar.

Nada disso, mocinho, disse vovó, agarrando Manfredo com a toalha lilás com cuidado para não esmagar o bichinho, você vai viver uma grande aventura. Vai aprender a voltar para sua casa.

E lá se foi vovó, em direção ao muro que fica atrás da lavanderia, conversando animadamente com Manfredo que, enrolado na toalha lilás, só com a cabeça de fora, a olhava interessado.


Você está vendo esse muro? É tudo muito simples; morceguinhos só conseguem voar de certa altura. Vou coloca-lo no muro e fico aqui, olhando, tomando conta. Quando você achar que já subiu o bastante é só abrir as asas e ir direto para casa, entendeu bem? Nada de entrar em outra sem avisar!!!

Como Manfredo continuou calado, olhando firme para vovó, ela achou que ele, além de bonitinho, era um morceguinho muito sabido, e o colocou com cuidado no muro, onde ele ficou durante um tempo, até começar a subir devagar. De repente parou, olhando para ela meio de lado.

Vovó Bibia não se fez de rogada: estendeu a toalha de rosto lilás como se fosse uma daquelas redes de segurança de bombeiros e começou a gritar:

Vai, Manfredo, você consegue... Um pé depois do outro! Isso, rapazinho, força, coragem. Bom morceguinho!

E lá se foi Manfredo, devagar, um “pé” depois do outro, enquanto minha avó pulava que nem louca, de camisola, agitando a toalha lilás e gritando palavras de incentivo. Até que... Bom, vou deixar ela contar:

Eu estava pensando que ele ia chegar até em cima do muro, diz vovó, imaginei o Manfredo naquela posição do Rocky, dando socos no ar. Estava até me preparando para comemorar, cantando a música com ele... De repente ele olhou para mim uma última vez e... Zoom foi embora e nunca mais apareceu!


Vovó e eu planejamos colocar uma placa no muro dizendo: “Morcegódromo do Manfredo”, para que morceguinhos desgarrados saibam que ali é uma zona de decolagem segura. Por essas e outras é que eu adoro minha avó Bibia....

 

 

Das Histórias da Vida Real
Beatriz Ramos
Jornalista & Cronista
Brasília - DF