quarta-feira, 30 de julho de 2014


A emoção do Historiador
Antônio Figueiredo pelo Brasil
Na Sala de Protheus

 

Eu Te Amo... De Graça!

 


                                       Uma declaração de amor sempre é ridícula aos olhos alheios. Assim o sente o amante. Afinal, esses olhos alheios não ocupam o mesmo “nosso espaço interno” para enxergar os altares onde colocamos nossos amores e devoções. Mas quando se fala de “torrão natal”, ainda que cada um tenha um diferente, ele é amado egoísta e exclusivamente em seu pedaço físico particular de solo eterizado e misturado às lembranças mais primordiais com seus sabores e cheiros tornados tão especiais.
                                      Como são doces a infância e seus amores e como são ainda crianças a felicidade e a esperança. Como sonhos e realidade são tão vizinhos e companheiros, quando os pés descalços calçam “botas de sete léguas” de “correr longe pela imaginação”. Nunca o medo é tão corajoso e a covardia tão audaciosa. É a manhã da vida nascendo ensolarada ainda que o tempo seja nebuloso, pois somos “todo poderosos” criadores de “deuses” à nossa imagem e semelhança. Somos do todo um pequeno infinito.
                                    Era assim menino, que ao acordar e abrir a janela do meu quarto e avistava o prédio do Banespa e o Martinelli no centro da cidade, mesmo que encobertos pela costumeira “névoa paulistana”. Eu os sabia lá, assim como sabia que ia ouvir no rádio: Bom dia, café! O café que a gente toma e que tem o doce aroma desta terra primaveril, cantada por Roberto Luna e a seguir no Grande Jornal Falado Tupi ouvir Corifeu de Azevedo Marques dizer: São sete horas, não perca a sua condução. Era impossível não se apaixonar por São Paulo por essas coisas tão familiarmente nossas.
                                   O “bandeirante” acordava toda a manhã ao apitar das chaminés das fábricas que se viam pelas várzeas do Tietê, chamando seus operários já às 06h 00h da manhã, junto com os sinos das igrejas chamando às beatas para o Ângelus.
                                    Ouvia a Rádio Piratininga transmitir as horas, nas badaladas dos sinos do Mosteiro de São Bento ao meio dia ao som da Ave Maria de Somma e na abertura e fechamento da sua programação Paris Belfort, acendendo nosso “heroísmo paulista” pela então recente Revolução Constitucionalista de 32. Tudo isso chamava pelo “amor paulista” à Terra do Café e a Locomotiva do Brasil. Ducor non Duco...
                                  Era com capacete de jornal e espadilha de bambu, que “decorávamos” a aula matinal, nas brincadeiras da tarde. Salve, lindo pendão da esperança... Fulguras, oh Brasil florão da América... Já raiou a liberdade no horizonte do Brasil.
 
 
                                 Os “amores pátrios infantis” sempre eram heroicos, pois a guerra recém-finda ainda falava muito de perto ao nosso coração e ouvidos. Por mais terras, que eu percorra, não permita Deus, que eu morra, sem que volte para lá. Assim nos ensinavam as nossas “saudosas professorinhas”: O “verde” são nossas matas, o “amarelo” o nosso ouro, o “azul” é o nosso céu estrelado e o “branco” a paz do nosso povo.
                                   Marchava-se nos bairros nos desfiles escolares nas datas históricas nacionais, estaduais ou municipais com um tradicional “concurso de fanfarras”. A criançada vestindo o uniforme da sua escola exibia uma “fina fita de seda verde e amarela” amarrada à blusa. Foi então que aconteceu o “desfile militar” mais lindo, que já vi.
                                     Foi no dia 25 de janeiro de 1954 em comemoração ao IV Centenário de São Paulo. Minha avó, para matar as “saudades da santa terrinha” e ver desfilar a Marinha Portuguesa, me carregou para a Av. São João em frente ao prédio dos Correios e Telégrafos e então vi e me deslumbrei com a Banda dos Fuzileiros Navais da Marinha de Guerra do Brasil e suas evoluções, bem como do sobrevoo dos primeiros jatos da Aeronáutica, os Gloster Meteor. Assim nasceu minha “paixão cívica”.
 
                                   À noite uma “chuva de prata” frustrada pela cerração. Guardei a folhinha comemorativa de alumínio da SPAM WOLF por muito tempo.
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                                 Ir a Santos nos anos 50 saindo de São Paulo pela Estrada do Vergueiro até alcançar a Via Anchieta no Ipiranga era percorrer o “caminho dos pioneiros”, admirando a então quase intocada e exuberante Mata Atlântica na Serra do Mar. Chegar a São Vicente e ver o marco implantado por Martim Afonso de Souza em frente à Biquinha, cruzar a Ponte Pênsil e chegar à Praia Grande onde existia apenas um grande quiosque coberto de sapé para piqueniques, era encontrar ainda intata a visão de chegada dos colonizadores. Como não amar perdidamente essa natureza tão brasileira?
                                Foi minha vida cigana de andarilho por este Brasil imenso, que me levou a conhecer os Campos Gerais do Paraná, então densos de araucárias, gralhas e pinhões na minha adolescência, assim como a beleza de serras e vales de Santa Catarina. Já homem feito fui me encantar com as serras, cerrados e rios de Minas Gerais, todo o Nordeste e parte do Norte e Centro Oeste. O “paraíso terrestre” nunca me pareceu tão familiar e identificável, junto à certeza de que a criação nos reservou sempre do melhor. Como não senti-lo admirando o Rio Amazonas?
                               Foram tantos “brasis” que a alma inundada de beleza tendeu à imensidão, mas que a memória falhou em guardar claras, tantas imagens, sensações, sabores, cheiros, sabores e amores.
                                Contudo, nenhuma riqueza neste continente brasileiro é tão esplendorosa quanto o seu povo. Quando se parte do interior para as capitais é como se uma “mistura dégradée” de gentes e raças tivesse se formado a partir do litoral de entrada até os rincões mais ermos, onde se exibe a pureza dos “nativos brasilienses”, com sua fala e regionalismos, sua comida e sua forma de vida e de ser brasileiro.
                               Já nas cercanias do mar os muitos sotaques e heranças estrangeiras nos fazem crer, que somos a “terra prometida do maná e do mel” para muitos deserdados de sua terra natal e que vieram ao “Novo Mundo” simplesmente para construir uma “pátria de todas as raças”. Uma Babel onde se desfez a maldição da “confusão das línguas”.
                                 Com exceção de países que tinham uma matriz pronta no seu processo de formação do caráter nacional, (é o caso dos USA, que partiram de um “caráter Quaker”), países como o nosso, cujo desenvolvimento do caráter de nacionalidade se faz por “combustão espontânea”, tem que ter a consciência de que só o tempo e a fusão dos mais diversos caráteres de origem, acabarão por formar uma “consciência de brasilidade” e esse é um processo lento em que as hegemonias vão cedendo espaço à formação de um “padrão brasileiro” único.
                               Continuamos a fazer ferver esse “melting pot” e depois de decorridos 150 anos dos primeiros fluxos migratórios começamos a “refinar” a nossa identidade coletiva. Somos uma mescla de olhos azuis e amendoados. De pele branca, negra, amarela e vermelha, (bronzeada). O atual discurso divisionista de separação por “coloração da íris”, não encontra mais eco, pois nunca foi tão essencial, que se encarem os problemas nacionais, não mais regionalmente, mas sim à luz de uma “integração nacional” efetiva.
 
                               Sul, Sudeste, Norte, Nordeste e Centro Oeste são partes integrantes e não divididas deste “continente brasileiro” e é dessa diversidade coletiva, que se compõe o nosso “amor pátrio”.
O amor nunca divide. Sempre soma.
É por isso que te amo de graça...
 
Das percepções e lembranças de
Antônio Figueiredo – Entre Algum Lugar entre a Bahia e São Paulo
Economista, Escritor, Empresário, Militante Apartidário Parlamentarismo e Voto Distrital Puro. Ex - Ativista Movimentos Sociais Católicos/ Metalúrgico/ Estudantil (1961/73). Operário da Cidadania